Prestes a completar 50 anos, o escritor Michel Laub decidiu que, depois de ter produzido uma dezena de obras literárias —trabalhos que o tornaram um dos principais autores da literatura brasileira contemporânea—, era hora de escrever um livro de não ficção.
A matéria de reflexão para o ensaio biográfico que acabou produzindo, “Verão na Névoa”, recém-lançado pela Companhia das Letras, estava à mão, no presente, sem a necessidade de abusar das memórias da infância ou da juventude.
Mesmo que não fossem virar tema de livro, as mudanças pelas quais seu corpo e sua mente vinham passando, como resultado da maturidade e do envelhecimento, o ocupavam cotidianamente: perda de músculos, de ânimo, de desejo sexual. Como se isso não bastasse, Laub havia desenvolvido o hábito de consumir cocaína numa frequência que já tinha se tornado preocupante.
Com esse material, o autor produziu um livro inusitado. Uma narrativa sóbria sobre o hábito da cocaína. E um ensaio nuançado, empático sem ser indulgente, sobre as fragilidades de um homem hétero, cis, branco et cetera.
Na superfície, o livro narra essa imersão no mundo às vezes marginal e perigoso do vício —assim como a tentativa de sair desse buraco. O contraste proposital de forma e conteúdo construído por Laub, ao contar essa história, impressiona.
O autor descreve momentos de risco ligados ao consumo ou à busca fissurada da droga: uma ameaça com estilete, outra com faca no peito, o sono exausto na rua, como se fosse um sem-teto, a mistura de substâncias, o medo de um acidente vascular cerebral.
Isso tudo poderia ser contado com ênfase e excitação, como aquele amigo chato que volta agitado do banheiro, no bar, e não para mais de falar de si: eu, eu, eu. Não é o caso. Laub toma distância de si mesmo e usa a terceira pessoa quando se ocupa do quase vício. “Ainda na época da faculdade, ele cheira cocaína pela primeira vez. Até os quarenta cheira outras duas ou três vezes.”
A tática de falar de si na terceira pessoa Laub toma emprestada de J.M. Coetzee, um dos seus autores de predileção. O livro mistura a narrativa pessoal com a análise das obras e das vidas de Coetzee e de Renato Russo.
Os dois autores o ajudam a tornar o próprio livro que escreve objeto de reflexão. Russo e Coetzee são para ele exemplares —embora adotem estratégias opostas— no modo de exercer a arte da confissão.
O sul-africano é, à primeira vista, esquivo, calculista, cauteloso. O compositor brasileiro é derramado, transforma a vida privada em tema de canção e de desabafo, mas em um momento crucial, no fim da vida, silencia.
Renato Russo anunciou ao mundo sua bissexualidade no final dos anos 1980, quando Laub era adolescente. No livro, Laub diz que “a saída do armário do cantor simbolizou a existência de caminhos além daquele que era a norma na cultura ao meu redor: uma heterossexualidade convicta e triunfalista, distante da que aos poucos se formava em mim —algo mais hesitante, cujos limites eu estava recém começando a descobrir quais eram”.
A arte confessional do compositor ajudou o Laub adolescente, depois de ter ajudado, naturalmente, o próprio Renato. Algo parecido está em operação em “Verão na Névoa”. “Escrever sobre uma coisa é uma maneira de entender aquilo”, diz Laub, ao ser questionado sobre suas motivações para falar do hábito da cocaína, admitindo haver um “caráter terapêutico” na escrita.
É possível que “Verão na Névoa” tenha, sobre alguns leitores, um efeito parecido com o que as canções de Renato Russo tiveram sobre Laub. O personagem que ele constrói no texto tem fragilidades, se mostra desidealizado. “Acho que parte da grandeza do Renato Russo foi essa, de se mostrar nesse papel de fragilidade.”
Coetzee começou a escrever ainda sob o regime do apartheid, na África do Sul. Um escritor branco que mostra, nos livros, a iniquidade do regime, mas que “não se posiciona tanto além de expor a questão”, observa Laub.
O escritor gaúcho admira a recusa de Coetzee em aderir a uma literatura mais engajada. O engajamento seria uma solução fácil, que terminaria por diluir no moralismo complexidades que o autor busca explorar, bem como a ambivalência ética de personagens, do autor, de quem quer que seja, dentro de um espectro que vai do opressor total à pura vítima.
O tema das drogas aparece com frequência na obra ficcional de Laub. Em “Diário da Queda”, o narrador é alcoólatra. Por causa disso, perde muita coisa na vida. Há redenção, contudo, no final do livro. A terceira mulher, depois de quase o abandonar, fica grávida. Com o nascimento do filho, o narrador consegue parar de beber.
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Em “Verão na Névoa”, a redenção não é tão evidente. O narrador parece buscar uma saída, recorrendo inclusive ao consumo da ayahuasca para tentar se livrar do vício. Mas não registra no texto se parou de consumir a droga. Em entrevista à Folha, Laub disse preferir não revelar o que aconteceu, depois que pôs um ponto final na obra.
Essa talvez fosse a única solução narrativa possível, em um texto que questiona os motivos e os efeitos das obras confessionais. Se o narrador respondesse à pergunta negativamente, “não, não consegui”, sentiríamos pena, talvez. Do contrário, orgulho.
Como Coetzee, Laub se recusa a oferecer uma lógica binária que, ao resolver o problema, mitigaria a complexidade do narrador e a riqueza da sua história.

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