Orquestra Criança Cidadã e o ritmo que atravessou o Coque

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Orquestra Criança Cidadã e o ritmo que atravessou o Coque


Ao completar 20 anos, projeto reúne histórias de encontros da educação musical com oportunidades de formação, trabalho e novos caminhos de vida

Por

Laís Nascimento


Publicado em 24/07/2026 às 6:00
| Atualizado em 24/07/2026 às 8:42


Clique aqui e escute a matéria

Aos sete anos de idade, as cordas do violoncelo apresentaram para Davi Cristian novas formas de reger a vida. Na comunidade do Coque, área central do Recife, trocou as palmas na sala de aula pelo instrumento musical para fazer da música sua forma de expressão.

Hoje aos 27, o professor de música e instrumentista coleciona apresentações em palcos de países como Argentina e Roma.

“A música é uma luz de futuro, dá um propósito de vida”, destaca.

A história de Davi é uma das primeiras que cruzaram com a Orquestra Criança Cidadã, que há duas décadas celebra crianças que descobriram novos caminhos por meio da educação musical e professores que dedicaram suas carreiras à formação de novas gerações.

Centenas de famílias foram impactadas por oportunidades que ultrapassam o universo artístico. Desde a primeira infância, o projeto é um enfrentamento à falta de direitos essenciais, especialmente em um estado como Pernambuco onde, segundo o Unicef, mais de 73% das crianças vivem em situação de pobreza.

‘;
window.pushAds.push({ id: “banner-300×350-area” });
}

‘;
window.pushAds.push({ id: “banner-300×250-4” });
}

A Orquestra Criança Cidadã foi criada em 25 de julho de 2006 com a missão de resgatar socialmente crianças e adolescentes por meio da música.

Idealizado pelo juiz de Direito João José Rocha Targino, o projeto teve início no Coque, uma das áreas de menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da capital pernambucana, e apostou na arte como instrumento de transformação e cidadania.

A partir do encontro das cordas dos violinos, violoncelos e contrabaixos com as flautas, clarinetes e trompetes, a música encontrou um propósito: romper barreiras e reconstruir trajetórias.

“Quando criamos a Orquestra Criança Cidadã, acreditávamos que a música poderia abrir portas e transformar vidas. Vinte anos depois, temos a certeza de que ela fez muito mais do que isso: formou cidadãos, fortaleceu famílias e mostrou ao mundo o talento que nasce em Pernambuco quando há oportunidade, dedicação e esperança”, conta Targino.

Hoje, a instituição atende gratuitamente aproximadamente 470 crianças e jovens, entre 6 e 21 anos, nos núcleos do Coque, no Recife, Camela, em Ipojuca, e Chã de Cruz, na Zona Rural de Igarassu.

O projeto de formação musical virou ponto de interseção entre a disciplina e a liberdade, a voz e a esperança.

Também da primeira geração formada pela Criança Cidadã, o contrabaixista Antonino Tertuliano, de 33 anos, construiu uma carreira internacional na música erudita e integra atualmente uma orquestra alemã.

Antonino ingressou na Orquestra aos 13 anos de idade, quando cultivava pela música uma curiosidade. “A Orquestra mudou completamente a minha vida. Foi ali que descobri não apenas a música, mas um propósito. Tudo o que vivi desde então começou naquele primeiro ensaio, ainda no Coque”, afirma Antonino.

Palcos internacionais


Carlos Eduardo Amaral / Ascom OCC

Orquestra Criança Cidadã no Vaticano – Carlos Eduardo Amaral / Ascom OCC

Na Orquestra Criança Cidadã, o encontro com os participantes não é só formativo e artístico. Os alunos recebem, ainda, acompanhamento pedagógico, psicológico, médico e odontológico, alimentação, inclusão digital e outras ações voltadas ao desenvolvimento integral.

O projeto também investe na formação profissional por meio da Escola de Formação de Luthier e Archetier (EFLA), dedicada à construção e restauração de instrumentos de cordas e seus respectivos arcos.

A atuação da Orquestra fez com que ela representasse Pernambuco e o Brasil em alguns dos mais importantes espaços culturais e institucionais do mundo.

