Gestão cruzou 200 mil registros de velocidade com dados do SAMU para instalar radares em pontos precisos, reduzindo sinistros de trânsito em até 67%
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Muita gente não sabe, mas embora a Prefeitura do Recife tenha tomado a estratégica decisão de não tentar criar regras para o transporte remunerado de passageiros com motocicletas, como o Uber e o 99 Moto, a gestão municipal está ‘tirando proveito’ – digamos assim – da presença das plataformas de mobilidade urbana e firmou uma parceria técnica com a 99 para reduzir a violência no trânsito da cidade.
O gesto, sem dúvida, pode ser visto como uma parceria compensatória pela gestão ter decidido que iria adiar – mesmo com o colapso da saúde pública – qualquer tentativa de regulamentação dos motoapps. É fato. Mas existe o lado positivo que é a melhoria da segurança viária da capital pernambucana que a parceria está proporcionando na prática. Isso é inegável.
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Os números apresentados pela Prefeitura do Recife durante um evento sobre ferramentas e mecanismos para tentar reduzir o risco do serviço de motos, realizado pela plataforma 99 no dia 27/8, no Recife, comprovam. A partir da sobreposição das informações do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) – indicando a geolocalização exata onde as vítimas de trânsito foram socorridas – aos dados da velocidade desenvolvida pelos motoqueiros parceiros fornecidos pela 99, a gestão identificou dois pontos extremamente perigosos instalando novos radares eletrônicos limitados a 50 km/h em trechos estratégicos.
Esses redutores de velocidade foram instalados em dois importantes corredores viários da cidade, de tráfego pesado: A Avenida José Rufino, na altura da estação Tejipió do metrô, na Zona Oeste – uma conexão da área central com a Zona Oeste; e na descida do Viaduto Capitão Temudo, em Joana Bezerra, área central – principal acesso de entrada e saída da Zona Sul. E, o que é melhor: já resultaram em importantes reduções de ocorrências de sinistros de trânsito. Ponto para a segurança no trânsito da capital, que beneficia a todos, inclusive os condutores em geral.
O corredor da José Rufino foi o que obteve o melhor resultado, com uma queda de 67% nos sinistros com vítimas registrados no período avaliado – que foi de um ano e três meses. E o Viaduto Capitão Temudo registrou uma redução de 50% nas ocorrências de trânsito com vítimas. Ganhos obtidos em apenas 7 meses de instalação da fiscalização eletrônica.
“É um recorte estatístico muito representativo, que nos permite entender e fazer a leitura espacial dos locais onde as pessoas excedem velocidade na cidade. É de uma riqueza tremenda, sendo difícil conseguir esse tipo de informação a partir de um dado público. A riqueza estatística foi um divisor de águas nesse caso”, avalia e destaca Gustavo Sales, coordenador executivo da Iniciativa Bloomberg no Recife.
O robusto mapeamento gerou um mapa de calor que deixou evidente que a gravidade das colisões e o volume de feridos graves estão intrinsecamente relacionados ao excesso de velocidade praticado pelos motociclistas. A 99 entregou aproximadamente 200 mil registros estatísticos, apontando locais exatos onde os condutores de motocicletas ultrapassaram em pelo menos 10% os limites de velocidade estabelecidos. Essa foi a base.
Com o sucesso do projeto piloto, a Prefeitura do Recife e a plataforma 99 planejam ampliar as frentes de colaboração para novas ações preventivas. A intenção futura é analisar dados operacionais referentes a manobras perigosas e conflitos de movimentos gerados nas viagens por aplicativos para guiar intervenções de redesenho urbano e fiscalizações. “O objetivo é reduzir lesões e mortes usando bases de dados com a riqueza que operacionalmente a plataforma 99 pode compartilhar”.
DECISÃO DE EVITAR A DESGASTANTE REGULAMENTAÇÃO DOS MOTOAPPS

Apesar de não regular serviço de motoapps, Recife usa dados da 99 para frear mortes no trânsito – ARTE
Apesar do cenário crítico de segurança, a Prefeitura do Recife descartou propor novas regras ou limitações legais para o transporte remunerado de passageiros em motos, como o Uber Moto e o 99 Moto. A gestão municipal alega que tentativas de regulamentação anteriores, ocorridas em 2019, foram barradas na Justiça pelas próprias plataformas – embora a ação original nunca tenha citado o serviço com motos, já que ele ainda não era sequer operado pelas plataformas de mobilidade.
A postura da PCR foi confirmada pelo secretário de Ordem Pública e Segurança, Alexandre Rebêlo, em entrevista ao JC. A gestão optou por uma postura que críticos consideram passiva, recusando-se a seguir os passos de cidades como São Paulo, que criaram diretrizes severas para coibir abusos — o que, inclusive, fez com que a plataforma 99, por exemplo, desistisse de oferecer o serviço de moto.
Segundo Rebêlo, no momento a capital pernambucana aposta exclusivamente no diálogo, em programas de “qualificação” operacional e no poder de autorregulação exercido pelos próprios passageiros e motoristas dentro do aplicativo, sem impor penalidades legais ou fiscais diretas.
IMPACTO DO SERVIÇO DE MOTOS NA SAÚDE E NA SEGURANÇA VIÁRIA
A resistência em criar leis locais para as motocicletas de aplicativo contrasta fortemente com o alarmante colapso enfrentado pelo sistema público de saúde e pelo SAMU Metropolitano. Segundo os dados oficiais, as vítimas de sinistros envolvendo motocicletas já representam mais de 80% do total de atendimentos de trânsito realizados pelo SAMU Recife.
Em 2025, a capital pernambucana registrou, de forma isolada, 6.236 sinistros com motos — correspondendo a mais de 55% de todas as ocorrências de toda a Região Metropolitana do Recife. O avanço é assustador: apenas no primeiro trimestre de 2026, a capital já computou 1.487 atendimentos de vítimas das motocicletas. Esse cenário tem drenado vastos recursos do Estado e gerado um novo perfil de vítimas vulneráveis além do condutor: os passageiros dos motoapps.














