“Natal Amargo”, último longa do diretor espanhol Pedro Almodóvar, chega ao circuito comercial brasileiro logo depois de sua exibição no Festival de Cannes, onde, mais uma vez, dividiu a crítica.
O filme, que não venceu prêmio algum, é baseado em uma das tramas de seu livro de contos “O Último Sonho”, lançado no Brasil em 2024. A literária não é a melhor faceta de Almodóvar, nem a mais prolífica. Mas, como matéria-prima, rendeu um belo filme.
Nos escritos sobre o seu cinema, é comum lermos a expressão “filme de crise”, principalmente no século 21, quando realizou três deles —”Má Educação”, de 2004, “Abraço Partido”, de 2009, e “Dor e Glória”, de 2019.
Este último é, sem dúvida, o único deles que pode ser considerado bem-sucedido cinematograficamente, e o que mais tem a ver com “Natal Amargo”, pela relação de um cineasta com suas dores e as dores do mundo.
Há um outro fator, bem mais animador para quem se assusta com a simples menção do termo crise. Almodóvar vem de três belíssimos longas. Além de “Dor e Glória”, “Mães Paralelas”, de 2021, e principalmente “O Quarto do Lado”, de 2024, mostram um diretor no auge de sua forma.
E, com uma fase recente tão boa, até um filme de crise se torna admirável. É o caso de “Natal Amargo”, que mais uma vez nos mostra os dramas de pessoas envolvidas com a criação artística.
Acompanhamos a história de Elsa, personagem de Bárbara Lennie, uma diretora de cinema que se refugiou na publicidade por dinheiro e porque seus dois filmes tiveram público entusiasmado, mas não fizeram sucesso. Tornaram-se o que ela mesma chama de “cult”. Esse momento da trama é ambientado em 2004, quando o termo não era tão questionado.
Elsa sofre de terríveis enxaquecas, que pioram quando atravessa crises de ansiedade. Segundo a psicanalista, ela substituiu o luto pela morte da mãe, um ano antes, por trabalho incessante, e agora precisa de descanso.
Bonifácio (Patrick Criado), um bombeiro que trabalha como stripper nos fins de semana, a apoia como pode. É um namorado amoroso e atencioso. Mas ela resolve passar um tempo no campo com sua amiga Patrícia, papel de Victoria Luengo.
Mais ou menos paralelamente, vamos acompanhando o drama de um cineasta chamado Raúl Duran, vivido por Leonardo Sbaraglia. Raúl está em 2026, e escreve um roteiro para seu retorno ao cinema, depois de cinco anos sem filmar.
Ele vive com o assistente-companheiro Santi, papel de Quim Gutiérrez, e trabalha com a assistente e ex-companheira Mónica, personagem de Aitana Sanchez-Gijón. São duas relações complicadas, que ele parece não conseguir —ou não fazer questão— de situar bem.
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Temos então dois núcleos de relações humanas, cada qual com seus problemas. Mas percebemos logo que um núcleo é criação do outro. Ou seja, Elsa, Bonifácio e Patrícia, assim como outros personagens que interagem com eles, estão no roteiro de Raúl, são projeções dele.
Como fica claro no filme, Raúl se aproveita de pessoas e situações reais para escrever seus roteiros de ficção. Não temos como saber até que ponto os personagens e dramas que vemos em 2004 são apoiados na realidade e o que têm de invenção.
Almodóvar repete a prática de lidar com um criador às voltas com suas criações, motivo que já rendeu algumas grandes obras artísticas, e no cinema ao menos uma obra-prima —”Providence”, de Alain Resnais—, ainda que em “Natal Amargo” uma instância não chegue a coincidir com a outra.
Os cineastas que Almodóvar retrata em seus filmes costumam ser escritos à sua semelhança, com alguns traços de invenção ou projeção. Por trás de Raúl, vemos uma estante de livros que, sinceramente, não é de um cineasta muito sério. Parece mais de alguém de outra área.
Tirando um ou outro livro, como um de Renoir que se destaca na prateleira, boa parte ali é puramente decorativo, com informações muito básicas sobre arte e cinema.
Talvez essa estante pobre de títulos queira dizer, e pode ser de modo inconsciente, que esse cineasta tenha pouco conhecimento cinematográfico e leia pouco —alguém, por sinal, diferente do próprio Almodóvar. Talvez venha daí sua dificuldade de criar novas tramas.
De todo modo, nesse entroncamento de ficções, a trama que vemos sendo criada, a de 2004, é mais interessante, e a de 2026 só ganha força quando a crise do criador se impõe e se sobrepõe à sua criação, e o filme se abre à corajosa autocrítica.












