Cyberbullying, IA e os novos riscos para crianças e adolescentes

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Cyberbullying, IA e os novos riscos para crianças e adolescentes


Evento discutiu os impactos da violência digital e a importância da atuação conjunta das escolas, famílias e sociedade na prevenção e no enfrentamento


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Com o tema “Cyberbullying, IA e crimes digitais”, a quarta edição do JC Educação trouxe para o debate uma realidade que ultrapassa os muros da escola e acompanha crianças e adolescentes em diferentes espaços de convivência.

Realizado na manhã desta quarta-feira (19), na sede do Sistema Jornal do Commercio (SJCC), o evento discutiu os impactos da violência no ambiente digital e a necessidade de atenção e atuação conjunta de gestores, professores, pais, profissionais da segurança pública, imprensa e da sociedade na prevenção e no enfrentamento dessas situações.

Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, cerca de 13% dos estudantes brasileiros entre 13 e 17 anos já foram vítimas de cyberbullying. Entre as meninas, o percentual chega a 16,2%

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Para Jaime Ribeiro, CEO do Programa Socioemocional Educa, apenas proibir dispositivos eletrônicos ou criar “cadeados digitais” para restringir o acesso de jovens à internet é insuficiente para conter a velocidade com que os crimes digitais se disseminam.

Segundo Ribeiro, a sociedade vive a transição de uma “internet lúdica” para um ambiente dominado por algoritmos capazes de estimular o uso contínuo das plataformas. Esse cenário exige vigilância constante e impõe novas responsabilidades éticas também às instituições de ensino.

Cyberbullying, IA e crimes digitais | JC PE Educação

“Parece que nós estamos vivendo ciclos pendulares na educação. Há um ano eu estava falando dos pais, agora nós precisamos olhar novamente para como lidamos com essa geração, que, óbvio, tem o impacto da sua educação da família, mas que nunca foi tão influenciada por influencers, por desenhos animados e por tantas outras coisas”, afirmou. 

O CEO da Educa explicou que embora gerações anteriores também tenham crescido assistindo a desenhos com situações de violência e crueldade, por exemplo, a diferença está na forma como as crianças e os adolescentes de hoje interagem com esses conteúdos e compreendem o que está por trás deles. 

“E daí o nosso desafio hoje é compreender todos esses elementos que afetam os estudantes. Mas sabe qual é o problema? Não é que esse movimento pendular de atenção vem acontecendo, é que ele nos desafia a lidar com a sociedade que nós não conhecemos e, principalmente, com o tipo de educação que a gente não estava preparado para lidar”

Jaime Ribeiro, CEO da Educa

 


JAILTON JR./JC IMAGEM

JC Educação – JAILTON JR./JC IMAGEM

Discutir os avanços tecnológicos não pode mais estar fora da pauta da educação. Nesse contexto, a inteligência artificial generativa precisa estar presente no debate, acrescentando uma camada ainda mais complexa às novas formas de interação social e pedagógica.

Por isso, talvez a pergunta mais importante atualmente não seja se a escola pode ou não utilizar a inteligência artificial, mas como essa tecnologia será utilizada. Quais critérios devem ser adotados? Quais limites precisam ser estabelecidos? E, principalmente, como preparar os estudantes para fazer escolhas responsáveis nesse ambiente?

Os dados da TIC Educação 2025, conforme publicado pela coluna Enem e Educação, mostram que essa discussão já faz parte da realidade das escolas. No ano passado, 86% das instituições realizaram reuniões com professores e outros profissionais para discutir o uso de recursos digitais. Entre pais, mães e responsáveis, o percentual foi de 75% no mesmo período.

Carla Alexandre, PhD em Educação Tecnológica e gestora de Soluções Educacionais no CESAR/Porto Digital, ainda chama atenção a ausência de uma formação mais ampla dos professores para a produção e o uso pedagógico das tecnologias digitais, especialmente diante do caráter transversal do tema na educação. Segundo a especialista, as formações ainda se concentram excessivamente na instrumentalização técnica, em vez de promover uma mudança pedagógica voltada para a ética e a autonomia dos estudantes.

