Sem me querer gabar, devo dizer que já antipatizo com a tecnologia há muito. E antipatizo com quem não antipatiza. Nutria profunda repugnância pelas pessoas que, quando apareceu aquele aparelhinho que se enfiava no ouvido e permitia atender ao celular lá, exibiam sua orelha biônica com ar de grande superioridade.
Sempre desconfiei das redes sociais, tanto no tempo em que elas eram ótimas porque contribuíram para a vitória do Obama, como quando passaram a ser péssimas porque contribuíram para a vitória do Trump. Agora antipatizo com a inteligência artificial.
Antipatizo até com a própria designação porque, em rigor, aquilo não é inteligência. É um sistema de inferência automática. A inteligência artificial está para a inteligência como um papagaio está para a fala. É um papagaio estocástico, como disse a linguista Emily Bender, fazendo assim com que eu fosse perguntar à inteligência artificial o que “estocástico” quer dizer.
Neste momento, sinto que a minha turma, a dos luditas, está a aumentar —fato com que também antipatizo. Há dias, alguém me dizia que certas pessoas usam o ChatGPT para ajudar a escrever mensagens amorosas.
Pedem ajuda à inteligência artificial para seduzir, como Christian fez com Cyrano. O plano, resultando, não resultou. Christian seduziu Roxanne, mas nunca deixou de sentir a amargura da dopagem poética. Cyrano nunca pôde declarar-se à mulher que amava. E Roxanne também teve um fim trágico, porque quando percebeu que amava o autor das cartas e não o rapaz bonito que as entregava, já era tarde demais.
Mas quem estava a dizer-me que há quem recorra ao ChatGPT para esse fim foi-se indignando cada vez mais, até prever o fim do mundo por causa da inteligência artificial dentro de cinco anos. Ora, eu não quero estes alarmistas no luditismo.
Desconfio tanto de quem diz que a inteligência artificial vai nos salvar como dos que dizem que a ferramenta nos vai exterminar. Em ambos os casos, há um culto da máquina —que é precisamente o que eu abomino.
Além disso, nunca se deve prever o fim do mundo. Se o mundo acabar mesmo, não sobrará ninguém para nos dar razão. O que eu faço é prever constantemente que o mundo vai continuar. Normalmente, confirma-se —e eu passo por magnífico vidente. Mas, no dia em que eu não tiver razão, ninguém terá tempo para me vir pedir satisfações.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/05/marco-aurelio-em-ambiente-romano-202605151453.jpeg?w=300&resize=300,300&ssl=1)





/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/10/idoso-fazendo-exercicio-levantar-202605152118.jpeg?w=300&resize=300,300&ssl=1)


/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/05/mulher-segurando-vinagre-bicarbo-202605161406.jpeg?w=300&resize=300,300&ssl=1)


/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/05/marco-aurelio-em-ambiente-romano-202605151453.jpeg?w=150&resize=150,150&ssl=1)



