Efeitos incertos da IA

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Efeitos incertos da IA



Alertas feitos por Bill Gates traduzem preocupações crescentes em relação às consequências do uso massivo da Inteligência Artificial

Por

JC


Publicado em 27/08/2026 às 0:00

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Em debate no Festival Literário Internacional de Paracatu – Fliparacatu – em Minas Gerais, na última quarta, o escritor Jeferson Tenório afirmou, a respeito do uso da inteligência artificial (IA) na literatura: como escrever é uma experiência, quem utiliza a IA para escrever está abdicando dessa experiência, e assim, abdica também de si mesmo.
A visão de Tenório expressa reflexão que se propaga nos meios onde a ferramenta tecnológica invade o território da criatividade. A criação oriunda da experiência necessária para o broto da palavra – na expressão de Taiane Santi Martins, que também participava da conversa no evento literário – perde consistência com a substituição da indagação de si, que caracteriza a escrita, pelos prompts que entregam textos instantâneos, sintetizando material disponível na internet sobre determinado assunto.
A questão dos limites vai além da capacidade produtiva da tecnologia. Em perspectiva otimista, de viés mais econômico, tudo proporcionado pela IA é apresentado como vantagem favorável à eficiência do trabalho humano, inclusive o trabalho criativo, com menor custo e melhor resultado. Em perspectiva pessimista ou realista, de viés mais filosófico, importantes personalidades vêm expondo preocupação quanto ao avanço da artificialização da inteligência. Como Yuval Harari, para quem um dos riscos é o domínio da linguagem por uma tecnologia capaz de controlar e manipular a cultura humana, já que a linguagem é a base da civilização.
Na última terça-feira, a discussão recebeu a contribuição de Bill Gates, criador da Microsoft e do sistema Windows. Para Gates, considerado otimista em relação aos avanços tecnológicos, é preciso grande cuidado com os impactos econômicos e sociais da IA, cuja velocidade é rápida demais para ser acompanhada pela regulação dos governos e pelos hábitos da sociedade. Segundo ele, não há plano de transição, e os efeitos disso podem ser desastrosos para a humanidade.
“Ironicamente, a mesma ferramenta que permitirá que as pessoas aprendam mais do que nunca também pode fazer com que muitas aprendam menos. Uma pesquisa preliminar sugeriu que o uso mais intenso de IA estava associado a um menor pensamento crítico”, apontou Bill Gates, visão que se alinha ao que disse Jeferson Tenorio. E Gates continua: “A IA pode atrofiar o desenvolvimento de crianças e substituir relações humanas”, escreveu, lembrando que até especialistas em cibersegurança estão com medo dos próximos anos.
Gates faz coro a Yuval Harari ao sustentar que “à medida que os modelos ficam mais poderosos, eles podem começar a agir contra nossos interesses e a gente pode perder o controle”. A tecnofobia identificada em um ícone da tecnologia pode ser surpreendente, mas o tom de alarme, segundo a ótica da preocupação, vem não da ajuda da tecnologia proporcionada ao humano, e sim, da própria substituição do humano pela tecnologia. A insegurança e a incerteza compartilhadas por olhares perturbados pela IA vislumbram instabilidade duradoura adiante, muito além das turbulências ocorridas em outras transições tecnológicas.
Sem freios nem desacelerações, a corrida pela IA pode levar ao lugar inóspito da desabilitação da autonomia humana, prejudicando a inventividade e o criticismo, afetando a aprendizagem, o amadurecimento, as relações sociais e até a serventia das instituições.



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