“Nós temos a péssima mania, muitas vezes, de esperar que o problema chegue. E na escola são tantos ‘incêndios’ que nos acostumamos a trabalhar na emergência das coisas. Na escola a gente trabalha com planejamento anual, mas tem muitas coisas ainda na educação digital que a gente não antecipa porque ficamos esperando as coisas acontecerem, e elas ocorrem muito rápido”, destacou a especialista.

Segundo Carla Alexandre, é preciso que a escola atue não apenas na proteção dos estudantes, mas também na prevenção e na conscientização sobre o uso das tecnologias, adaptando-se às rápidas transformações sociais.

“Eu acho que o problema não é a tecnologia, de verdade, não é. A tecnologia só amplia e amplifica o comportamento humano, aquilo que já existe”, disse.

“Uma criança, um adolescente ou um adulto pode produzir um conteúdo muito rapidamente, e uma imagem pode ser manipulada por IA. Depois um comentário pode alcançar centenas de pessoas em minutos e uma brincadeira pode se transformar em violência digital. E muita gente diz: ‘mas era só uma brincadeira, né?”

Carla Alexandre

A questão, portanto, é educar crianças e adolescentes para compreender as consequências, os impactos e a responsabilização por aquilo que fazem. São questões anteriores ao próprio uso da tecnologia e, a partir delas, começa-se a construir consciência e competência digital.

“A escola não precisa apenas ensinar o estudante a não praticar o cyberbullying, mas precisa ensinar a reconhecer. Porque muitas vezes essa ausência, ‘ah, mas eu não sabia, era só uma brincadeira’. É a normalização. Quando uma situação está se transformando em violência e o limite é muito tênue. E aí o espectador — e isso é super interessante porque não atinge só a escola —, o espectador também educa. Quantas pessoas curtem, compartilham, comentam? Isso também faz parte do processo e extrapola o ambiente escolar”, afirmou Carla Alexandre.

 

 


JAILTON JR./JC IMAGEM

“A inteligência artificial já faz parte das práticas de professores e estudantes, mas a formação para compreender seus usos, limites e consequências ainda não acompanha a mesma velocidade”, Carla Alexandre – JAILTON JR./JC IMAGEM

Ambientes seguros

A repercussão de casos graves também reforça o papel dos veículos de comunicação não apenas na denúncia, mas na disseminação de informações que contribuam para discutir o tema com responsabilidade e ampliar o conhecimento sobre as formas de prevenção e enfrentamento.

Essa discussão também tem avançado no campo legal. Desde 2024, as práticas de bullying e cyberbullying passaram a ser tipificadas no Código Penal. No caso do cyberbullying praticado por meio da internet, redes sociais, aplicativos, jogos on-line ou transmitido em tempo real, a legislação prevê pena de reclusão de dois a quatro anos e multa, quando a conduta não constituir crime mais grave.

Em 2025, as ocorrências registradas pelas polícias envolvendo essas práticas cresceram 67,3%, chegando a 5.226 casos. Os dados, reunidos no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, apontam 4.549 registros de bullying e outros 677 relacionados especificamente ao cyberbullying.

Mas a repressão não é o suficiente. “A gente vai na casa do abusador, muitas vezes do aliciador dessas crianças, e a gente prende, a gente tira ele da sociedade, mas eu não tiro o trauma dessas crianças. Eu não consigo tirar o trauma de uma criança que sofreu cyberbullying no colégio. Eu não consigo tirar o trauma de uma criança que sofreu um crime digital, um abuso sexual digital”, afirmou a policial federal Mayara Thais de Castro, instrutora do Programa Guardiões da Infância.

“A gente fala muito sobre bullying e cyberbullying no colégio porque percebeu que adolescentes vítimas dessas violências podem ficar mais vulneráveis à ação de aliciadores e abusadores. Por quê? Ela chega no colégio, lá ela sofre [bullying], ela não tem amizade. Ela chega em casa, o pai tá cansado, a mãe tá cansada… Então ela vai procurar amor, afeto e amizade em algum lugar. E tá cheio de abusador e aliciador oferecendo amor e afeto para as crianças”, alertou.

