“A luta política está nos significados. O poeta é o primeiro a se levantar diante da ruína deles.” A afirmação do poeta chileno Raúl Zurita marcou a mesa de encerramento do Festival Poesia no Centro neste sábado (16), em São Paulo.
As discussões sobre corpo, memória e linguagem atravessaram o segundo dia do evento promovido pela Megafauna no Teatro Cultura Artística, no centro da capital paulista.
A programação da tarde foi aberta com uma performance baseada em “Neca: Romance em bajubá”, da escritora Amara Moira.
O trabalho é resultado de uma residência artística realizada no Sesc 24 de Maio, em que um elenco voluntário mergulhou durante oito dias na obra de Moira para adaptá-la ao teatro. A direção e dramaturgia da apresentação são assinadas por Ave Terrena e Leonarda Glück.
“Neca” acompanha a travesti Simona que, ao reencontrar um antigo amor, revisita memórias do período em que se prostituía no Brasil e na Europa.
As histórias relatam episódios rotineiros de mulheres trans que trabalham na rua, expondo os contrastes entre suas experiências dentro e fora do Brasil.
Escrito em bajubá —também chamado pajubá, dialeto criado e difundido pela comunidade trans brasileira—, o romance também estabelece diálogo com autores e obras do cânone literário. Moira é doutora em teoria e crítica literária pela Unicamp.
“O livro é muito corporal. Pessoas trans muitas vezes são privadas de um espaço seguro para entender o próprio corpo, então fizemos um trabalho de consciência corporal para ajudá-las a se soltarem”, afirmou Ave Terrena.
Na sequência, a mesa “Um Modo de Escavar” reuniu o poeta e tradutor Guilherme Gontijo Flores e a escritora portuguesa Tatiana Faia, com mediação de Dirceu Villa.
Pesquisadores da poesia antiga, Flores e Faia discutiram como o repertório clássico ecoa na literatura contemporânea. “O que me interessa no clássico é como ele pode ser subvertido, como ele falha, como causa estranheza”, disse Faia.
Enquanto a autora portuguesa relacionou o interesse pelos clássicos a um desejo constante de regressão histórica, Flores defendeu a tradução como uma operação do contemporâneo. “Traduzir é sempre uma ação do presente. Só estando aqui, agora, eu posso olhar para trás dessa forma”, afirmou.
Na sequência, a mesa “A marcha das cordilheiras” recebeu o poeta chileno Raúl Zurita para conversa com a pesquisadora e poeta Francesca Cricelli, tradutora de sua obra para o português, e com o escritor Joca Reiners Terron.
Preso e torturado durante o regime militar de Augusto Pinochet, Raúl Zurita se tornou um dos nomes mais importantes da cena poético-política de seu país e de toda a América Latina.
Ao comentar “Purgatorio” (1979), livro ilustrado com fotografias de cicatrizes em seu próprio corpo, Zurita afirmou que sua escrita nasceu da necessidade de recuperar os significados sequestrados pela ditadura. “Dentro e fora da linguagem, lutei para recuperar as formas e os sentidos do meu país”, disse.
O poeta também comentou a profunda relação de sua obra com a paisagem chilena. Segundo ele, sua linguagem poética nasceu da sensação constante de fragilidade provocada por terremotos e catástrofes naturais na região. “Todo amor é urgente porque vamos morrer”, afirmou. “O grito de horror diante da morte começa na linguagem.”
Após a conversa, Zurita leu ao público poesias de seus livros “La Vida Nueva” (1993), “Anteparaiso” (1982) e “Canto a Su Amor Desaparecido” (1985).
Em sua segunda edição, o Festival Poesia no Centro busca ampliar o debate sobre poesia contemporânea e ocupar diferentes espaços culturais da região central paulistana. A programação começou ainda na primeira quinzena de maio, com oficinas, leituras e apresentações no Museu da Língua Portuguesa e na Biblioteca Mário de Andrade.
Neste domingo (17), a agenda continua no Cultura Artística com a presença de autores como Eileen Myles, Mar Becker, Cida Pedrosa e Ricardo Domeneck.
Há ainda o espaço Megafone, do lado de fora do teatro, que abre o microfone para performances e leituras por convidados especiais.
Após a programação paulistana, o festival seguirá para uma itinerância por Brasília: a Livraria Platô receberá alguns dos convidados do Palco para uma série de encontros na capital do país.
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