Entre os momentos mais emblemáticos estão as apresentações no Vaticano. Em 2014 e em 2023, os jovens se apresentaram diante do Papa Francisco e, em outubro de 2025, retornaram à Santa Sé durante os Concertos pela Paz, com uma apresentação na Praça de São Pedro, no Vaticano, diante do Papa Leão XIV.

Em 2016, o grupo também se apresentou na sede da Organização das Nações Unidas, em Nova York, durante as comemorações dos 70 anos da Unicef.

As fronteiras da Criança Cidadã foram expandidas, ainda, do Coque a países como Alemanha, China, Coreia do Sul e Japão.

Música como proteção social

A história de Davi Cristian se confunde com a da comunidade do Coque. A Orquestra chegou em 2006 em um território marcado pela violência e pela falta de oportunidades para os jovens e buscou a mudança.

Davi e o irmão mais velho, por exemplo, tinham a rua como espaço de lazer e convivência. “O muro era pequeno, a gente pulava e ficava jogando bola. Quando dava a hora, voltava para casa para não levar bronca”, conta.

A mãe era um reflexo da realidade brasileira: sustentava a casa sozinha após a morte do marido e, para isso, enfrentava longas jornadas de trabalho.

Com a Orquestra Criança Cidadã, o menino de 7 anos viu a rotina mudar. “Pra mainha foi uma mão na luva. Eu tinha escola de manhã e, à tarde, vinha para cá. Não ficava na rua”.

Para Davi, a música levou para ele um futuro e para a comunidade, a paz. “Tinha amigos meus cujos pais eram de facções diferentes. Mas como os filhos se tornaram amigos dentro da orquestra, os pais começaram a se respeitar. A orquestra virou uma espécie de tratado de paz”, relata.

Outra integrante da primeira turma da Orquestra foi Herlane Franciele, de 33 anos. A musicista também levou para o exterior sua experiência, com pós-graduação, mestrado e doutorado nos Estados Unidos.

“A Orquestra Criança Cidadã teve um papel fundamental na minha formação. Foi através dela que eu descobri possibilidades, sonhos e caminhos que, talvez, eu nunca tivesse imaginado, me deu oportunidades e me ensinou valores que levo comigo até hoje”, celebra Herlane.

Vinte anos de história


Victória Brito/Assessoria OCC

Retorno de musicistas ao Recife sucede crianças que um dia chegaram ao projeto em busca de oportunidade – Victória Brito/Assessoria OCC

As duas décadas da criação e da trajetória social e artística da Orquestra Criança Cidadã serão celebradas com concertos no Teatro de Santa Isabel, nos dias 24 e 25 de julho, às 19h.

Um dos teatros mais tradicionais e emblemáticos do Recife, o Santa Isabel vai reunir diferentes gerações de jovens formados pelo projeto, compondo um retrato da continuidade do projeto.

O retorno desses músicos ao palco sucede crianças que um dia chegaram ao projeto em busca de oportunidade e voltam agora como artistas formados.

A partir de obras marcantes do repertório musical, como “Dó-Ré-Mi”, do musical “A noviça rebelde”, “O caderno”, de Toquinho, “Hino à alegria”, de Beethoven, “Suíte nordestina”, do Maestro Duda, e os clássicos “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, e “Tico-Tico no fubá”, de Zequinha de Abreu, será contada uma história de reconstrução de vidas.

O repertório foi pensado como uma representação da trajetória da Orquestra, trazendo elementos dos primeiros passos à maturidade artística alcançada por jovens que cresceram dentro da instituição.

“Voltar ao palco da Orquestra nos seus 20 anos é voltar para casa. Tenho orgulho de fazer parte dessa história e espero que minha trajetória mostre aos alunos que eles também podem sonhar alto e conquistar o mundo por meio da música”, destaca Antonino.

Para a presidente da Associação Orquestra Criança Cidadã, Myrna Targino, “a Orquestra Criança Cidadã é a prova de que investir na educação e na cultura transforma realidades”.

Sediada nas instalações do 7° Depósito de Suprimento do Exército Brasileiro, a Orquestra Criança Cidadã é um projeto realizado com incentivo do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, e que conta com patrocínio master da Caixa Econômica Federal, patrocínio Ouro da Dislub e realização da Funarte e do Governo Federal.

No projeto, cordas, madeiras, percussão e metais traduzem uma complexidade rítmica que vai além dos palcos: é um legado social.






Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *