Opinião – Ricardo Araújo Pereira: Copa de todo o mundo

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Opinião – Ricardo Araújo Pereira: Copa de todo o mundo


Não sei se sabem, mas começou a Copa do Mundo. Podem ter-vos escapado as reportagens sobre o início da Copa. Foram só duas ou três. Sinto que não tenho informação nenhuma. Desta vez, é uma verdadeira Copa do Mundo, porque todo o mundo vai estar presente. Quarenta e oito seleções.

O que proporciona jogos interessantes como Bósnia-Qatar, MarrocosHaiti, Equador-Curaçao, Nova ZelândiaEgito, Cabo VerdeArábia Saudita, SenegalIraque, JordâniaArgélia ou CongoUzbequistão. Vou assistir a todos, porque a febre da Copa veio, em boa hora, substituir a febre das figurinhas da Copa, que eu já não aguentava.

Tenho visto as notícias sobre os encontros de pessoas que se juntam para trocar figurinhas. Não sei porque disse pessoas. São só homens. O sexo feminino tem dado uma lição ao mundo, não embarcando neste frenesi. Além disso, é interessante notar que são quase só homens adultos. Que, como sempre acontece quando homens adultos se dedicam a um assunto comezinho uma atenção desmesurada, inventaram uma narrativa para enganarem a si próprios.

Vários entrevistados fazem uma pausa na busca desvairada por figurinhas que não têm para dizer às câmeras de televisão: “Estou fazendo isso pelos meus filhos”. É uma frase que costuma ser dita a propósito de sacrifícios nobres tais como imigrar, desistir de uma carreira artística ou abdicar de luxos, mas aqui serve para designar a aquisição de pacotinhos.

Subjacente a esta ideia está a convicção de que, no futuro, os filhos poderão satisfazer suas mais altas ambições, a saber: uma conta poupança que lhes pague a universidade, a entrada para uma casa, e —claro— o álbum completo da Copa do Mundo de 2026, incluindo a figurinha de Sherzod Nasrullaev, o lateral-esquerdo da seleção do Uzbequistão.

Sabendo da importância que o projeto tem para estes homens, a cruel Panini não produziu figurinhas em quantidade suficiente para satisfazer a demanda, o que leva certos estabelecimentos comerciais a impor restrições às vendas. Há racionamento de envelopes. E floresce o mercado paralelo.

Colecionadores escondidos da polícia segredam uns aos outros: “Tenho três Mbappés e um suplente da Costa Rica. Troco pela figurinha do emblema da Inglaterra”. Tudo em nome do bem-estar da família, para evitar um futuro de sofrimento inimaginável, do qual a figurinha de Sherzod Nasrullaev está ausente.


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