Djavan está sentado no meio da pista da Farmasi Arena, casa de espetáculos no Rio de Janeiro, sem público. O palco de sua próxima turnê, “Djavanear 50 anos. Só Sucessos”, está todo montado, com sua banda em ação. Com um microfone em mãos, o cantor dirige à distância o conjunto no 39º ensaio do novo show.
“Essa confusão é até boa, sabia?”, ele diz, após ser alertado por Paulo Calasans, veterano pianista de sua banda, de que os tambores na introdução de “Sina” não estavam em sintonia com os outros instrumentos. Não adiantou. Djavan manteve a escolha estética mais ruidosa. “Não tem problema nenhum. Essa confusão eu adoro. Vamos de novo para ver como fica?”
Aos 77 anos, o artista alagoano, um dos grandes da história da MPB, quer botar alguma confusão em uma turnê que é praticamente um jogo ganho. Com estreia marcada para São Paulo no dia 8 de maio, no estádio Allianz Parque, a turnê é um raro momento em que Djavan se permite revisitar os —muitos— sucessos de seus 50 anos de carreira.
Sem parar de lançar discos de inéditas, a cada três ou quatro anos, e fazer turnês para promovê-los, ele acha até difícil montar um repertório só com suas canções mais conhecidas. “Tem uma música ou outra que forcei a barra para cantar, porque eu estava precisando cantar alguma coisa que não fosse tão manjada”, ele afirma, minutos após o ensaio de mais de duas horas, já no camarim.
A dificuldade, diz Djavan, é desenhar um roteiro “que corresponda ao objetivo central, mostrar ao povo o que ele quer ouvir”, e ao mesmo tempo motivá-lo enquanto artista. “Antes tem eu”, diz. “Também quero ficar feliz. Quero momentos em que eu me sinta bem cantando.”
Por essa razão, ele convidou algumas penetras para a festa de gala —há três lados B escondidos no meio do repertório que beira as 30 faixas. São elas “Cordilheira”, que ele nunca apresentou ao vivo, “Me Leve”, que ele cantou pouquíssimas vezes em shows, e “Quase de Manhã”, a que ele mais quer interpretar.
Essa última foi lançada em 1986, em “Meu Lado”, disco que Djavan define como complicado. Ele havia gravado e mixado o álbum nos Estados Unidos, mas quando voltou ao Brasil e ouviu, detestou o resultado. “Cheguei na Sony e disse ‘quero mixar de novo’. Eles quase enlouquecem, né? Mixei de novo e a que saiu foi a feita aqui.”
“Quase de Manhã” teve participação do respeitado saxofonista David Sanborn, que tocou com Stevie Wonder e David Bowie. Djavan, depois, em 1989, tocou com ele no programa Sunday Night, exibido nos Estados Unidos pela NBC. A performance da canção “Asa”, curiosa por mostrar os músicos americanos tentando dialogar em alto nível com a musicalidade do alagoano, hoje tem milhões de views no YouTube e ressurge de tempos em tempos nas redes sociais.
Por que ele escolheu especificamente essas três músicas? “Não sei. É uma obra tão grande, onde o próprio lado B já não é tão ‘B’ quanto já foi, né?”, afirma o cantor. “A ‘Quase de Manhã’ foi [minha] grande conquista, porque ninguém queria —nem o pessoal lá de casa. Não é tão conhecida, mas é animada, tem um astral. E me alegra muito tê-la, porque fica muito burocrático para mim se não tiver essas tangentes.”
Isso não significa que Djavan não se divirta cantando seus hits —pelo menos em algumas ocasiões. Se este repórter fosse até a casa do cantor, ele diz, com certeza não o ouviria cantando “Flor de Lis”, mesmo que pedisse muito. “Não teria a menor motivação.”
Mas em cima do palco para milhares de pessoas —caso da próxima turnê, que passa por estádios e grandes arenas—, a história é outra. “Porque não só tem a emoção do público, como a participação dele, que me motiva muito”, diz o cantor. “A música não perde a motivação porque o povo não deixa. Cantar ‘Flor de Lis’ para cinco ou 50 mil pessoas é um espetáculo, uma maravilha. Aquilo se transforma.”
Como “Flor de Lis”, um dos grandes hits de Djavan, há várias outras. O show vai de “Samurai” a “Eu te Devoro”, de “Oceano” a “Açaí”, de “Azul” a “Lilás”. Tantas que não coube tudo. Entre as suas músicas mais tocadas no Spotify e mais gravadas no Ecad, algumas poucas ficam de fora, casos de “Uma Brasileira”, “Faltando um Pedaço”, “Esquinas” e “Capim”.
Essa última é uma das várias que foram ensaiadas e acabaram fora do repertório. Mas ela ainda pode pintar em algum dos próximos shows. Para Djavan, o roteiro de uma apresentação só fica definido após duas ou três datas de turnê adentro.
É pouco provável, no entanto, que o cantor deixe de tocar os dois singles de “Improviso“, seu álbum mais recente, lançado no ano passado. São eles “Um Brinde” e “O Vento”, esta última uma composição do artista gravada por Gal Costa em 1987, e que agora ele deu sua interpretação. Isso porque o disco acabou ficando sem uma turnê correspondente, atropelado pelo giro de 50 anos.
