A normalização da cadeirada e o bizarro que pode nos governar

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A normalização da cadeirada e o bizarro que pode nos governar



A democracia custa caro e dá trabalho, mas não existe ainda um regime de governo melhor, que garanta liberdade e outros direitos fundamentais para o desenvolvimento humano. Procuremos nos acostumar com a democracia, então. Um pressuposto democrático está na aceitação das diferenças. Essa necessidade entra em crise quando o vale entre as diferenças se acentua e os extremos deixam de ser Lula e Bolsonaro para assumirem formas bizarras aparentemente saídas de um reality show dos mais vagabundos, como Pablo Marçal e Datena.

Mas tudo pode piorar com a normalização do bizarro que acontece há anos. E é preciso entender como chegamos aqui.

Crise

Primeiro, há uma crise imensa na política de verdade, inundada de fisiologismo, clientelismo e outros elementos de corrupção braba.

Há uma frase muito conhecida afirmando que não existe vácuo nas relações que envolvem o poder. É verdade. E uma das relações que envolvem o poder é a que existe entre o povo e os seus representantes. E ela que vive a maior crise do modelo democrático atual.

Cada escândalo de corrupção dos últimos anos contribuiu para implodir a capacidade que a população tinha de se sentir representada por seus políticos.

Representação

Rousseau, em seus escritos no século XVIII, chegou em determinado ponto a justificar a escravidão como uma necessidade para o funcionamento da democracia. Dizia que para os homens realmente se ocuparem com atenção aos assuntos do Estado, precisavam de servos trabalhando em seus negócios.

Ele não defendia a escravidão, é bom que se diga, e nem negava o quanto ela é abominável. Mas explicava que o fim da escravidão fez as pessoas abandonarem os assuntos públicos para cuidar dos privados e dái surgiu a necessidade de representantes políticos.

Combos

Desde o início da Nova República em que ainda estamos, os brasileiros receberam muitas melhorias em suas vidas. Economia equilibrada, inflação razoável, benefícios sociais e acesso a crédito. Por outro lado, receberam também um combo negativo de ingerência pública em sua vida privada combinada a altos impostos e escândalos de corrupção frequentes.

O noticiário sério no país está repleto de mau uso do dinheiro pago em tributos pelo povo e jogos de poder que dizem mais sobre vitórias privadas de políticos e partidos do que sobre a condução da gestão em si.

É aí que surge o bizarro, primeiro para dar risada e depois para governar.

Humor atrapalha

Há um estudo sobre comportamento humano que relaciona o humor com uma “analgesia da consciência crítica” do cidadão. Você começa fazendo piada da corrupção como crítica e, aos poucos, a sociedade vai mais rindo do que se indignando, até relativizar tudo.

Enéas Carneiro é um exemplo claríssimo dessa ideia. Passou três eleições presidenciais sendo ridicularizado e transformado em inspiração para esquetes de humor até na quarta eleição se candidatar a deputado e alcançar a maior votação da história até então.

Depois de Enéas veio Tiririca, com seu bordão “pior do que está não fica”, hoje colocado à prova. 

Quando se trata absurdo com humor, o bizarro acaba normalizado e terminamos sendo governados por ele. 

Cadeiras e circo

As provocações de Pablo Marçal não justificam a cadeirada que Datena lhe desferiu. Mas a cadeirada de Datena não apaga os absurdos que estão sendo cometidos por Marçal ao longo da campanha.

A cena da agressão no debate de São Paulo é apenas o meio caminho de uma escalada rumo à apropriação do poder por forças temerárias, sustentadas por grupos criminosos que se alimentam do caos para sobreviver e crescer.

Se ninguém está vendo isso, é bom acordar.

Pode piorar

A eleição da maior cidade da América Latina tem muito de Brasil e do que poderá vir em 2026, 20230, 2034. Não tratar isso como algo natural é essencial, não normalizar o bizarro produzindo “memes” é o que poderia ajudar a atrasar um pouco mais a completa quebra de representatividade entre a população e a classe política, sendo ensaiada nos últimos anos.

Acreditem, senhoras e senhores, Pablo Marçal e Datena são “lordes ingleses” perto do que pode nos governar no futuro. Tem sempre como ficar pior.



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