Por décadas, ela foi a musa do cinema novo e marginal. Ora uma jovem tímida e melancólica que se apaixona por um padre no interior mineiro, ora uma fera oxigenada de vestido vermelho curto que subjuga os homens ao seu redor.
Aos 87 anos, Helena Ignez, estrela de “O Padre e a Moça” e “Copacabana Mon Amour”, é descrita na “Ocupação” do Itaú Cultural em São Paulo como “antimusa” —recusando-se a ser reduzida a viúva do cineasta Rogério Sganzerla ou ex-mulher de Glauber Rocha.
“Há a musa que se esgota, paralisada, eterna, e há outra, ativa. Realmente, eu seria a antimusa. Mas hoje vejo a musa com carinho também. Talvez eu inspire mesmo as pessoas”, diz a atriz, em conversa por telefone, de Fortaleza.
Afinal, enquanto os paulistanos agora podem ver os rastros desse percurso longevo —entre fotos de seus trabalhos, cenas de filmes, documentos e itens pessoais—, Ignez não se deixa cristalizar.
Está, desde abril, trabalhando a peça “Fim de Partida”, na pele de Nell, mãe do protagonista de Marco Nanini. É um reencontro com o ator recifense, que iniciou profissionalmente nos palcos ao lado dela, em 1968, num papel coadjuvante em “Salomé”, enquanto Ignez vivia a jovem sensual que pede a cabeça de João Batista.
Após se apresentar em Brasília e na capital cearense, a baiana passou apenas dois dias em São Paulo. Logo partiu para Recife e se prepara para, em agosto, levar o trabalho ao Rio de Janeiro.
Também monta o curta “Des-criação” com seu genro André Guerreiro Lopes e prepara nova montagem de “Savannah Bay”, de Marguerite Duras, para outubro.
Repetindo o que fizeram em 1999, Ignez será Madeleine, uma atriz idosa que reconstitui suas memórias com a ajuda de uma jovem, papel de Djin Sganzerla, sua filha caçula. No lugar de Rogério, morto em 2004, aos 57 anos, a direção caberá, dessa vez, a Guerreiro Lopes, e promete misturar elementos do cinema de Georges Méliès.
Ignez diz ter recusado ainda um convite da Cinemateca de Los Angeles para poder equilibrar esses projetos que vão se somar à já farta programação desta que é a primeira “Ocupação” dedicada a uma cineasta mulher.
A exposição acontece 16 anos após o Itaú Cultural ter homenageado Rogério Sganzerla, companheiro de Ignez por mais de três décadas. Foi em seus filmes que a atriz teve suas performances mais viscerais, como a feminista Ângela Carne e Osso, de “A Mulher de Todos”, e a mulher do personagem de Jorge Loredo, o Zé Bonitinho, em “Sem Essa, Aranha”.
Esse último é um dos sete filmes da Belair, produtora articulada por Ignez com Sganzerla e Julio Bressane, rodado no Brasil em 1970 e finalizado no exílio em Londres após perseguição da ditadura. Alguns deles não existem mais na íntegra, como “Carnaval na Lama”, ou não foram concluídos, como “A Miss e o Dinossauro”, cujos fragmentos inspiraram um curta de 2005, dirigido por Ignez.
“Rogério sempre foi maravilhoso comigo porque nunca deu corda ao meu ego. Sempre trouxe para uma verdade interior”, diz a atriz. “Uma vez perguntaram do que ele mais tinha se apaixonado [em mim]. Ele falou: ‘a coragem’.”
Juntos, criaram obras radicais em que a liberdade da linguagem cênica e corporal permitia cenas de Ignez gritando, declamando, rebolando, regurgitando e interagindo com o povo pelas ruas.
Aliás, é de “A Família do Barulho”, dessa mesma época, a cena projetada numa cortina de miçangas, na entrada da mostra. Com seus fartos cachos louros, a Helena Ignez de cinco décadas atrás mira fixamente a câmera, antes de vomitar sangue às golfadas; num piscar de olhos, a cena se repete, agora com a atriz já octogenária.
“Os jovens garçons que me atendem em hotéis pelo Brasil [na excursão de ‘Fim de Partida’] me chamam de senhorita”, diz a atriz, às risadas. “É uma experiência maravilhosa.”
Em paralelo às atividades presenciais, o streaming Itaú Cultural Play, gratuito, faz uma retrospectiva da sua carreira com mais de 20 títulos, em cópias de boa qualidade. O mais antigo deles é o curta experimental “Pátio”, o primeiro trabalho dirigido por Glauber Rocha.
Estrelado e produzido por Ignez com prêmio de concurso de miss, o filme é de 1959, ano em que ela se casou com o baiano, ambos aos 20 anos.