Celebrar a própria trajetória não é algo comum para Djavan, mas ele tem um sentimento de gratidão por alcançar a efeméride. Ele sente como uma dádiva o fato de ainda ter uma voz potente, que resistiu a exaustão de dois meses de ensaios de até quatro horas de duração, isso em meio a uma série de exercícios físicos e de preparação vocal.
“São 50 anos de carreira, e estou inteiraço. Estou mentido?”, ele diz. “Minha felicidade de estar nesse momento agora deve-se muito ao fato de eu ter uma saúde maravilhosa, e a minha voz estar boa. É um presente de Deus.”
Ainda assim, perguntado se queria contar alguma história da sua vida com o roteiro do show, Djavan riu e disse que “não precisa”. “Tem esse negócio [o musical ‘Vidas para Contar’] que está aí fazendo sucesso. Agora estão querendo fazer um filme. Não me deixam em paz com esse negócio. Não, não precisa.”
A história que a ordem das músicas conta, ele afirma, não é linear, cronológica e nem relacionada a sua vida pessoal. A estrutura, com telões de grande dimensão ocupando todo o espaço por trás da banda, trará obras de diferentes artistas plásticos —um para cada canção. Tem, por exemplo, Walter Firmo em “Açaí”, Vik Muniz em “Mal de Mim”, Cândido Portinari em “Eu te Devoro” e “Azul”, Véio no medley de sambas, Meia em “Outono” e por aí vai.
“Usamos a criatividade para trazer elementos que não sejam só grafismos aleatórios”, diz Gringo Cardia, que faz a direção da cenografia. “Djavan gosta de artes visuais, de pintar. Propus fazer o show como se fosse uma pintura dele. Chamei vários artistas diferentes para, por cima da arte deles, fazer uma composição trazendo o Brasil —que não é só Nordeste nem Rio de Janeiro, é tudo.”
Além do fiel escudeiro Paulo Calasans no piano e teclado, a banda de Djavan conta com Felipe Alves na bateria, Marcelo Mariano no baixo, Torcuato Mariano em guitarra e violão, Renato Fonseca no teclado, Jessé Sadoc no trompete e flugelhorn, Marcelo Martins no sax tenor e flauta e Rafael Rocha no trombone. Os arranjos foram pensados para respeitar as gravações originais das músicas, e a grande novidade sonora é a presença de duas backing vocals —Clara Carolina e Jenni Rocha.
A última vez que Djavan interrompeu seu ciclo criativo —lançar um disco de inéditas e fazer um show correspondente— foi há mais de 26 anos, com “Djavan ao Vivo”. Acompanhado por um registro audiovisual, o projeto saiu em 1999 e foi somente seu primeiro álbum ao vivo, mesmo em uma carreira já com mais de duas décadas.
“E mesmo para aquele disco eu fiz duas músicas novas, que foram ‘Acelerou’ e ‘Um Amor Puro’”, ele adverte, em defesa de uma trajetória em que não se acomodou na obra bem-sucedida. De qualquer forma, “Ao Vivo” vendeu como água —mais de duas milhões de cópias, números subdimensionados no auge da pirataria de CDs. Rendeu também uma turnê de três anos, algo que não deve se repetir agora.
Djavan abriu uma exceção, fez uma pausa e se permitiu à autocelebração. Mas já está de olho no próximo destino. “Estou com um plano de, terminando essa turnê, fazer um show chamado ‘Djavan Lado B’”, ele diz. “Não vão ser estádios, mas lugares para 5 ou 10 mil pessoas no máximo. Mas estou estreando outra coisa. Não é bom falar disso ainda, né?”
Veja a provável setlist da turnê ‘Djavanear 50 anos. Só Sucessos’
- ‘Sina’
- ‘Eu te Devoro’
- ‘Boa Noite’
- ‘Cigano’
- ‘Nem um Dia’
- ‘Miragem’
- ‘Linha do Equador’
- ‘Outono’
- ‘Um Brinde’
- ‘Oceano’
- ‘Meu Bem Querer’
- ‘Lambada de Serpente’
- ‘Azul’
- ‘Açaí’
- ‘O Vento’
- ‘Cordilheira’
- ‘Se…’
- ‘Me Leve’
- ‘Pétala’
- ‘Serrado’
- ‘Fato Consumado’
- ‘Flor de Lis’
- ‘Quase de Manhã’
- ‘Seduzir’
- ‘Samurai’
- ‘Um Amor Puro’
- ‘Lilás’
Veja as datas da turnê ‘Djavanear 50 anos. Só Sucessos’
- 8 e 9 de maio – Allianz Parque (São Paulo)
- 23 de maio – Casa de Apostas Arena Fonte Nova (Salvador)
- 30 de maio – Centro de Formação Olímpica – CFO (Fortaleza)
- 13 de junho – Pedreira Paulo Leminski (Curitiba)
- 27 de junho – Arena BRB Mané Garrincha (Brasília)
- 18 de julho – Arena MRV (Belo Horizonte)
- 1º, 2 e 8 de agosto – Farmasi Arena (Rio de Janeiro)
- 29 de agosto – Arena Opus (Florianópolis)
- 24 de outubro – Hangar (Belém)
- 31 de outubro – Classic Hall (Recife)
- 05 de dezembro – Estacionamento do Jaraguá (Maceió)
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