“O Poder das Palavras e Outros Poderes”, novo livro de José Castilho Marques Neto, reúne 26 artigos publicados originalmente na coluna “Leituras Compartilhadas”, do jornal literário Rascunho.
O conjunto gira em torno de um tema que atravessa toda a trajetória do autor: a defesa da leitura como direito de cidadania e como política pública de longo prazo.
Filósofo, editor e coordenador do Plano Nacional do Livro e Leitura em 2006, Castilho afirma que o livro nasceu menos como uma reunião retrospectiva de textos e mais como uma tentativa de ampliar uma conversa pública sobre leitura no Brasil.
“É um chamado para que a sociedade se envolva. Porque nós estamos trabalhando num país em que o menosprezo à questão da leitura e da escrita é algo intrínseco, está dentro das nossas relações. Mesmo setores progressistas muitas vezes tratam isso como se fosse um refresco a mais. Então essa sensibilização é que eu queria trazer”, diz.
Os artigos foram selecionados pelo editor e escritor Carlos Alberto Gianotti. Castilho conta que preferiu não fazer a própria curadoria. “Eu sou editor há praticamente 50 anos e sou um péssimo editor de mim mesmo. Todo escritor carrega uma dose de vaidade e uma certa cegueira em relação ao que escreve. Então pedi para o Gianotti olhar os mais de 50 artigos que eu tinha e ver se ali existia um livro.”
“O que unifica esses textos é exatamente a questão da leitura e da escrita como um direito de todos os brasileiros e brasileiras. Quis mostrar também que isso perpassa o conjunto das questões que a gente trata no cotidiano. Não é algo segregado para especialistas. A leitura e a escrita são formas vivas da convivência.”
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Castilho relaciona o debate sobre leitura às transformações recentes do país. Ele afirma que, mesmo durante os anos de desmonte das políticas culturais e educacionais no governo Jair Bolsonaro, houve crescimento de iniciativas ligadas aos livros nas periferias e bibliotecas comunitárias.
“A sociedade reagiu com leitura”, afirma, citando como exemplo ações realizadas durante a pandemia em bairros periféricos de São Paulo, especialmente por redes de bibliotecas comunitárias.
“O ativismo das bibliotecas comunitárias aconteceu no sentido de atender assistência médica, combater o alastramento da pandemia, distribuir comida e incrementar as relações culturais. E aí foi mais pela leitura do que qualquer outra forma”, afirma.
Castilho também destaca mudanças recentes no perfil do leitor brasileiro. Segundo ele, o Panorama do Consumo de Livros, pesquisa da Câmara Brasileira do Livro em parceria com a Nielsen, apontou crescimento especialmente entre mulheres pretas das classes C e D, moradoras das periferias urbanas. “Isso não acontece de uma hora para outra. É resultado de um processo que já vinha sendo construído.”
O autor lembra ainda que, segundo pesquisa realizada pelo Sistema Nacional de Bibliotecas Comunitárias, houve crescimento de 58% dessas bibliotecas a partir de 2008. Ele também afirma que cerca de 1.700 bibliotecas públicas foram implantadas em cidades que nunca haviam tido uma unidade do tipo. “As pessoas incorporaram isso como uma pauta da sociedade, não apenas de governo”, diz.
Apesar do tom otimista, Castilho afirma que o país continua distante de resolver seus problemas históricos de formação de leitores. “Quando a pesquisa Retratos da Leitura mostra que apenas 47% dos brasileiros são leitores dentro dos critérios da pesquisa, isso significa que nosso patamar ainda é muito baixo. Nós temos uma dívida histórica secular para ser paga do ponto de vista do direito à leitura.”












