É difícil avaliar a série “Brasil 70: A Saga do Tri”, lançada nesta sexta-feira (29) pela Netflix. Trata-se de uma história que todos conhecem o final. O Brasil foi ao México em 1970 conquistar o tricampeonato e trazer a taça Jules Rimet para casa em definitivo.
A série de cinco episódios, muito bem dirigida por pai e filho, Paulo e Pedro Morelli, não inova no roteiro. O contexto da ditadura está lá. A polêmica troca de treinadores há poucos meses da Copa do Mundo, também. O fantasma do Maracanazo de 1950 aparece no quarto episódio, no qual o Brasil enfrenta a seleção uruguaia nas quartas de final vinte anos depois.
Apesar do roteiro previsível, a série consegue trazer as tensões à flor da pele, com boas atuações e semelhança física. Bons atores muito parecidos com Tostão, Rivellino e Gérson chamam a atenção. Especialmente Lucas Agrícola, ator a quem coube o papel do Rei Pelé, consegue com méritos o destaque na série.
“Brasil 70: A Saga do Tri” tem como eixos centrais os personagens de Pelé, Zagallo e João Saldanha. Estes dois últimos, interpretados por Bruno Mazzeo e Rodrigo Santoro, convencem com atuações críveis e falas bem construídas, apesar de em alguns momentos o roteiro inventar encontros que não aconteceram e radicalizar na posição dos personagens. Funciona pois consegue ser apropriado teatralmente na condução do roteiro. A Santoro, no papel do temperamental João Saldanha, cabe ainda uma dose frequente de humor muito bem-vinda.
A série não é 100% factual, embora em linhas gerais quase tudo que se passa na tela de fato aconteceu. Dentre as extrapolações, umas funcionam mais do que outras. Na série, Saldanha “sequestra” Pelé para levá-lo a uma igreja na véspera da final, algo que nunca aconteceu. Um evento traumático da infância de Pelé, em que um coleguinha morreu soterrado, é resgatado insistentemente, talvez de forma exagerada diante de tantas outras questões importantes para o Rei do Futebol na época.
Se o roteiro às vezes permite liberdades criativas, sem prejuízo geral, o ponto alto da série é a fidelidade na recriação das jogadas clássicas da Copa. Estão todas lá. Dos gols históricos concretizados aos famosos gols não marcados por Pelé, como o chute do meio de campo no jogo de estreia contra a Tchecoslováquia, e o drible da vaca no goleiro uruguaio na semifinal.
A qualidade da encenação, tanto por parte dos atores, da direção e do bom uso dos efeitos especiais, transparecem o esmero da produção e a paixão dos realizadores. É emocionante ver tais jogadas clássicas encenadas com toda a tecnologia dos tempos atuais. O que nos leva a perguntar por que algo assim não foi feito antes.
Talvez “Brasil 70: A Saga do Tri” seja melhor julgada com olhares estrangeiros, por pessoas menos afetivamente ligadas àquelas jogadas mágicas com as quais a seleção conquistou o tricampeonato de futebol no México. É difícil para qualquer cidadão brasileiro que não se embruteceu completamente com a política atual não se emocionar com cada uma das cenas de um Brasil mágico em campo.
“Brasil 70: A Saga do Tri” tem chances sérias de se tornar o novo padrão de produção cinematográfica sobre o futebol no Brasil, que, aliás, não é tão grandioso assim, com algumas poucas exceções. Nosso cinema sempre esteve aquém do esporte e nunca soube retratá-lo com a grandiosidade que este merecia. Talvez porque durante muitas décadas o futebol foi tachado pelas elites culturais de “ópio do povo”, demarcando o desprezo à identidade popular que mais nos definiu como nação no século 20.
“Brasil 70: A Saga do Tri” dá dignidade cinematográfica a um mito que já era parte da identidade nacional, para além de governos e ideologias. Para ver e se emocionar, esquentando os tamborins para a Copa no próximo mês.
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