“De todas as viagens de trem que fiz, a desta história foi a mais memorável. Talvez tudo tenha acontecido porque me esqueci de levar um livro na bolsa.”
Há primeiras frases que apenas iniciam uma narrativa. Outras parecem conter, em miniatura, o romance inteiro. A abertura de “Nada Mais Ilusório”, da espanhola Marta Pérez-Carbonell, que estará na próxima Festa Literária Internacional de Paraty, pertence à segunda categoria.
O livro esquecido deixa de ser um detalhe doméstico para se transformar na condição que torna possível toda a história. Sem a companhia silenciosa da leitura, a protagonista passa a prestar atenção às pessoas que dividem com ela um trem noturno entre Londres e Edimburgo. E é dessa escuta que nasce o romance.
Primeira obra de ficção de Pérez-Carbonell, nascida em Salamanca em 1982, professora de literatura espanhola nos Estados Unidos e estudiosa da obra de Javier Marías, “Nada Mais Ilusório” parte de uma situação de enorme simplicidade. Durante uma viagem de trem, uma mulher é apresentada a dois desconhecidos. As conversas daquela noite alterarão a vida dos três.
A força do romance, porém, não está na trama, mas na maneira como a autora constrói seus personagens. Eles não surgem prontos diante do leitor, tampouco são apresentados por longas descrições psicológicas. Vão adquirindo espessura à medida que falam de si mesmos, recordam episódios, hesitam, omitem, reinterpretam o próprio passado. O leitor conhece essas pessoas exatamente como a protagonista: escutando.
É aí que Pérez-Carbonell formula sua pergunta mais interessante. Afinal, como conhecemos alguém? Existe uma pessoa para além das histórias que ela conta sobre si mesma? Ou somos, em grande medida, feitos dessas narrativas?
A ideia lembra a “identidade narrativa” proposta por Paul Ricoeur: nossa identidade não é um dado imutável, mas algo que se organiza por meio dos relatos que construímos sobre nossa própria vida. O mérito da autora está em transformar essa reflexão filosófica em matéria romanesca, sem jamais abandonar a leveza da narrativa.
Sua prosa ajuda muito nesse percurso. Fluida, elegante e desprovida de qualquer exibicionismo, ela sustenta o interesse do leitor menos pelo suspense do que pelo prazer de acompanhar o surgimento gradual dessas figuras.
Pérez-Carbonell escreve com economia e atenção aos pequenos gestos. Há um cuidado evidente com o ritmo das frases, algo que a própria autora reconhece ao afirmar, em entrevistas, que reescreve obsessivamente seus textos e costuma lê-los em voz alta antes de considerá-los concluídos.
Também é perceptível a influência do mestre espanhol Javier Marías, não tanto como modelo estilístico, mas na atenção às ambiguidades da memória, ao peso das conversas e à maneira como as histórias transformam aquilo que lembramos. Ainda assim, Pérez-Carbonell demonstra personalidade
suficiente para não permanecer à sombra de seu autor de eleição.
Talvez resida aí a principal limitação deste romance de estreia. A pergunta que organiza “Nada Mais Ilusório” é sofisticada e literariamente muito fértil. Se ninguém pode ser reduzido à primeira impressão ou ao primeiro relato que faz de si mesmo, espera-se que os personagens consigam romper continuamente a imagem inicial que projetam. Nem sempre isso acontece.
Em alguns momentos, eles permanecem próximos dos papéis que ocupam desde sua entrada em cena, como se a complexidade da reflexão proposta pela autora fosse maior do que a densidade humana de algumas de suas figuras.
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Essa observação, no entanto, não diminui a importância da estreia. Pelo contrário. “Nada Mais Ilusório”
revela uma escritora extremamente consciente da linguagem e do poder das histórias. Talvez seu projeto literário seja mais ambicioso do que sua realização nesta primeira incursão pela ficção.
Mas poucos romances de estreia formulam uma pergunta tão instigante: até que ponto conhecemos realmente alguém ou apenas a narrativa que essa pessoa decidiu compartilhar conosco? É uma pergunta que permanece com o leitor muito depois que o trem chega ao destino.














