Nível alto de endividamento leva famílias brasileiras a buscarem renda extra, comprometendo a qualidade de vida para pagar o que devem
JC
Publicado em 28/04/2026 às 0:00
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Diz o ditado associado aos endividados: “Devo, não nego, pago quando puder”. Além da elevada dívida pública gerada pelos governos, em especial o governo federal, o Brasil pode ser visto como o país do futuro, também, pela incapacidade de os cidadãos quitarem suas dívidas: o comprometimento da renda faz com que mais da metade da população pense no mês seguinte com a expectativa de honrar débitos de hoje ou de ontem. O futuro dos brasileiros não é mais a utopia do desenvolvimento econômico e social – é a esperança de cada um conseguir pagar o que deve.
De acordo com pesquisa do Datafolha a esse respeito, 59% entrevistados afirmam que a renda familiar não dá para bancar as despesas de casa. E 45%, quase a metade, reconhece ir atrás de complementos de renda através de trabalhos adicionais, que podem ser formais ou informais. A economia informal no país, que já é alta, tende a crescer, enquanto o nível de endividamento continuar na estratosfera. Por outro lado, empregadores fitam o desafio de contratar pessoal com formação adequada, oferecendo salários ou remunerações que satisfaçam, compatíveis com a demanda sob pressão de indivíduos envoltos em dívidas.
Sem surpresa, quem ganha até dois salários mínimos, ou cerca de R$ 3.200, está mais afundado no estresse das contas a saldar. A percepção da insuficiência da renda chega a 73% dos entrevistados. Por extensão, essa fatia da população está mais propensa a procurar os chamados “bicos” para tentar equilibrar a situação financeira, se virando para arrumar empregos temporários, comércio informal ou atividades por conta própria. Como num efeito-dominó, o comprometimento da renda exige o comprometimento do tempo dos indivíduos, possivelmente prejudicando a convivência familiar, e o desenvolvimento pleno dos potenciais de vocações e desejos de realização profissional. O dia para pagar – que não é mais apenas hoje, se estende ao amanhã e depois, na utopia de quem deve – ruge mais alto do que o cotidiano. E o cotidiano se transforma, porque o futuro imediato precisa ser pago.
Se a economia vai bem, esta está longe de ser a percepção de todos os brasileiros. Para 40%, segundo a pesquisa, houve queda na renda familiar nos últimos meses, especialmente para a faixa etária entre a juventude e a meia idade, de 35 a 44 anos de idade. A percepção negativa da atualidade financeira é maior entre as mulheres, chegando a 44% das entrevistadas. Sem cumprir as despesas básicas, a renda insuficiente é motivo de insegurança, para as mulheres, mais do que para os homens. Num contexto social em que muitas mães assumem os filhos sem a companhia dos pais, o problema econômico se torna uma faceta da questão sociológica sobre o futuro das novas gerações – e o papel do Estado e da sociedade no apoio às mulheres endividadas.
Ao lado da segurança, da saúde e outros temas tradicionais que ressurgem em anos eleitorais, a dívida das famílias deve entrar na lista de tópicos essenciais para os planos dos governantes e parlamentares que serão eleitos ou reeleitos em outubro.

















