IA não transa e não sente dor, então não ameaça a literatura, diz Ian McEwan

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IA não transa e não sente dor, então não ameaça a literatura, diz Ian McEwan


A um mês de completar 78 anos, Ian McEwan tem se inclinado mais a pensar o futuro. Um dos mais aclamados escritores de língua inglesa, o britânico nunca se mostrou avesso a perscrutar novas tecnologias, curioso para sentir o pulso da longa marcha da humanidade.

Não é uma relação sem conflitos. Diante de problemas de conexão na entrevista que concedeu à Folha, brinca que “nunca fez uma chamada de Zoom que não deu algum problema”. Mas fala num tom divertido, afinal, como sabe quem leu obras fundamentais como “Reparação” e “Na Praia”, a comunicação entre as pessoas sempre foi cheia de pedregulhos.

Agora o escritor elabora a dificuldade de entendimento entre as gerações, num alerta suave que ecoa com elegância em seu novo romance, “O que Podemos Saber” —publicado agora pela Companhia das Letras e antes distribuído pelo clube de assinaturas TAG Livros.

A obra, recebida como a volta à forma de um autor cujos últimos livros tiveram recepção mais apagada, se passa no ano de 2119. Tom, o protagonista, é um pesquisador de história da literatura especializado no período de 1990 a 2030, antes de o planeta passar por uma grande inundação disparada pela crise do clima e desdobrada em guerras territoriais e no sumiço de várias metrópoles.

A evolução tecnológica, que hoje se enxerga como inevitável, é bruscamente interrompida pela escassez de recursos provocada pelo evento climático de meados do século 21, que os personagens lá do futuro chamam de Desarranjo. É algo que McEwan tem clareza de que vai acontecer em algum momento —ou melhor, diz que é algo que já começou.

A pesquisa do personagem é sobre um poeta, Francis Blundy, que teria deixado um poema mítico, um libelo em defesa do meio ambiente, cujo paradeiro se perdeu há muito tempo. A única pista é que o texto foi lido numa festa de aniversário de sua esposa, a diligente Vivien Blundy, pois foi escrito em homenagem a ela. Em uma virada típica de McEwan, logo descobriremos que a verdade tem cores muito diferentes.

Na entrevista a seguir, o escritor projeta o futuro enquanto discute a importância de lembrar o passado —mesmo com a noção contraditória de que jamais entenderemos os fantasmas de quem nos precedeu. No livro e na conversa, McEwan oferece uma visão multiangular, como quem dirige um carro numa estrada em linha reta enquanto sabe que tem que manter o olho no retrovisor.

Um de seus principais interesses em ‘O que Podemos Saber’ é a grande distância entre o que autores conseguem compreender com suas pesquisas e aquilo que de fato aconteceu na realidade. Por que o sr. considera esta questão tão relevante?

De certo modo, este é um romance sobre biografias. A dificuldade, o charme e a beleza das biografias. É parte de uma questão mais ampla: o que conseguimos saber sobre qualquer coisa? Sobre o outro, sobre a história, sobre o presente?

E um bom jeito de olhar para o presente é imaginar o que alguém do futuro, olhando para trás, acharia de nós.

O livro é um tipo de ficção científica, mas sem muita ciência. Li muitos livros sobre o futuro, mas eles nunca falam de história, do futuro das humanidades. A ficção científica foi capturada pela tecnologia, por robôs e naves, mas nunca senti que estava sendo conduzido a uma especulação real de como seria a vida.

Sua projeção do futuro parece uma cortina de fumaça para sua verdadeira preocupação: como e por que devemos estudar o passado.

Por mais impreciso que seja [esse esforço], tentar compreender o passado —em especial os últimos 100, 150 anos— é crucial. É por isso que também trago no romance a história de um homem com Alzheimer. Quando se perde a memória, se perde a individualidade.

A história da lenta desintegração da identidade do fazedor de violinos [Percy Greene, personagem do livro] é uma miniatura do desastre que se abate sobre uma sociedade que não tem noção de seu passado.

O sr. pinta um quadro bem sombrio do futuro da humanidade, com inundações, guerras e desastres esperando por nós logo ali na esquina. Mas também pode ser uma visão otimista —afinal, ainda continuamos aqui depois de tudo isso.

É um tipo de otimismo nuançado, ou, se preferir, um pessimismo nuançado. Nós já estamos no desarranjo das mudanças climáticas.

Em todo o mundo, sofremos de um profundo pessimismo cultural. Leio hoje mais histórias com pessoas de olho em catástrofes vindas do clima, de guerras nucleares ou dos perigos da inteligência artificial. Parecemos muito fixados em como vai terminar o projeto humano.

