Novo podcast de Chico Felitti investiga adoções feitas em mansão no Pacaembu

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Novo podcast de Chico Felitti investiga adoções feitas em mansão no Pacaembu


Existe um casarão vazio no alto do Pacaembu, na zona oeste de São Paulo. O imóvel tem 46 mil m² de área total, mais de 90 quartos e 30 tipos de árvores no pomar do jardim, entre eles, 74 pés de jabuticaba. Há quase 30 anos, pertence à Fundação Faculdade de Medicina da USP, que nunca conseguiu transformar o palácio tombado em qualquer coisa.

Hoje, apenas seis funcionários trabalham no castelo e as outras únicas pessoas permitidas a entrar na mansão são professores da faculdade que usam um espaço do local de estacionamento. O prédio é um elefante branco no bairro.

A mansão, projetada pelo escritório de Ramos de Azevedo no início do século 20, abrigou a unidade Sampaio Viana da antiga Febem até 1998. Centenas de crianças afastadas das famílias passaram pelo local —700 estiveram ali ao mesmo tempo, muitas encaminhadas à adoção internacional.

Em “As Irmãs”, que estreia em 12 de agosto no Amazon Music, o jornalista Chico Felitti apresenta com Mari Muradas, co-idealizadora do Doulas de Adoção, a trajetória de Silmara Sebastião.

Adotada por franceses aos sete anos, Silmara passou mais de três décadas buscando as origens, distante de seu país e vivendo com uma família que a via como “menos filha”.

Em seis episódios, a investigação reconstrói seu passado no Brasil e acompanha o reencontro com uma irmã biológica que desconhecia.

A ideia do podcast nasceu durante a produção de “A Mulher da Casa Abandonada“. Envolvida no caso de Higienópolis, Muradas já investigava há anos o outro casarão, no Pacaembu.

Adotada e filha de mãe também adotada, ela usou a própria vivência para tentar compreender o destino de centenas de crianças que passaram por aquele espaço. “No começo tinha a Mari, uma pessoa que foi adotada, filha de outra pessoa que também foi adotada, e uma casa vazia. Era o que a gente tinha. A gente não sabia para onde esse bicho ia”, afirma Felitti.

Durante os episódios, Muradas compartilha a própria experiência como filha adotiva e narra a busca por suas origens, tornando a série também um relato pessoal e uma crítica à falta de documentação das crianças adotadas.

A equipe encontrou processos de adoção com poucas folhas e descobriu que muitos ex-internos do Sampaio Viana sequer sabiam onde procurar informações sobre a própria infância. Para Muradas, preservar esses registros deveria ser parte do processo adotivo.

Em vez de um criminoso ou de um personagem cercado por controvérsias, como em “A Mulher da Casa Abandonada”, “A Síndica” e outras produções de Felitti, o novo podcast mira um alvo menos visível. Desta vez, a vilã da história é engrenagem de um sistema que separou crianças de suas famílias. “Não existe uma pessoa acusada de um crime. O problema é maior, o problema está no país, o problema está nas instituições”, diz o jornalista.

Segundo Felitti, um dos principais desafios foi compreender que muitas das crianças enviadas ao abrigo sequer eram órfãs. “Não dá nem para chamar de orfanato, porque essas crianças não são órfãs, essas crianças eram só pobres”, afirma. “Elas eram colocadas no que uma ex-diretora da Febem chama de ‘Carandiruzinho’, porque eram pobres.” Para ele, a constatação deslocou a investigação de Silmara para como o Estado trata infância e adoção —o que ela chama de “tráfico infantil”.

Prontuários incompletos, documentos desaparecidos e processos inacessíveis fizeram a investigação depender da memória de ex-internos e de poucos arquivos públicos.

“Estou fascinado pelo universo da história oral, de como você consegue contar histórias que não foram documentadas”, afirma Felitti. “Se você depender da documentação de praxe de uma investigação, você não conta a história delas.”

Muradas diz que o podcast reforçou a percepção de que adotados enfrentam barreiras para acessar a própria história. “A gente ainda tem muita coisa para melhorar. A gente precisa ampliar essa discussão, a gente precisa facilitar esse acesso”, afirma.

Segundo ela, muitas famílias ainda enxergam a adoção como um recomeço absoluto, apagando tudo o que veio antes. “Às vezes as pessoas adotam e acham que podem arrancar as páginas anteriores e que começa um livro em branco. E não. Aquela criança é um sujeito de direito. Ela teve uma história inteira.”

Para Muradas, preservar registros e facilitar o acesso a prontuários evita que histórias como a de Silmara se repitam.

Conforme novas personagens surgem, a série amplia sua escala e passa a questionar quantas outras famílias viveram separações semelhantes sem jamais conseguir reconstruir o próprio passado.

“As irmãs no plural não são só essas duas possíveis irmãs”, diz Felitti. “Aparecem outras duplas de irmãs e, no final, a gente fica se questionando se é um país de quantas duplas de irmãs.”



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