Como Carolina Caycedo, no Masp, equilibra as relações entre o homem e a natureza

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Como Carolina Caycedo, no Masp, equilibra as relações entre o homem e a natureza


Redes de pesca reúnem pedras, sandálias, garrafas e outros objetos. Elas pendem do teto com materiais antes submersos, afastados do olhar humano. Para Carolina Caycedo, cada uma representa um universo, composto por memórias diferentes.

“As tarrafas [redes circulares] carregam heranças e cosmologias. São flexíveis —agarram o sustento, mas deixam a água passar. A sociedade seria melhor se fosse como elas”, diz a artista, cujas pinturas, fotos e instalações denunciam distâncias entre o homem e o espaço.

Criada às margens do rio Magdalena, que tem sido afetado pela construção de barragens, a colombiana abre “Confluências”, a sua primeira mostra individual no Brasil, com um par de olhos. Espécie de manifestação das forças aquáticas, a escultura inverte a hierarquia entre observador e paisagem.

Feita com bacias de vidro e presa à parede por redes, a peça vigia os espectadores que perambulam pelo Masp, em São Paulo. É um jeito, afirma Caycedo, de nivelar relações entre a humanidade e a natureza, já que a obra revê tradições coloniais, que reduzem ambientes ao extrativismo.

É dessa subversão que vêm, também, trabalhos da autora que exibem terras reviradas, lagos ressecados e a destruição de outras fontes naturais. Na primeira sala da mostra, por exemplo, paredes opostas ilustram um ciclo simbólico.

De um lado, “O Colapso do Modelo” sobrepõe imagens de Brumadinho, em Minas Gerais, antes e depois da tragédia de 2019, e resgata áreas soterradas pelo rompimento de barragens da mineradora Vale.

Do outro, fotos de satélites mostram o ressurgimento do rio Elwha, em Washington, após a retirada de barragens. Foram anos de protestos que recuperaram cursos hídricos, matas ciliares e a circulação de determinados peixes.

A colaboração com ONGs ativistas, aliás, é comum à colombiana. Entre esses murais, a instalação que dá nome à exposição mistura bonés, camisetas e panos de grupos envolvidos em causas como a reforma agrária e a demarcação de territórios indígenas.

O resultado é um tipo de corredor, feito de artigos que a artista ganhou na COP30, que costura pautas sociais. A curadora Isabella Rjeille descreve a obra como uma cápsula do tempo.

“Gosto que o público tenha de olhar para baixo, para cima, para os lados e se sinta abraçado pelo espaço expositivo”, afirma Caycedo, que compara a pequenez do homem com a escala monumental da natureza.

“Os tecidos são flexíveis e reforçam a ideia de que objetos respondem ao espaço público em seu entorno. Vejo minha produção como um laboratório.”

A maleabilidade ainda define projetos como “Livro Rio Serpente”, em que páginas com anos de pesquisas serpenteiam numa mesa em forma de cobra, e “Maligna II”, com fotos das cataratas do Iguaçu, impressos em telas de algodão, que caem do teto e escorrem até o chão.

Nessa primeira sala também se destacam “Undammed”, em que um DIU de cobre flutua sobre uma bacia de extração de ouro, e desenhos arquitetônicos de cercas e barreiras de várias épocas, como o muro que separa os Estados Unidos e o México.

Seja o dispositivo anticoncepcional, sejam construções que barram fluxos imigratórios, os experimentos questionam formas comportamentais e estéticas de se controlar espaços, corpos e populações.

“A opressão também se dá pelas imagens. Há imagens racistas, homofóbicas, e cabe ao ativismo visual desmascará-las. Precisamos pensar no regime desses registros e nas possibilidades de interpretação, já que o olhar e a visualidade são as matérias do artista”, diz Caycedo sobre o elo entre a arte e a política.

Recentemente, e em eventos como o Festival de Berlim, críticos e artistas defenderam a separação entre o fazer artístico e o posicionamento sobre guerras e outras questões humanitárias.

Já o Masp segue o caminho oposto em seu ciclo atual, voltado a latino-americanos, e recupera de seu acervo uma das séries mais conhecidas de Caycedo.

Entre rostos como a carioca Marielle Franco, vereadora assassinada em 2018, a rondoniense Nilce de Souza Magalhães, que liderou o Movimento dos Atingidos por Barragens, o MAB, até sua morte, em 2016, e a ativista nicaraguense Bianca Jagger, “Genealogy of Struggle” —geneologia da luta— retrata mulheres perseguidas por causas sociais.

“Quando uma ativista morre, dizemos que ela virou ‘semente’, para que outras possam florescer”, diz Rjeille. A curadora cita ainda duas arpilleras, isto é, bordados que surgiram para denunciar o ditador chileno Augusto Pinochet, em que manifestantes do MAB simbolizam crises como a de Brumadinho.

A segunda sala guarda também amuletos feitos de metais essenciais, considerados necessários para energias renováveis —como as “línguas” de alumínio, que ilustram a importância da fala para os direitos humanos—, e pinturas que retratam a dureza com que tais materiais são obtidos.

Num desses quadros, a vegetação é sufocada pela fumaça de usinas elétricas, e uma serra imponente rasga rochas quase sem cor. Ao redor, a paisagem é tomada por prédios, máquinas e outros signos do poder corporativo.

Noutro, mãos enrugadas levantam uma bacia em forma de coração. Elas seguram um pedaço do mundo —numa metade, peixes sufocam num lago raso que uma cachoeira é incapaz de salvar. Na outra, uma jangada atravessa destroços que boiam em água suja.

“Quantos devem pagar pela busca de energia limpa?”, questiona Caycedo. “As pinturas tensionam esses sistemas de controle e remetem a usinas como as de Belo Monte, Mariana e Itaipu, que marcam a história desde a ditadura e impactaram a vida de comunidades quilombolas e caiçaras.”

Ao final, uma sala escura é iluminada por performances em vídeo. Numa delas, atores invadem um museu e dançam como fantasmas. Eles imitam movimentos aquáticos e suas roupas remetem a Oxum, orixá das águas doces em religiões de matriz africana.

A espiritualidade também define uma das tarrafas de Caycedo, em que um espelho dourado flutua entre fios artesanais. “Sou naturalmente atraída por espelhos dourados, seja pela cor, seja pela vibração”, diz.

“É como um portal. Eles permitem que o homem veja seu reflexo na natureza, de forma recíproca.”



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