Opinião – Ricardo Araújo Pereira: IA não é inteligência, é um sistema de dedução automática

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Opinião – Ricardo Araújo Pereira: IA não é inteligência, é um sistema de dedução automática


Sem me querer gabar, devo dizer que já antipatizo com a tecnologia há muito. E antipatizo com quem não antipatiza. Nutria profunda repugnância pelas pessoas que, quando apareceu aquele aparelhinho que se enfiava no ouvido e permitia atender ao celular lá, exibiam sua orelha biônica com ar de grande superioridade.

Sempre desconfiei das redes sociais, tanto no tempo em que elas eram ótimas porque contribuíram para a vitória do Obama, como quando passaram a ser péssimas porque contribuíram para a vitória do Trump. Agora antipatizo com a inteligência artificial.

Antipatizo até com a própria designação porque, em rigor, aquilo não é inteligência. É um sistema de inferência automática. A inteligência artificial está para a inteligência como um papagaio está para a fala. É um papagaio estocástico, como disse a linguista Emily Bender, fazendo assim com que eu fosse perguntar à inteligência artificial o que “estocástico” quer dizer.

Neste momento, sinto que a minha turma, a dos luditas, está a aumentar —fato com que também antipatizo. Há dias, alguém me dizia que certas pessoas usam o ChatGPT para ajudar a escrever mensagens amorosas.

Pedem ajuda à inteligência artificial para seduzir, como Christian fez com Cyrano. O plano, resultando, não resultou. Christian seduziu Roxanne, mas nunca deixou de sentir a amargura da dopagem poética. Cyrano nunca pôde declarar-se à mulher que amava. E Roxanne também teve um fim trágico, porque quando percebeu que amava o autor das cartas e não o rapaz bonito que as entregava, já era tarde demais.

Mas quem estava a dizer-me que há quem recorra ao ChatGPT para esse fim foi-se indignando cada vez mais, até prever o fim do mundo por causa da inteligência artificial dentro de cinco anos. Ora, eu não quero estes alarmistas no luditismo.

Desconfio tanto de quem diz que a inteligência artificial vai nos salvar como dos que dizem que a ferramenta nos vai exterminar. Em ambos os casos, há um culto da máquina —que é precisamente o que eu abomino.

Além disso, nunca se deve prever o fim do mundo. Se o mundo acabar mesmo, não sobrará ninguém para nos dar razão. O que eu faço é prever constantemente que o mundo vai continuar. Normalmente, confirma-se —e eu passo por magnífico vidente. Mas, no dia em que eu não tiver razão, ninguém terá tempo para me vir pedir satisfações.


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