Crítica: ‘Pragmata’ reflete dilema da indústria de games com inteligência articial

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Crítica: ‘Pragmata’ reflete dilema da indústria de games com inteligência articial


jogos que valem pela história. Outros são tão divertidos que o enredo pouco importa. Mas alguns conseguem unir o melhor dos dois mundos, criando experiências memoráveis. Esse é o caso de “Pragmata”.

O game, lançado em abril pela Capcom para PC e consoles, é protagonizado por Hugh Williams, membro da equipe de investigação enviada para uma estação lunar que cessou seus contatos com a Terra. Após um misterioso abalo sísmico, ele se separa de sua equipe e fica à beira da morte, mas é resgatado pela pragmata Diana, uma androide com aparência e personalidade de uma menina de sete anos.

Hugh logo descobre que IDUS, a IA (inteligência artificial) responsável pela administração da estação lunar, saiu de controle. Para sobreviver aos ataques de robôs assassinos descontrolados, o herói precisará da ajuda de Diana, que é capaz de hackear os inimigos.

Com um crescente arsenal de armas e equipamentos táticos, Hugh é controlado como um herói de jogo de ação comum. Seus ataques, porém, são extremamente ineficazes sem que Diana enfraqueça os robôs em rápidos minigames, que aparecem na tela simultaneamente à ação.

A mistura de quebra-cabeças com ação é pouco usual no mundo dos games, mas funciona muito bem em “Pragmata”. Os dois gêneros estão bem balanceados, obrigando o jogador a constantemente dividir sua atenção entre os inimigos e o tabuleiro quadriculado em que os quebra-cabeças são resolvidos. Apesar de ser uma novidade, esse esquema de controle é rapidamente compreendido e se torna natural para o jogador.

A curva de aprendizagem também é muito bem calculada. Sem longos tutoriais, o game vai aumentando sua complexidade de forma gradual, com a introdução paulatina de novos sistemas e obstáculos. Isso faz com que exista uma constante sensação de desafio, sem que a experiência se torne frustrante.

O game também escapa da armadilha da grandiosidade. Toda a campanha pode ser experimentada tranquilamente em menos de 20h de jogo. Para quem ainda assim busca mais desafios, após o fim da campanha, são desbloqueados novos modos de jogo (sendo um deles com conteúdo inédito), que adicionam mais dezenas de horas de diversão.

A brevidade da campanha, porém, não deve ser confundida com pobreza de conteúdo. Os mapas são complexos, repletos de áreas secretas e itens escondidos. Alguns deles, só acessíveis após avançar mais na história, incentivam que o jogador retorne para fases já concluídas em busca de upgrades.

Além disso, há muitas variações de inimigos, cada um com um comportamento e ponto fraco diferentes, o que obriga o jogador a adaptar suas estratégias e equipamentos, buscando aqueles que serão mais vantajosos no campo de batalha.

A ausência de trechos que buscam apenas estender artificialmente a experiência ajuda a destacar o ótimo enredo de “Pragmata”. É verdade que algumas linhas narrativas acabam se perdendo ao longo da aventura, mas, no geral, o game consegue contar uma história de ficção científica emocionante, com reviravoltas, grandes revelações e temas bastante atuais.

O fio condutor da trama é a relação entre Hugh e Diana. No início avesso a robôs, o protagonista se encanta pela garotinha androide e os dois acabam desenvolvendo uma bonita relação de pai e filha. Há momentos de muita ternura entre os dois que funcionam como refresco entre uma batalha e outra.

Desde a concepção dos personagens, o jogo tenta embaralhar as linhas entre humanos e robôs, entre o orgânico e o sintético. Enquanto a androide é representada quase sempre com aparência humana, de pés descalços e cabelos esvoaçantes, o humano Hugh passa quase toda a aventura em um traje espacial de aspecto robótico, com o rosto coberto por equipamentos.

Por trás disso, há uma reflexão filosófica complexa que o jogo busca fazer sobre o que nos torna verdadeiramente humanos e os limites éticos do uso da tecnologia e da pesquisa científica.

No jogo, a tecnologia exerce ao mesmo tempo o papel de vilã e heroína. Uma ambiguidade que reflete a encruzilhada da própria indústria de games, que entende a IA generativa como tábua de salvação ou agente do apocalipse, a depender do ponto de vista.



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