A exposição “Bença! O Quilombo do Jaó, pelo olhar das crianças”, em cartaz até 12 de julho na marquise do Museu Afro Brasil, reúne fotografias produzidas por crianças e adolescentes quilombolas com idades entre 8 e 15 anos. Na mostra, as percepções de quem vive na comunidade tradicional se tornam protagonistas.
O trabalho é resultado da oficina “Olhares de Dentro” realizada pela fotógrafa paulista Jessyca Alves, 32, na comunidade localizada em Itapeva, interior de São Paulo. Os registros apresentam paisagens, momentos do cotidiano e personagens importantes para o quilombo.
Mais do que documentar um lugar, as imagens funcionam como exercício de memória e pertencimento, afirma Jessyca. Para ela, um dos aspectos mais marcantes da experiência foi o interesse demonstrado pelos participantes. “Elas entenderam que aquilo não era só uma fotografia. Era um registro que vai ficar para a vida toda”, afirma.
Em vez de uma introdução teórica, a fotógrafa conta que preferiu uma abordagem mais prática com as crianças —elas receberam as câmeras nas mãos e aprenderam enquanto exploravam a comunidade. Depois das primeiras orientações, o grupo saiu para caminhar pelo quilombo. A proposta era simples: registrar aquilo que fizesse sentido para cada participante.
Algumas escolheram registrar familiares. Outras voltaram as lentes para objetos e cenas de suas casas. Houve também quem retratasse moradores mais velhos da comunidade. Uma das participantes fotografou o ancião do quilombo, que tem 98 anos.
Ao passear com as crianças pelo território, Jessyca conta que ficou evidente como os participantes tinham uma relação próxima com a comunidade, contando histórias de cada paisagem e apontando lugares importantes para a memória coletiva, como uma pequena casa de barro onde moradores costumavam se reunir.
A relação entre fotografia e memória também atravessa a trajetória pessoal de Jessyca. Nascida na periferia de São Bernardo do Campo, região metropolitana da capital paulista, ela conheceu a linguagem com a qual trabalha durante uma oficina realizada em um projeto social quando tinha 15 anos. Desde então, construiu uma carreira na área.
“Conhecer as crianças, fotografar com elas, andar pelo quilombo e escutar a história das pessoas que estavam lá foi um um resgate, uma volta à minha própria história”, conta ela.
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Jéssyca trabalha principalmente com fotografia de viagens, mas seu trabalho autoral está ligado a temas como memória e identidade. No projeto “Ancestralidade em Vida” ela registra familiares mais velhos e conta suas histórias. “É importante guardar essa recordação.”
Ao final do processo de edição e de curadoria das fotos feitas na comunidade, as crianças visitaram o museu para ver a exposição. Segundo Jessyca, o momento foi emocionante pela empolgação dos fotógrafos mirins, já que muitos nunca haviam tido contato com um espaço cultural daquela dimensão.
“Senti que as crianças estavam sendo vistas e ouvidas. Isso é muito importante. Quando pensamos que são crianças de uma comunidade rural, afastada e como poucos recursos, é essencial que elas tenham um contato com arte, com cultura, que tenham essa vivência positiva com o quilombo”.
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