São Paulo
A intimidade com o público é o charme da peça “As Palavras da Nossa Casa”, do Núcleo Teatro de Imersão, que estreia neste domingo (31) na capital paulista. Inspirado na obra do diretor Ingmar Bergman, o espetáculo é encenado na Vila Secreta, um sobrado com características de museu caseiro na Aclimação, zona central da cidade.
A história do reencontro da cantora lírica Charlote com a filha Eva, casada com Victor, um pastor presbiteriano na década de 1960, expõe conflitos e dores familiares. O público acompanha a trama percorrendo cômodos do imóvel, como testemunha da relação complexa entre as duas mulheres.
Os atores Adriana Câmara, Gizelle Menon e Glau Gurgel no espetáculo ‘As Palavras da Nossa Casa’
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Hernani Rocha/Divulgação
O objetivo é fazer com que o espectador se envolva com os personagens como se estivesse testemunhando eventos reais, e não uma encenação.
O sobrado usado como cenário é uma atração à parte. Pertencia ao caixeiro-viajante Raful de Raful (1913-2023), um colecionador obstinado que usou o imóvel da família para acumular milhares de objetos antigos.
Há máquinas de todo tipo, engenhocas, roupas, móveis, quadros, utensílios de cozinha, estátuas e até a réplica de uma vila colonial, com capela e cadeia antiga.
Raful, mágico e hipnotizador nas horas vagas, era considerado excêntrico pela própria família. Mostrava a coleção para poucos e na fase final da vida chegou a negociar o acervo com o Museu do Ipiranga, mas morreu deixando o acervo gigante como herança.
Segundo Victor Raful, neto do colecionador, o casarão ficou sete décadas sem receber público —o avô, inclusive, fazia questão de manter o endereço em sigilo.
Desde 2023 o espaço de 900 metros quadrados foi reaberto para receber eventos e servir de cenário para produções audiovisuais. Foi gravada lá, por exemplo, a entrevista da poeta Adélia Prado a Pedro Bial, no ano passado. “Parece Tiradentes”, ela disse, referindo-se à bucólica cidade mineira.
O público pode fazer visitas ao acervo e percorrer o ambiente criado por Raful de Raful. O passeio guiado pelo neto do caixeiro-viajante está incluído no ingresso da peça “As Palavras da Nossa Casa”. Victor mostra parte da coleção e conta histórias sobre o antepassado, retratado em quadros espalhados pelo casarão.
Depois de circular pela vila, o público é convidado a acompanhar de perto a trama teatral sobre os encontros e desencontros de mãe e filha. As cenas são divididas entre uma das salas, o quarto do casal e o quarto de uma criança, com direito a espiada em outros cômodos do sobrado.
A Vila Secreta foi descoberta como possibilidade de cenário pelo ator Glau Gurgel, que está no elenco da peça no papel de Victor e viu uma publicação no Instagram. O grupo visitou o local e ficou impressionado com o espaço.
“Levamos para lá apenas um colchão e nossas caixas de objetos de cena, para juntar aos objetos que já existiam. Fizemos algumas adaptações, trocando alguns móveis de lugar, aproveitando o próprio material disponível na vila”, diz Adriana Câmara, atriz e diretora da peça, que já havia feito temporadas anteriores na Casa das Rosas e no Casarão da Vila Guilherme.
A história passou por uma leve adaptação para se adequar ao sobrado repleto de antiguidades. Em determinado momento, Eva fala para a mãe: “O pai de Victor era colecionador e trouxe objetos lindos das suas viagens. Alguns bem esquisitos também”.
A dramaturgia parte principalmente do filme “Sonata de Outono” e dialoga com outras obras de Bergman, como “Morangos Silvestres”, “Através de Um Espelho”e “Gritos e Sussurros”.
A Vila Secreta também está aberta para visitas independentes da apresentação da peça, com ingressos vendidos no Sympla.
As Palavras da Nossa Casa
R. Rubi, 50, Aclimação, região central. Dom. (31) até 2/8. Ingr.: a partir de R$ 115 em Sympla












