Hoje, veremos se ainda temos fôlego para um breve exercício de ironia. Tentemos estabelecer uma pequena tipologia antropológica. O primeiro tipo já é um clássico, tratado por literatura especializada desde os anos 1990, mas, hoje, ramificou-se e ganhou musculatura acadêmica e tornou-se viral. Ponha a culpa de tudo nos outros.
Esses “outros” têm múltiplas faces. Os homens (brancos especialmente), o patriarcado, o neoliberalismo, a sociedade, as gerações mais velhas, o cristianismo. A lista tende ao infinito se você quiser eliminar qualquer responsabilidade sua nos seus problemas e do mundo à sua volta.
Nos tipos descritos em seguida, não há nenhuma tentativa de negar suas existências empíricas. No caso dos homens, há cinco tipos para o século 21, três negativos e dois positivos —qualquer tentativa de negar esse fato será vista como prova de que você se encaixa num dos três tipos negativos. Esses tipos estão dentro do profundo debate que tem sido levado por “especialistas em homens” acerca das novas masculinidades e da necessidade de se discutir a masculinidade.
O tóxico, abusivo, que tortura a mulher psicologicamente. O violento que pratica violência física real contra a mulher. O machista estrutural, ou seja, aquele que nasce machista já desde o útero da mãe. Esses são negativos. Já os tipos positivos são: o feministo, mais feminista do que a própria feminista e o efeminado, o homem que parece e se comporta como uma mulher, que alguns, aliás, dizem estar na moda.
Quanto às mulheres, há as clássicas feministas, tipo positivo, e o negativo, as mulheres conservadoras, que são completamente opacas para as feministas. Se você não se encaixa num deles, procure ajuda profissional. Aliás, chama a atenção o empobrecimento da tipologia feminina nesse caso.
Quanto a preconceitos, há alguns que podem tornar você uma pessoa em dia com o nosso tempo. Considere os evangélicos gente reacionária, bolsonarista e ignorante. O pior que aconteceu no Brasil nos últimos tempos. Outro preconceito para fazer de alguém um espécime bem contemporâneo é ser antissemita por razões decoloniais e anti-imperialistas.
Em matéria de geopolítica, louve o regime dos aiatolás. Releve a violência, a corrupção, os feminicídios por lá. Torça pelo Irã contra os Estados Unidos. Curta a China como o futuro político e econômico do mundo. Tenha um pôster do Xi Jinping no seu quarto ao lado do pôster do Lula.
Um tipo essencial para nossa época é a pessoa que considera sua narrativa sexual, ou de gênero, o centro do universo. Esse tipo, se pudesse, colocaria em dúvida a teoria do heliocentrismo em favor da sua “gendercentrism theory”, e, assim, poderia narrar suas desventuras privadas como revoluções francesas pessoais.
Há o tipo que “evoluiu” do politicamente correto do final do século 20 para a prática de marketing da pluralidade no mundo corporativo. Esse tipo supõe que misturando “paradigmas de mundo”, por exemplo, ancestralidade indígena e inteligência artificial, chegará a um equilíbrio criativo.
No Brasil há alguns tipos peculiares —essa pequena tipologia se quer cosmopolita, mas os próximos tipos têm sabor nacional. Um primeiro é aquele que considera todo mundo que não pensa como ele comunista.
Esse tipo, suspeito, poderá estar em rota de colisão com os manuais de como ser atual porque sua matriz, Bolsonaro, parece condenada ao esquecimento. Ainda que, possivelmente, um resto poderá permanecer nas franjas do baixo clero. Nesse movimento da revolução dos astros, a matriz desse tipo, Bolsonaro, correrá o risco de voltar à sua condição primeva de baixo clero irrelevante.
Há também o patriota de esquerda, que sonha com uma camisa da seleção brasileira vermelha. Esse tipo usa a palavra “soberania” com frequência para assuntos que, normalmente, não se usam, como, por exemplo, o risco de perda de soberania nacional para uma invasão de mosquitos. Outra prática desse tipo é dizer que vamos fazer isso ou aquilo com a Amazônia, quando nem temos soberania sobre ela.
Especialmente interessante é o tipo que afirma que o Brasil não é terra sem lei. Claro, lei há muitas, mas só para os inimigos. A tradicional vocação burocrática do Brasil, no espaço de poder desse tipo, torna-se mais uma arma contra o cidadão. Aqui estamos à mercê de vários tipos de abusos. Além do crime organizado em si, o Estado e os governos, comumente, abusam dos cidadãos, ainda que alguns distribuam mesadas a troco de votos.
Há, claro, o tipo artista, que acha que salvará o Brasil com seus filmes, novelas e documentários.
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