Reza a lenda que não houve maior atriz de teatro do que a francesa Sarah Bernhardt —a não ser, talvez, a italiana Eleonora Duse. É curioso que recentemente o cinema tenha se dedicado a falar das duas: Pietro Marcello lançou “Duse” no ano passado, ainda inédito no Brasil, enquanto, em 2024, Guillaume Nicloux filmou “A Divina Sarah Bernhardt”, que agora chega aos cinemas do país.
É bem verdade que nenhum dos dois fornece uma dimensão substancialmente densa sobre a vida e obra de qualquer uma delas, mas ao menos “Duse” se arrisca a mostrar a italiana em plena ação no palco. Já o filme de Nicloux se centra, quase todo o tempo, na vida pessoal de Bernhardt —e falar da grande dama francesa sem dar uma noção do que ela provavelmente fazia em cena para ser tão admirada é, de saída, um desperdício de oportunidade. Mas vai além: soa também como um gesto de insegurança, se não propriamente de covardia.
Até há um trecho em que vemos Bernhardt no palco, ainda no começo do filme. Mas Nicloux distorce a função da cena para fazer uma brincadeira desnecessária com o espectador. Vemos a personagem no que parece ser seu leito de morte, falando sobre seus últimos instantes —até que a câmera se afasta, e a verdade é revelada: não é Sarah quem está morrendo, mas sua personagem na peça “A Dama das Camélias”, um de seus grandes êxitos no teatro.
Mas a atuação é o tempo todo cinematográfica, feita para a câmera, com o intuito de tapear por alguns instantes o espectador. E, quando vemos que, na verdade, Sarah está em pleno palco, o filme involuntariamente acaba sugerindo que seu modo de atuar era contido, cinematográfico –e qualquer pessoa que já viu trechos com a Bernhardt verdadeira em filmes sabe que suas performances, mesmo para o cinema, eram tudo menos “cinematográficas”.
Mas, ao menos para traçar um retrato de Sarah fora dos palcos, o filme é mais efetivo. Pelo que nos diz o longa, era uma mulher fascinante também longe da ribalta. Abertamente bissexual, era hedonista, espirituosa e algo excêntrica. Tinha o hábito de dormir dentro de um caixão e colecionava animais exóticos.
No fim da vida, quando problemas sérios no joelho a obrigaram a amputar uma das pernas, ainda mantinha o humor: “Um circo me ofereceu uma fortuna para exibir ao grande público a minha perna. Eu só não entendi qual das duas eles querem mostrar”.
É sobretudo graças a esse aspecto vivo, mordaz e autoirônico da protagonista que torna “A Divina Sarah Bernhardt” um filme em geral agradável, por vezes envolvente, embora idas e vindas temporais o tornem um bocado difuso. E a obra deve tudo a Sandrine Kiberlain, que tem uma performance expansiva, cheia de energia e de graça. É especialmente divertida quando dá pequenas gargalhadas para pontuar falas mordazes da personagem.
A Bernhardt de Kiberlain é uma criação bastante distinta de outras duas versões de filmes anteriores que também falavam sobre a diva teatral. Em “A Incrível Sarah”, de 1976, a, em geral, magnífica Glenda Jackson deu um belo passo em falso na carreira, mostrando-se incapaz de tornar sua personagem minimamente crível. Era uma atriz moderna, “anos 1970” demais, além de um bocado britânica para dar vida à grande dama francesa das artes cênicas da virada do século 19 para o 20.
Bem melhor se saiu Béatrice Agenin, no excelente “Amélia”, de 2000, fantasia cômica de Ana Carolina sobre o período em que a Sarah passou uma temporada no Brasil. Sua Bernhardt era mais grandiloquente, chegada a faniquitos e com um senso de tragédia pronunciado.
A de Kiberlain é mais solar —também afeita a maneirismos, mas não demonstra tanta autopiedade nem a mesma propensão à solenidade. Talvez a de Agenin se aproxime bem mais de como Sarah Bernhardt devia ser na intimidade, mas a de Kiberlain é um trabalho de composição admirável.
Infelizmente, o filme perde tempo demais com a devoção amorosa de Sarah pelo ator Lucien Guitry, O ator Laurent Lafitte parece desconectado do personagem, que resulta enfadonho: ficamos sem entender o que Sarah viu nele, entre tantos outros homens notáveis da época.
E várias dessas personalidades aparecem em cena —de Alphonse Mucha a Émile Zola, passando por Sigmund Freud, mas a maior parte surge mais como alusões “wikipédicas” do que de fato como figuras relevantes para a vida da atriz. Ao que parece, foi mesmo Guitry o único a ter alguma influência sobre ela.
O filme cumpre bem a tarefa de dar uma noção sobre quem foi a divina Bernhardt, mas isso parece insuficiente. Por mais que Kiberlain nos mostre ao menos uma faceta engraçada —e até afetuosa— sobre ela, o fato é que Sarah Bernhardt continua sendo uma figura mítica ainda sem ter sido devidamente desvendada. Permanece a ser, acima de tudo, uma lenda.