Enfrentamos uma crise de contração. Vários países estão com metade dos níveis necessários para substituir sua população. Uma vez que as mulheres têm controle de sua reprodução, elas param de ter cinco ou nove filhos, escolhem ter dois. No Japão, na Coreia do Sul, no Canadá, estão abaixo de um. É outra catástrofe: se não substituirmos todos os mortos, vamos contrair.

Minha suspeita é que o que vai nos matar é o pessimismo. É isso que permite todo o resto. Se você perde a fé no progresso humano, já está escrevendo o nosso fim.

Mas em paralelo a isso, há milhares de projetos otimistas ao redor do mundo. Nós não os conhecemos nem nos unimos a eles. Por exemplo, há um enorme movimento de restauração da vida selvagem aqui no Reino Unido. Isolamos uma área de cem milhas quadradas na costa da Escócia, onde a pesca é proibida. E os biólogos marinhos ficaram impressionados com a rapidez com que a natureza reagiu a isso.

Assim, o romance reflete meu sentimento de que nós passaremos por catástrofes, mas conseguiremos passar raspando. Vamos sobreviver, assim como sobrevivemos a duas guerras mundiais no século 20.

O sr. apresenta uma visão bastante dura da nossa geração. Cem anos no futuro, seremos vistos como um grupo de pessoas ambiciosas e negligentes, que se preocupam com lucro e guerra sem pensar no longo prazo. Diria que nossa geração é particularmente estúpida ou seguimos o padrão histórico da experiência humana?

A natureza humana é uma constante. Temos mais poder de causar dano do que as pessoas vivendo na Idade da Pedra, mas acho que eles seriam tão brutais quanto nós.

Lembre que o meu pesquisador, vivendo daqui a um século, está olhando para nós com inveja. Ele admira muito do que nós subestimamos. Estamos vivendo uma era de incrível expansão nas ciências, na cosmologia, na bioquímica. E ele ama nosso espírito aventureiro, a ousadia de gastarmos bilhões em um telescópio para descobrir as origens do universo. Temos muito a nosso favor e muito contra nós. Vivemos tempos interessantes.

Mas todo o poder que temos hoje, com avanços na inteligência artificial e na criação de bombas nucleares, não muda como nos comportamos?

Entendo que a velocidade da mudança tecnológica esteja acelerando. Mesmo assim, a maioria da população ainda se preocupa com criar seus filhos, ter seus relacionamentos, fazer aquilo de que os romances falam há séculos. Os Estados Unidos estão numa guerra estúpida com o Irã, mas as pessoas estão preocupadas com o preço da gasolina.

Nós vamos mudar fundamentalmente? É uma possibilidade, não tenho ideia. Acho que a IA vai ter um impacto colossal em como vivemos e pensamos. Mas há fundamentos que permanecerão os mesmos.

No seu livro, a inteligência artificial tem um papel curioso, servindo como um tipo de oráculo a que as pessoas recorrem para ouvir conselhos.

Isso já está acontecendo também. Desde que escrevi o livro, vejo jovens buscando a IA para falar de seus pais, suas relações, seu futuro.

Veja só meu cunhado, um ciclista apaixonado e católico fervoroso. Ele foi fazer o caminho de Santiago de Compostela de bicicleta e pediu dicas à IA. Ela disse: “Relaxe, a questão não é o destino, é a jornada.”

É um bom conselho, mas ele poderia ter ouvido o mesmo do pai dele.

O sr. usa IA para alguma coisa?

Não. Adoraria, mas não consigo imaginar para que iria querer usar. Todo mundo ao meu redor usa. Leio sobre isso e tenho muito interesse. Mas talvez eu tenha vivido o suficiente para só querer me movimentar dentro da minha própria cabeça.

Muitos escritores veem a IA como uma ameaça, não só por questões de direitos autorais, mas dizendo que pode reduzir a curiosidade e a inventividade.

Eu concordo. Até agora, a IA produz prosa muito medíocre, suas metáforas são bobas e extravagantes. E a limitação é que a IA não vive dentro de um corpo. Não sabe de verdade o que é a dor, o amor, a alegria, o luto.

Um dia desses, quem sabe, vai conseguir nos enganar fingindo que tem. Mas sem um corpo, quanto você consegue entender sobre as pessoas? A IA nunca transou com ninguém. Não conhece os prazeres do amor. É isso que digo para mim mesmo para acalmar o pânico de pensar que todo romancista vai perder o emprego.

