Escola na era da interdependência

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Escola na era da interdependência


Este artigo é dedicado à memória do professor Lee Kong, que tornou o sistema educacional de Singapura um dos melhores sistemas do mundo

Por

MOZART NEVES RAMOS


Publicado em 17/05/2026 às 22:00
| Atualizado em 17/05/2026 às 22:05



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Neste artigo, vou procurar fazer uma síntese das transformações pedagógicas, tecnológicas e curriculares que estão em curso na era da interdependência – que, de acordo com a inteligência artificial (IA), refere-se ao atual momento histórico global, caracterizado pela dependência mútua entre nações, economias, sociedades e tecnologias, em que as ações de um ator (país, empresa ou indivíduo) impactam diretamente os outros. Estamos experimentando com muita clareza este conceito na guerra dos Estados Unidos com o Irã.

Esta análise está sedimentada em quatro eixos:

  • reconfiguração da identidade do professor;
  • IA como mediadora tecnológica;
  • reconfiguração curricular e protagonismo;
  • inovação espacial e o futuro da escola.

Para um tema tão complexo e desafiador, fui buscar o apoio da IA – alinhando-o com o meu pensamento crítico e minha própria visão de futuro – cuja extensão é inclusive difícil de medir. Segundo o cientista social britânico Guy Neave, pensar o futuro é sempre uma atividade arriscada – como os profetas e os visionários aprenderam à sua própria custa: se o tempo da previsão é demasiado curto, podemos cair na desconfortável situação de enfrentar a contradição da nossa visão de uma realidade pouco respeitável; se o tempo é demasiado longo, a impaciência natural dos profanos acabará por minar o respeito pelo mais entusiasta dos visionários.

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Vamos começar pelo primeiro eixo, a identidade docente, que evolui definitivamente da figura de transmissor de conteúdos para a de um educador global – com foco no desenvolvimento de competências e no trabalho interconectado em rede –, que se torna um arquiteto de ambientes transdisciplinares. É hora de dar adeus ao conteúdo padronizado, ao trabalho isolado em sala de aula e às avaliações baseadas em memorização.
O segundo eixo – relativo ao uso da IA – vai ser decisivo para o sucesso desse primeiro. A IA não vai substituir o professor, mas apenas ajudar aqueles que souberem usá-la como mediadora dinâmica, devolvendo a esse professor o tempo necessário para ser criativo e inovador, pois o ganho de produtividade é cinco vezes maior. Segundo Hans Moravec, conceituado cientista austríaco-canadense, o que é instintivo e “fácil” para um ser humano é extremamente difícil para uma máquina, e tarefas que exigem alto esforço mental de um ser humano (como cálculos avançados) são “fáceis” e instantâneas para a IA – conceito chamado de Paradoxo de Moravec.

O terceiro eixo tem a ver com o fim do currículo “tamanho único”. Vamos sair de trajetórias lineares e da memorização em massa para um mundo em que as formações terão uma espinha dorsal comum integrada a uma parte diversificada vinculada ao projeto de vida – em que cada pessoa é tratada como uma pessoa, e não mais como uma “média”.

Por fim, o quarto eixo: inovação espacial e o futuro da escola. Mas o que é inovação espacial? Refere-se ao conjunto de avanços tecnológicos, científicos e modelos de negócios que impulsionam a exploração do universo e a economia orbital. Esta última engloba a produção, o lançamento, a operação de satélites e a utilização de dados espaciais para criar valor econômico na superfície terrestre. Isso significa que vamos precisar repensar pessoas, lugares e tempos. E aqui está o futuro da escola.

Repensar pessoas significa maximizar a expertise do educador, reduzir tarefas repetitivas e promover a colaboração transdisciplinar em vez do ensino isolado. Repensar lugares significa substituir salas de aula estáticas por ambientes multifuncionais e flexíveis. Repensar tempos significa abolir o cronograma engessado e adotar modelos de aprendizagem híbridos que permitam a personalização do ritmo de estudo de cada aluno – mas todos devem aprender e desenvolver o que é esperado em cada etapa e em cada ano escolar.

Isso quer dizer que as fronteiras da escola não são mais limites físicos, mas horizontes de colaboração entre a inovação tecnológica e a ética humana. Certa vez em que estive em Singapura, numa conversa com o renomado professor Lee Kong, disse-lhe que as coisas num país de 722 km2 – metade da cidade de São Paulo – deviam ser relativamente mais simples.

De imediato ele me retrucou: “Não, o senhor está enganado”. E me fez ver um mapa-múndi em cuja extensão havia pequenos pontos luminosos espalhados em cidades consideradas estratégicas para o desenvolvimento sustentável de Singapura – espécie de escritórios locais. E completou: “Está vendo? Singapura é do tamanho do mundo!”.

Este artigo é dedicado à memória do professor Lee Kong, peça-chave na reforma que tornou o sistema educacional de Singapura um dos melhores do mundo.

*Mozart Neves Ramos,  titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP de Ribeirão Preto e professor emérito da UFPE.






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