‘Prazer Máximo Garantido’ questiona o desejo feminino com assassinato de camboy

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‘Prazer Máximo Garantido’ questiona o desejo feminino com assassinato de camboy


Tatiana Maslany abre uma garrafa de cerveja, vai até o espelho do banheiro e começa a se arrumar numa das primeiras cenas de “Prazer Máximo Garantido”. Ela tem um encontro marcado, mas não vai precisar pôr o pé fora de casa.

Logo entendemos que seu interesse romântico está preso na telinha do computador. Eles jantam juntos —a personagem dela, Paula, come comida chinesa e o de Brandon Flynn, Trevor, qualquer outra coisa–, conversam sobre o trabalho, reclamam da família e, de repente, ele a interrompe. “Eu odeio fazer isso, mas nós só temos mais seis minutos.”

Trevor é um camboy. Seu trabalho é tirar a roupa e ficar nu em transmissões ao vivo enquanto vê dólares entrando em sua conta. Por um extra, ele leva seus fãs para salas privadas e, eventualmente, cria com eles uma rotina de encontros virtuais, como é o caso de Paula.

Com aqueles seis minutos que restam, ela desliza as mãos pela barriga até mergulhá-las na calcinha, se deliciando enquanto observa Trevor dançar para a webcam. A tela de seu notebook aprisiona aquele corpo masculino, que se aproxima até deixar a virilha, na iminência de ser descoberta, fora de quadro.

São poucos minutos de prazer que se repetem numa rotina quase diária, mas que pouco importam perto das horas que ela passa tendo alguém para ouvir seus desabafos, receios e pequenas conquistas. Durante o dia, Paula se fecha para o resto do mundo, usando fones de ouvido enormes que servem de escudo para qualquer socialização.

“A ideia para a série veio durante a Covid-19. Eu comecei a reparar na casa das pessoas toda vez que entrava numa chamada de Zoom e ficava pensando como seriam as suas vidas. E isso me fez refletir sobre como estávamos atravessando esse período de profunda solidão“, diz David Rosen, criador de “Prazer Máximo Garantido”, por videoconferência.

“Havia, além da pandemia óbvia, uma pandemia de solidão. A mesma tecnologia que nos permite conversar agora é a responsável por nos aprisionar nessas pequenas bolhas, alheias a uma vida social de verdade. E eu comecei a pensar na personagem mais ocupada que consegui –uma mãe solteira, que trabalha, chega em casa e, sem tempo para conhecer ninguém, abre o computador em busca de um pouquinho de companhia.”

Roteirista de séries como “Citadel” e “Sugar“, Rosen acha, ao mesmo tempo, incrível e assustador que hoje em dia possamos pedir comida com o clique de um botão, orientar o entregador a deixar tudo na porta e desfrutar de uma bela refeição sem ter contato com absolutamente ninguém.

“A série leva isso ao extremo, mas eu realmente acredito que neste mundo cercado de telas muita gente está em busca de um senso de intimidade e conexão, e nós nos enganamos com esses truques virtuais que não parecem servir para muita coisa”, diz ainda Flynn, que ganhou projeção com outra série que fazia comentários pouco animadores sobre a situação do mundo hoje, “13 Reasons Why“.

Assim, as dancinhas eróticas de Trevor funcionam como uma armadilha para o espectador mais desavisado, em busca apenas de prazer máximo garantido. Por trás das cenas de homens sarados se exibindo em outras plataformas adultas, a trama esconde tanto um thriller tenso –ancorado na investigação de um assassinato brutal–, quanto um comentário afiado sobre maternidade, o desejo feminino e, como Rosen frisa, solidão.

Conforme os episódios avançam, “Prazer Máximo Garantido” vai ganhando ares hitchcockianos, emulando um “Janela Indiscreta” por meio das janelas virtuais de seus internautas-protagonistas.

Numa das chamadas de vídeo com Trevor, Paula testemunha o rapaz sendo violentamente sequestrado. Ela chama a polícia, que diz que ela provavelmente caiu num golpe, e passa a receber várias ligações pedindo um resgate pela vida de seu parceiro virtual.

Trevor não é uma pessoa ruim, ela pensa. Ele jamais aplicaria um golpe em mim, porque temos uma conexão verdadeira, segue ela em sua linha de raciocínio ingênua. Seria tudo uma armação ou o camboy realmente está em perigo?

Paula parte em busca de respostas, mas as chantagens logo começam a interferir em seu trabalho e, pior, na batalha legal que ela trava com o ex-marido pela guarda da filha. “Essa série seria totalmente diferente se o protagonista fosse um homem, não haveria tanto escrutínio”, diz Maslany, que venceu o Emmy pelo trabalho em “Orphan Black”.

“O desejo é uma coisa que pode ser usada como arma contra as mulheres, é algo que faz os outros olharem para elas com julgamento. Quando falamos de mães é pior. Existe essa ideia de que se você se torna mãe, a sua vida passa a girar em torno disso, o que é falso.”

Ela acha curioso que o tema esteja tão presente nas telas hoje em dia, em filmes como “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” e “Morra, Amor” ou séries como “Margô Está em Apuros“, lançada pela mesma Apple TV no mês passado.

Citando novamente “Janela Indiscreta”, em que Alfred Hitchcock mergulhou seus protagonistas em paranoia depois que eles testemunham o que parece ser um assassinato, Maslany acredita que a sensação de vigilância constante do filme só se intensificou nos últimos 72 anos. “A sensação de estar sendo observado agora é muito maior, porque qualquer aparelho que temos em mãos se tornou uma janela.”



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