O Programa Guardiões da Infância, criado pela Polícia Federal, atua na prevenção e no enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes. Policiais federais voluntários são capacitados para levar informação, orientação e apoio a escolas e instituições de todo o Brasil.

Por meio de palestras e atividades socioeducativas, o programa utiliza material didático padronizado para orientar adolescentes, educadores, famílias e integrantes da rede de proteção sobre os riscos no ambiente digital e as formas de prevenção.

A iniciativa atende principalmente adolescentes de 12 a 17 anos, além de professores e gestores de instituições educacionais, pais, mães, responsáveis e integrantes da rede de proteção. Para cada público, o programa desenvolve uma abordagem específica.

Para os adolescentes, os conteúdos abordam temas como bem-estar e saúde mental, segurança e privacidade na internet, respeito e empatia nas redes, desinformação e relacionamentos seguros on-line.

“A gente fala muito com os adolescentes sobre como eles estão emocionalmente nas redes sociais. Também falamos muito  com eles essa questão de que eles também serão responsabilizados pelas atitudes que estão cometendo, que têm consequências. Outro ponto é sobre respeito e empatia nas redes, que também entra sobre essa questão de bullying, cyberbullying e desinformação”, explicou Mayara Thais.

Os pais e educadores têm papel central na prevenção, com diálogo, conscientização e acompanhamento da vida digital de crianças e adolescentes. Enquanto as famílias devem estabelecer regras e manter um olhar atento, os professores precisam estar preparados para identificar e acolher situações de violência.

“Eu sempre pergunto para os pais: ‘Vocês deixariam seus filhos irem para uma festa que tivesse drogas?’ Geralmente, a gente responde: ‘Não’. E eu falo: ‘Sim, eu deixaria. Primeiro, eu não sei se vai ter droga lá ou não. Como é que eu tenho controle sobre isso? Outra coisa: eu conscientizo o meu filho para que, se tiver, ele não use, porque não é saudável. Assim é a internet”, explicou a policial federal. 

 


JAILTON JR./JC IMAGEM

JC Educação – JAILTON JR./JC IMAGEM

Tecnologia não vai resolver tudo

Neste ano, o JC Educação integrou a programação da Jornada Bett Nordeste 2026, realizada no Recife Expo Center, nessa quarta e quinta-feira (20).

Adriana Martineli, diretora de conteúdo da Bett Brasil, mostrou preocupação com o uso da tecnologia de uma forma que possa contribuir para a desumanização das relações. Para ela, em meio à crescente presença das ferramentas digitais, é necessário preservar aspectos fundamentais da convivência humana, como a escuta, o vínculo e a confiança.

“O que estou sentindo nas relações humanas é a falta de escuta, e ela precede uma relação de confiança entre as pessoas. Se eu tenho uma relação de medo, do filho com o pai, de que ele não conta as coisas porque tem medo, essa relação não é de vínculo de confiança. E o que podemos esperar disso?”, afirmou.

Ainda de acordo com Adriana, é preciso resgatar o que há de mais humano na sociedade, com relações baseadas em respeito, autenticidade e transparência.

“Estamos nos desconectando, e isso me apavora em termos educacionais, de emoções, de possibilidades de mais crimes, violência”, alertou.

Nesse contexto, a tecnologia não deve ser vista como solução para questões que têm origem nas relações humanas. O papel da educação também passa por fortalecer vínculos e preparar crianças e adolescentes para lidar de maneira responsável com as transformações provocadas pelas novas tecnologias.

“Não é a tecnologia que vai resolver. Problemas de origem humana são resolvidos por humanos”, concluiu.


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“E daí o nosso desafio hoje é compreender todos esses elementos que afetam os estudantes. Mas sabe qual é o problema? Não é que esse movimento pendular de atenção vem acontecendo, é que ele nos

Jaime Ribeiro, CEO da Educa

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“Uma criança, um adolescente ou um adulto pode produzir um conteúdo muito rapidamente, e uma imagem pode ser manipulada por IA. Depois um comentário pode alcançar centenas de pessoas em minutos e uma brincadeira pode se t

Carla Alexandre






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