Distúrbios como distonia e Tourette impõem isolamento social severo a pacientes. Neurologista explica que são condições que respondem bem a tratamento
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Por trás de um tremor persistente, de um tique involuntário ou de uma postura corporal desalinhada existe não apenas um diagnóstico clínico, mas há especialmente o medo do julgamento.
Para muitos pacientes com distúrbios do movimento (condições neurológicas que afetam o movimento corporal e levam a movimentos involuntários aumentados), o maior obstáculo não é necessariamente a limitação física, mas o olhar do outro.
Em entrevista ao JC, o neurologista Carlos Frederico Lima alerta para o alto índice de estigma que cerca essas condições, um fator que geralmente leva pacientes a se autoexilarem em suas próprias casas.
“O estigma é altíssimo. Muitos se restringem em casa, não querem sair, perdem profissões ou trocam de emprego por causa da exposição pública”, destacou o médico, durante o Striatum Recife 2026 – 2º Encontro Regional de Parkinson e Distúrbios do Movimento, que terminou neste sábado (25) no Memorial Star, no bairro da Boa Vista, Centro do Recife.
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Coordenador do encontro, neurologista da Rede D’Or e do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), Carlos Frederico citou o exemplo de um paciente com síndrome de Tourette que, embora fosse um excelente profissional da área de tecnologia da informação, evitava a todo custo qualquer tarefa que exigisse contato direto com o público, devido aos tiques involuntários.
A síndrome de Tourrete é um distúrbio neurológico que geralmente se inicia na infância (antes dos 18 anos), caracterizado por múltiplos tiques motores e vocais involuntários que persistem por mais de um ano.
Segundo o neurologista Carlos Frederico, a área dos distúrbios do movimento é uma das mais resolutivas da medicina. “O uso de medicações adequadas pode produzir mudanças profundas na vida dos pacientes”, diz – CINTHYA LEITE/JC
A “sombra” da doença de Parkinson e o vazio de informação
Entre os distúrbios do movimento, Parkinson é o mais conhecido pela população. Ainda assim, representa apenas a ponta do iceberg.
Condições como a distonia (caracterizada por contrações musculares involuntárias), a coreia (marcada por movimentos rápidos e fluídos) e a ataxia (perda da coordenação motora voluntária, equilíbrio e precisão dos movimentos) permanecem pouco reconhecidas pelo público. Essa invisibilidade, segundo especialistas, acaba por ampliar o sofrimento dos pacientes.
Segundo Carlos Frederico, a falta de representatividade dessas doenças na mídia e na sociedade em geral deixa muitos pacientes órfãos de informação.
“Muitos dizem: ‘Doutor, eu não vejo isso em canto nenhum, não vejo numa novela, numa revista, num jornal”, relatou o neurologista.
Sem referências claras, o caminho até o diagnóstico correto costuma ser longo. Muitos pacientes passam anos consultando diferentes especialistas (como ortopedistas, médicos vasculares e fisioterapeutas), antes de chegar a um neurologista especializado em distúrbios do movimento.
Foco no movimento: a importância do tratamento
Outra dificuldade comum no processo diagnóstico é a ansiedade em descobrir a causa exata do problema. Na prática clínica, porém, essa resposta nem sempre é o ponto de partida mais importante.
Na neurologia, utiliza-se o conceito de fenomenologia – ou seja, identificar o tipo de movimento apresentado pelo paciente para, então, definir o tratamento adequado, independentemente de a origem ser genética, infecciosa ou traumática.
“A fenomenologia é mais importante do que a causa. O remédio para tratar a coreia, por exemplo, muitas vezes é o mesmo, independentemente do que a provocou”, explicou Carlos Frederico.
Embora o aconselhamento genético seja essencial para famílias que desejam planejar o futuro, o que costuma mobilizar o paciente no dia a dia é a possibilidade de melhorar rapidamente a qualidade de vida.
A revolução da qualidade de vida
Existe um senso comum de que doenças neurológicas são, em sua maioria, progressivas e sem solução. No campo dos distúrbios do movimento, no entanto, a realidade pode ser diferente.
Segundo o neurologista Carlos Frederico, essa é uma das áreas mais resolutivas da medicina. O uso de medicações adequadas pode produzir mudanças profundas na vida dos pacientes.
Ele relatou casos marcantes observados na prática clínica. Uma jovem com distonia, que não conseguia comer nem sentar sozinha, recuperou a autonomia para se vestir e arrumar o próprio cabelo após o início do tratamento.
Outro paciente, que havia perdido a capacidade de falar devido a contrações musculares na face, voltou a se comunicar depois de receber a medicação correta.
“É muito gratificante ver uma resposta tão rápida. Existe um estigma de que a neurologia estuda muito, mas resolve pouco. Nos distúrbios do movimento, é o contrário: temos muita resolutividade”, frisou o médico.



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