Opinião – Socorro Acioli: Meu anticonselho para escritores

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Opinião – Socorro Acioli: Meu anticonselho para escritores


Todos os dias eu recebo pedidos de aconselhamento. Muda o contexto, mas o cerne da questão é sempre o mesmo: alguém convicto de que tem uma excelente história para contar, mas não sabe como colocar no papel.

Ou já escreveu um livro que considera muito bom e pede minha ajuda para publicar. Ou tem a história na cabeça e quer que eu escreva. Quando eu ouvir, vou me encantar, eles garantem.

A grande maioria quer mesmo que eu leia o que escreveram e diga o que achei. Sempre com a expectativa de que vou achar maravilhoso. Se eu não achar, é porque sou má pessoa.

Antes eu acreditava que poderia fazer algo. Entre os anos de 2009 e 2023, estive convicta de que poderia ajudar as pessoas no ofício da escrita. Criei cursos, ateliês, mentorias, oficinas, até dois projetos de pós-graduação eu desenvolvi e fiz funcionar. Turmas sempre lotadas, tudo fluindo, mas desisti. Há um abismo incontornável que não tenho como conciliar.

O primeiro grande problema está no fato de que eu acredito em talento, em dom, predestinação, destino, missão, tudo isso. Acredito mesmo. Por algum motivo, reconheço os realmente talentosos pelo modo de tratar o seu ofício, o tema, o processo. Em geral eles carregam o projeto de escrita muito mais na alma do que no ego. Não parece cerebral, é outro fluxo. São raríssimos.

E, se eu acredito em dom, não tenho como sustentar a ideia de que qualquer pessoa que faça um curso sairá com um bom texto literário. Seria desonesto prometer.

O segundo imenso entrave é a dificuldade que as pessoas têm para receber críticas negativas.

Depois que abri os cursos, ganhei uma legião de ex-amigos. São viventes que não gostaram do que falei sobre os seus textos, viraram as costas e foram em busca de outros espaços.

Abri tempo na minha vida para ler o que escreveram. Fiz minhas considerações honestas. Daí, seriam dois caminhos: melhorar ou fugir. Fugiram.

O terceiro e absurdo impedimento é que, muito honestamente, eu não tenho nenhuma receita de sucesso.

Hoje eu sou uma das autoras de ficção que mais vendem livros no Brasil. Não sei dizer como aconteceu, não tenho passo a passo nem fórmula. Isso está na ordem do imponderável. É frustrante para quem me procura tentando copiar o mesmo percurso. Não funciona. Não tenho mapa.

O que eu faria hoje, com muito gosto, seria ministrar cursos de leitura. Cursos monográficos, lendo um único autor por meses, livro a livro, vendo entrevistas, materiais adicionais. Com pausas também para ler os que vieram antes, as influências.

Isso seria um paraíso, uma maravilha, sem ninguém falando em escrever. Que paz. Que luz. Começaria hoje mesmo uma jornada de leituras dirigidas.

Ler é muito melhor que escrever. Para mim é sofrido colocar em palavras o caos da cabeça, por isso demoro tanto para escrever um romance. Trabalho incansavelmente no planejamento, na escrita. Sofro, sofro muito. Atraso. Entrego com vergonha, peço pra cancelar tudo, a editora não deixa.

Não sei dar conselhos sobre escrita, vocês me desculpem. Acredito mais no destino que no ego, no talento mais que na vaidade.

Perdoem esta senhora cansada, aposentada das aulas, que hoje só quer pensar em cumprir prazos e observar passarinhos.


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