Na mostra, “Pátio” —uma espécie de balé vanguardista, anterior à “estética da fome”— é projetado sobre um tabuleiro no núcleo dedicado à formação de Ignez, nascida na elite de Salvador, e no qual se destacam algumas raridades, como uma caderneta escolar e colunas sociais assinadas por ela num jornal sob o pseudônimo de “Krista”.
Há ainda uma espécie de álbum de família, com fotos de sua infância, do casamento com Glauber, com quem teve a filha Paloma Rocha, e do seu círculo íntimo ao longo das décadas.
Vizinha a esta seção está aquela sobre suas origens nos palcos como parte da pioneira Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, fundada em 1956. “Tive uma formação tão maravilhosa que é de agradecer a Deus; aquele momento de Salvador, com [o diretor e cenógrafo Eros] Martim Gonçalves e Lina Bo Bardi, foi um pessoal de altíssimo nível”, diz.
Mas o cinema já estava entranhado em seu imaginário, diz ela, lembrando a devoção por Marilyn Monroe. “A minha grande referência poética e real é a Marilyn, uma musa trágica que, aos 36 anos, já não estava mais entre nós. Talvez eu, aos 87, seja o contrário dela”, diz. “Era maravilhosa, de um olhar totalmente invulgar. Me iluminou desde o meu primeiro trabalho na Bahia, ‘Nossa Cidade’, do Thornton Wilder.”
O curso foi divisor de águas, dando-lhe acesso a Brecht, Stanislávski e à dança expressiva com Yanka Rudzka. “Eu danço todos os dias, só se eu estiver muito ruim eu não danço”, diz.
Esse estofo se refletiu já em suas participações em peças como “A História de Tobias e Sara” e “A Ópera dos Três Tostões”, de Brecht, além de seu primeiro longa, “A Grande Feira”, de 1961. Neste mesmo ano, desquitou-se de Glauber e foi para o Rio em busca de liberdade, fazendo sucesso em “O Assalto ao Trem Pagador”, de 1962, e aproximando-se do cinema novo.
Pensada para o papel que ficou para Yoná Magalhães em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber, faz em 1964 “O Grito da Terra”, de Olney São Paulo, um drama social hoje menos lembrado —que está no streaming.
A interpretação contida de “O Padre e a Moça”, de 1966, seria a mais notável do período —ainda que Ignez tenha péssimas memórias da experiência no set—, ao lado da Luciana de “Cara a Cara”, de 1967, de um Bressane pré-experimental.
Depois, Sganzerla se aproximou de Ignez no Rio, quando mostrou um artigo que fizera sobre o filme de Joaquim Pedro de Andrade —também na “Ocupação”. A partir daí, os dois fariam juntos “O Bandido da Luz Vermelha” em 1968.
Paralelamente, trabalhou em TV, novelas e teatro entre Rio e São Paulo, colaborando com nomes como Ziembinski, Paulo Gracindo e Oduvaldo Vianna Filho.
O ponto de ruptura seria com o musical “Hair”, de 1969, que, apesar do sucesso em seu retrato da vida hippie, já não a satisfazia como artista. “O ‘Hair’ significou esse momento em que preferi a arte, os filmes de Rogério e Bressane, mesmo com todos os riscos que pudesse ter”, diz.
“Ao mesmo tempo, a peça teve uma influência enorme em mim, já que depois eu me tornaria Hare Krishna“, afirma ela, que virou monja hinduísta nos anos 1980. Daí seu currículo ter menos trabalhos após o período intenso da Belair, e só voltar a engrenar a partir da década de 1990, quando também começa a dirigir filmes —como “Luz nas Trevas”, uma espécie de continuação a “O Bandido da Luz Vermelha”— e a montar novos espetáculos.
A mostra exibe leque e espada de sua prática de tai chi chuan, além de sua relação com a psicodelia em trabalhos recentes.
“A cannabis é um remedinho para as mentes sofridas e nervosas”, diz a atriz. “As primeiras impressões que tive com a psicodelia foram extremamente fortes: ‘Eu não entendo nada, sou uma folha que cai de uma árvore’.”
Em meio a tantos títulos já célebres, o Itaú destaca ainda “América do Sol”, filme rodado por Léo Duarte em 2000 e só finalizado agora, do qual Ignez sequer lembrava de ter participado. Ela faz uma ponta como Sônia Silk de “Copacabana Mon Amour”, aquela que, aos berros, diz ter “pavor à velhice” —personagem que Ignez ainda carrega, embora mais zen.
“A morte é uma coisa muito interessante e a vida não é fácil, né? Ela tem que ser mantida com alegria, que é a prova dos nove.”