O sr. imagina um futuro muito analógico. Seus personagens leem livros impressos, exploram bibliotecas e têm rotinas familiares a nós. O sr. projeta que a vida será assim daqui a cem anos ou compôs o romance dessa forma por ser uma vida mais próxima da sua?

Um pouco dos dois. Cem anos não são tanto assim. Nos primeiros rascunhos, eu estava 400 anos adiante de nós, mas tive dificuldade, porque a nossa língua provavelmente mudará bastante. Cem anos atrás, havia telefones, filmes, automóveis —muito do que hoje define a vida moderna.

Se eu pudesse viajar no tempo, me dividiria entre espiar daqui a cem anos ou daqui a 10 mil anos. Nós não saberemos, não estaremos aqui, mesmo que Elon Musk e seus amigos esperem estender a mortalidade.

Eu estou perto de completar 80 anos. Se tiver sorte, terei mais 10 ou 15 anos de vida consciente. E acho que até lá continuaremos nessa mesma bagunça de agora.

Que tipo de arte produzida hoje vai perdurar daqui a cem anos?

O romance ainda é o melhor meio de descrever quem somos e entender nossas relações com os outros e com a sociedade. Não encontro isso nos filmes nem nos palcos, essa possibilidade sem limites de análise e projeção.

Os problemas que enfrentamos no dia a dia —lidar com a morte de um pai, com um divórcio ou uma traição— podem ser representados em diversas formas de narrativa, mas ainda precisam de linguagem. E o romance, que tem apenas 300 anos de história, nos deu ferramentas que nunca tivemos antes. Aguçou nossa identidade. Tornou nossos universos mentais lugares um pouco mais vastos.

Estamos fadados a continuar fazendo isso. Com todas as máquinas que temos, ainda vamos querer nos apaixonar. Tudo que fascinou o romance do século 19 vai continuar nos fascinando. Ainda lemos “Anna Karenina”, Flaubert, Cortázar.

O sr. explora bastante no livro a permanência da prosa contra a da poesia no tempo.

A mais alta forma literária que temos é a poesia. A prosa tende a acompanhar destinos ao longo de um período de tempo. O poema nos dá o agora, a percepção deste momento, nossa necessidade existencial de olhar para um rosto ou uma paisagem.

Não consigo imaginar isso morrendo enquanto as pessoas se deslumbrarem pelo mero fato de existirem. Viver sem poesia é viver metade adormecido.

Dizer isso não é subestimar seu próprio trabalho como romancista?

É. Um pouco de humildade.

Seu protagonista diz sentir nostalgia por lugares e tempos que jamais conheceu. O sr. sente algo parecido?

Sim. Vivo numa ilha pequena comparada ao Brasil. É linda, mas a civilização industrial a estragou bastante. Penso no começo do século 19, quando estavam vivos poetas britânicos como Wordsworth, Coleridge, Keats, que vagavam por paisagens fabulosas com animais e flores silvestres, e sinto uma nostalgia colossal.

A poesia, naquele momento, acordou todo mundo. A beleza das montanhas precisava ser descoberta pelos poetas românticos, e isso é algo que eu teria adorado testemunhar.

Mas não é preciso viajar muito longe no passado até não ter mais acesso a anestesia. Dar à luz naquela época era muito perigoso. Seus dentes estragavam no seu crânio e ir ao dentista era visitar os portões do inferno. Então não romantizo o passado. Mas, pelos poetas, sinto essa saudade.

RAIO-X – IAN MCEWAN, 77

Em atividade desde os anos 1970, quando publicava coletâneas de contos, é considerado um dos principais romancistas da atualidade. Suas obras intercalam thrillers políticos e meditações sobre relacionamentos humanos. Venceu o prêmio Booker por ‘Amsterdam’, em 1998, e foi indicado ao troféu outras quatro vezes. Um de seus livros mais celebrados, ‘Reparação’, de 2001, foi adaptado por Joe Wright seis anos depois no filme ‘Desejo e Reparação’, vencedor do Oscar. Dramaturgo e professor, deu aulas em instituições como o University College London, que lhe conferiu título honorário de doutor em literatura

Cinco livros para conhecer Ian McEwan

‘Amsterdam’ (1998)

Um acordo entre dois homens sobre eutanásia desemboca em rede de intrigas fatais

‘Reparação’ (2001)

Uma menina arruína a vida de um casal mais velho ao contar uma mentira

‘Sábado’ (2005)

Acompanha um dia na vida de um cirurgião sob a tensão da violência e da guerra

‘Na Praia’ (2007)

Novela curta sobre um casal que se afasta por angústias em relação à sexualidade

‘Enclausurado’ (2016)

Romance contado por um feto que escuta um crime de dentro do útero



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