Conhecido como um mestre em criar dramas familiares delicados e dedicados a examinar, até com certo humor, as dores da vida, o japonês Hirokazu Kore-eda surpreendeu com a sinopse de seu novo filme, “Sheep in the Box”, exibido neste sábado (16) no Festival de Cannes. A história se passa em um futuro, segundo ele, não muito distante, e envolve humanóides movidos por inteligência artificial.
Mas a essência do diretor está presente mesmo na narrativa com nuances de sci-fi. Ao examinar outra faceta da introdução da IA no cotidiano, Kore-eda faz uma reflexão existencialista sobre as falhas humanas e seu propósito.
Na história, Otone e Kensuko perderam seu filho, Kakeru, em um trágico acidente há dois anos. Logo percebemos que a trama se passa no futuro, quando um drone faz a entrega de uma caixa à Otone. Dentro dela, um dispositivo que projeta um holograma é o novo folheto de propaganda. O objeto anuncia um produto imperdível, humanóides idênticos a pessoas falecidas, criados a partir de uma amostra de seu DNA. O objetivo é ajudar parentes a lidar com o luto.
Otone e Kensuko decidem experimentar. A empresa oferece alguns exemplares de graça, em troca dos dados recolhidos pelo robô durante a convivência, usados para a melhoria de próximos produtos. São termos comuns em vários “termos de uso e consentimento” de aplicativos e ferramentas de IA oferecidas por megaempresas de tecnologia hoje em dia.
Pela reação dos país, fica óbvio que o novo Kakeru é fisicamente igual ao primeiro, com a diferença que o sintético faz perguntas e observa constantemente o ambiente para, aos poucos, entender como é esperado que ele se comporte. A convivência traz à tona questões mais profundas, como uma relação difícil entre Otone e sua mãe ou a culpa pela morte do filho de Kensuko, tocando em temas como luto, morte, trauma, o poder das conexões humanas e a beleza da existência, assuntos que Kore-eda têm se dedicado a explorar insistentemente em sua carreira.
Dessa vez, há ainda a crítica a uma sociedade que, movida pelo consumo, cria a falsa sensação de que é possível escolher sempre o que se quer —e desacostuma as pessoas a aceitarem sentimentos como frustração e fracasso. Todo esse conteúdo emocional é mesclado a um visual agradável e minimalista, a chamada estética “cozy”, ou confortável, em inglês.
Outra exibição potente do dia na corrida pela Palma de Ouro, láurea máxima do festival, foi “The Beloved”, do espanhol Rodrigo Sorogoyen, estrelado por Javier Bardem e Victoria Luengo. No longa, Bardem interpreta um diretor de cinema que mora em Nova York e retorna à Espanha para gravar um filme.
Ele decide escalar a filha para o papel principal, Emilia, com quem não fala há 13 anos. “The Beloved” começa com um diálogo bastante desconfortável entre os dois, no qual fica claro que, apesar de ser uma mulher adulta, Emilia ainda sofre a ausência do pai.
E presença também. Ela só tem memórias ruins dos poucos anos de convivência entre os dois. Esteban, o personagem de Bardem, é egocêntrico e agressivo quando contrariado, mas sente culpa por não ter sido presente na vida da filha.
Enquanto explora a relação íntima dos dois não só em diálogos, mas também em sutilezas expressivas —a câmera fica muito próxima ao rosto de Bardem e Luengo em vários momentos chave— “The Beloved” também captura a desigualdade de gênero que ainda habita atrás das câmeras na indústria cinematográfica.
É uma assimetria às vezes menos evidente, porque não abarca casos escabrosos de assédio sexual como aqueles denunciados na época do movimento MeToo. Como, por exemplo, gritar com atrizes no set ou fazer comentários desmoralizantes como se fossem dicas.
Em certo momento do filme, Emilia revela a uma colega que sua mãe era uma atriz em um dos filmes de Esteban, e quando engravidou dele, largou a carreira para cuidar da filha, enquanto ele se tornou um diretor renomado.
A presença de Bardem é também uma das mais quentes desta edição. O ator espanhol, conhecido por vários papéis marcantes em Hollywood, como o Stilgar em “Duna”, tem sido uma das celebridades mais vocais em defesa da Palestina —ele foi um dos poucos a usar o palco do Oscar para política, em março, ao dizer “Palestina livre” no microfone. Em entrevista dada no início do mês à revista americana Variety, ele chegou a dizer que perdeu propostas de trabalho nos Estados Unidos por falar publicamente sobre o conflito no Oriente Médio.
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