Vivemos dias de relações tensas e uma crescente dificuldade de diálogo apesar de estarmos conectados somos incapazes de conviver com as diferenças
JC
Publicado em 24/05/2026 às 0:00
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Imaginem reunir, em um grupo, homens impulsivos, inseguros, vaidosos, desconfiados e profundamente diferentes entre si. Foi exatamente esta a escolha de Jesus para seus discípulos. Como sabemos, todos os atos de Jesus foram pedagógicos, portanto que lição o Mestre queria nos dar a fazer essa opção? Percebo que Jesus quis nos ensinar que a boa convivência, em nossa condição, não é construída sobre pessoas perfeitas e nos mostrar que deste grupo tão diverso, nasceu uma das maiores experiências de fraternidade da humanidade.
Nos dias atuais os desafios permanecem surpreendentemente os mesmos. Vivemos dias de relações tensas, opiniões extremas e uma triste e crescente dificuldade de diálogo. Famílias rompem vínculos por divergências políticas; amigos afastam-se por intolerância ideológica; nas redes sociais, pessoas transformam diferenças em agressividade. Estamos conectados, mas, paradoxalmente, ainda nos mostramos incapazes de conviver com as diferenças.
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Conviver exige mais do que presença física, pede escuta, respeito, maturidade e capacidade de lidar com frustrações. É nas relações que surgem nossas impaciências, expectativas, inseguranças e limites. Assim, o outro se transforma em um espelho silencioso de nós mesmos, que preferimos não enxergar.
Carl Jung observou que aquilo que mais nos incomoda no outro pode revelar conteúdos ainda não compreendidos em nós mesmos. Sob essa perspectiva, os conflitos de convivência deixam de ser apenas desgastes sociais e passam a representar oportunidades de autoconhecimento e amadurecimento psicológico.
A visão espírita amplia ainda mais essa compreensão, pois temos conhecimento de que os encontros humanos não seriam apenas coincidências, mas experiências de aprendizado mútuo. Seja na convivência familiar, social, afetiva, frequentemente estão reunidos espíritos em processo de reajuste, crescimento moral e desenvolvimento da fraternidade. Relacionamentos doentes de ontem, oportunidade de transformação no agora.
Jesus insistiu tanto na necessidade do amor, da indulgência e do perdão, que talvez, por tudo isto, trouxe exatamente estas práticas, não como ideias abstratas, mas como exercícios diários de convivência.
Zygmunt Bauman, descreveu o cenário atual quando abordou a chamada “modernidade líquida”, caracterizada por relações rápidas, superficiais e descartáveis. Ao invés de aprofundar vínculos, preferimos evitar conflitos, substituir pessoas e abandonar relações ao primeiro desconforto. Comportamento antagônico para uma convivência duradoura, que venha a atender nossa busca de segurança e, por isso, exige aprendizado, renúncia e maturidade.
Kardec, em o Livro dos Espíritos, apresenta a vida em sociedade como necessidade natural do ser humano. A opção por isolamento contraria nossa própria condição evolutiva. Joanna de Angelis também reflete sobre a convivência como instrumento de autoconhecimento. Segundo a benfeitora, conflitos interpessoais frequentemente revelam fragilidades interiores ainda não trabalhadas. Temos dificuldade de entender o outro, assim como temos dificuldades de compreender a nós mesmos.
Em tempos de pressa e impaciência, seja a convivência uma das formas mais interessantes de exercício espiritual. Escutar antes de reagir. Respeitar diferenças. Silenciar o impulso da agressividade. Aprender a pedir perdão. Desenvolver indulgência. Porque, na realidade, é impossível ser feliz sozinho, já dizia o conhecido poetinha camarada.
Silvia Vasconcelos – Psicóloga Clínica, com abordagem junguiana. Palestrante espírita e voluntária da Fraternidade Espírita Peixotinho.













