Opinião – Caetano W. Galindo: Visitei a casa do protagonista do maior romance de todos

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Opinião – Caetano W. Galindo: Visitei a casa do protagonista do maior romance de todos


Estive apenas uma vez em Dublin. Em 2004.

Ficamos, eu e a Sandra, poucos dias na cidade. A grana era curta, afinal. Mas uma das coisas que a gente fez foi ir a uma casa antiga no centro da cidade, que tinha sido convertida em centro cultural, onde pudemos ver umas exposições temporárias meio chumbregas, reproduções de pinturas, cartazes etc.

Só que num outro andar da casa, perto de onde ficava o café, havia algo mais interessante. Encostada numa parede, outra parede. Um arco inteiro de tijolos recortados, que emoldurava… uma porta.

Uma porta inteira, de madeira, com um número sete metálico marcando o endereço e uma vidraça semicircular no topo, que, quando havia casa ali, deixava ver a luz que viesse de dentro.

Essa porta (e seu contorno de tijolos) foi arrancada de uma daquelas fachadas contínuas de tijolinhos, tão tipicamente britânicas, de casas emendadas que eles chamam de “terraces”, onde uma quadra inteira é ladeada por essa muralha de tijolos expostos, casinhas geminadas de dois ou três andares, que se diferenciam umas das outras apenas pelo número e, muitas vezes, pelas cores vibrantes de suas portas.

Aquele “terrace” estava para ser demolido, nos anos 1960, para a construção de um hospital. Mas um sujeito chamado John Ryan conseguiu se antecipar e remover, de toda a quadra, justo aquela porta. O número sete da rua Eccles. E por que ele fez isso?

Porque aquela é a casa em que Leopold Bloom, personagem principal do “Ulysses” de James Joyce, morou com sua esposa Molly Bloom, sua filha Milly (que quando transcorre a ação do livro já não mora mais com eles), seu filho Rudy (que nem chegou a viver um mês), sua gata, seus livros, seus sonhos e ilusões.

Nós fomos até lá, no James Joyce Centre, e, claro, tiramos fotos posando diante daquela porta.

Hoje, 16 de junho, é o “Bloomsday”, o dia em que se celebra aquele que talvez seja o maior de todos os romances (ok, eu sou suspeito…), por se tratar do dia em que se passa toda a ação narrada nele. Dezesseis de junho de 1904.

O Bloomsday já é uma data importante, financeiramente, no calendário irlandês. Verdadeiras romarias de turistas vão à cidade para essa celebração. E eventos acontecem em cidades de todo o mundo para festejar o “dia de Bloom”. Para comemorar o homem, de mentirinha, que um dia tocou aquela maçaneta real.

Joyce era obcecado pela realidade de Dublin, povoa seu romance com centenas de pessoas, nomes, vozes, fatos reais. Tanto que, quando foi dar um endereço para a fictícia família Bloom, ele fez questão de verificar se naquele dia de 1904 a casa em questão estava vazia (não queria que um cidadão dublinense de repente tropeçasse num personagem inventado no café da manhã!).

Aquela porta é tudo que sobrou de concreto, de real, da vida inventada de pessoas de mentira.

No entanto, eu, e cada um dos turistas que até hoje passam por ali para tirar suas fotos e prestar seu tributo… Ninguém está muito interessado nas vidas, nas dores e nos amores “reais” que aconteceram naquela casa, que ficou de pé por quase 200 anos. As pessoas daquele livro, estranhos fantasmas mais concretos que a vida de carne e osso, essas nos atraem e nos mobilizam.

Foi naquela janelinha semicircular que Stephen Dedalus viu a luz da vela de Bloom se aproximando. Foi aquele trinco que ficou só encostado quando Bloom saiu para comprar seu café da manhã. Foi aquela aldrava (que um americano roubou e devolveu anos depois!) que Boylan usou para avisar Molly que estava chegando para o seu, entre muitas aspas, ensaio.

Foi o toque da literatura que deu vida àquela madeira, pedra, metal. E a mim. E tanta, tanta gente.

Obrigado, Poldy. Obrigado, James. Feliz Bloomsday.


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