Eu lembro bem da primeira vez que vi “The Rocky Horror Picture Show”. Era um adolescente gay, que começava a entender a própria sexualidade e que resolveu buscar refúgio nos filmes. Assistia a todo tipo de obra queer que encontrava na internet, sozinho no quarto, com o notebook sobre o colo.
Até que me deparei com a imagem de Tim Curry, morto nesta quarta-feira (26) aos 80 anos, com suas pernas esticadas sobre lábios vermelhos gigantes, diante de um fundo preto. Ele me olhava lascivamente, com sombra escura ao redor dos olhos.
Eram olhos que pareciam provocar o espectador, querer tirar uma confissão dele. Mais tarde eu entenderia que era justamente esse o objetivo de seu personagem, Frank-N-Furter, “uma doce travesti vinda de Transexual, Transilvânia”, no musical cult de 1975.
Na era pré-streaming, o jeito foi baixar o longa de um site qualquer. Ir a uma loja para alugar ou comprar o DVD com capa de homem vestido de corselet de couro e meia-arrastão? Nem pensar.
Foi assim que me rendi ao “prazer absoluto” –como entoa Frank-N-Furter numa das canções do musical, “Rose Tint My World”– de “The Rocky Horror Picture Show” pela primeira vez.
A sensação, ao terminar, foi arrebatadora. São poucos os filmes que te fazem sentir assim, num estado de êxtase absoluto. E esse o fez por dois motivos.
Não só era uma ousadia cinematográfica extremamente original –mérito do diretor, Jim Sharman, e do criador da história e da trilha sonora, Richard O’Brien–, como também falava diretamente com aquele garoto cheio de incertezas e medos.
No papel mais estranho de uma carreira repleta de personagens excêntricos, Tim Curry me mostrou quão maravilhosa era a vida fora do armário. Ele pintou meu mundo de rosa, como diz aquela mesma canção, a que deixa claro que, por trás de toda a esquisitice de “The Rocky Horror Picture Show”, há um coração pulsante e uma reflexão profundamente sensível.
Na trama e fora dela, Frank-N-Furter quer mesmo é tocar o terror, seduzir mocinhos como Brad e Janet para que eles experimentem tudo aquilo que está fora do comercial de margarina heterossexual que se cria na cabeça das pessoas. E isso é muito por mérito de Curry, para quem o papel de cientista maluco gótico foi escrito, ainda no teatro.
Antes um espetáculo em Londres e, depois, na Broadway, “The Rocky Horror Picture Show” é fruto de um esforço coletivo de todos aqueles que, numa década de 1970 ainda muito careta para questões LGBTQIA+, toparam arriscar suas carreiras e vidas públicas naquela aventura sombria, sexy e espalhafatosa que viriam a ser a peça e o filme.
Gente como David Bowie se encantou pelo espetáculo e quis encarnar a “doce travesti” que o protagonizava na adaptação cinematográfica. Mas era Curry, com sua voz marcante, as caras e bocas expressivas, o corpo esguio e o olhar sedutor, quem tinha que levar Frank-N-Furter ao celulóide, eternizando o personagem no que é o filme há mais tempo em exibição no mundo.
Escrito por O’Brien como um cientista alienígena sexualmente ambíguo, Frank-N-Furter foi tomando forma nos ensaios da peça. Foi de Curry, por exemplo, a ideia de dar ao personagem um sotaque inglês aristocrático, que tirava sarro da realeza.
Também é dele a linguagem corporal dominante, sensual e perigosa que muitos copiariam nas muitas montagens que a peça, “The Rocky Horror Show”, ganharia. Nascia, então, um anti-herói camp e transgressor, um personagem que bebia dos filmes B do passado para ser algo extremamente novo e disruptivo nos palcos e telas de então.
Não sonhe, seja. Esta é a mensagem mais poderosa da história, cantada num dos números musicais. Curry emprestou voz, corpo e alma para canalizar este que é quase um apelo feito aos fãs queer que o veem no filme até hoje.
Mesmo que a parte mais memorável de sua carreira esteja restrita a um punhado de personagens, bastava a Curry um Frank-N-Furter para eternizá-lo na história do cinema.
E é assim que o ator se despede nesta semana, como um ícone e super-herói que veio a este mundo se esbaldar —para citar outra canção, “Super Heroes”—, numa época em que eles estavam em falta para um grupo de pessoas que não se via representada em lugar nenhum.














