“Collectible”, assim, em inglês, foi uma das palavras mais repetidas na semana de design de Milão, que termina neste domingo, na Itália. O setor de colecionáveis, que inclui de objetos feitos à mão a mobiliário antigo, extrapolou o espaço de galerias e de mostras alternativas e chegou ao Salão do Móvel, feira do segmento mais importante do mundo.
Pela primeira vez, o evento, que é dedicado à indústria, abriu uma área para peças feitas em pequena escala. Chamada de Salone Raritas, reuniu cerca de 30 expositores em uma ala dentro da feira. Para criar o projeto de estandes, foi chamada a dupla Formafantasma, um dos escritórios de design mais requisitados atualmente.
Por tudo isso, a abertura, na terça, foi precedida de curiosidade sobre o formato e as intenções do Salone, como é chamado em italiano. Segundo a presidente da feira, Maria Porro, foram identificadas duas necessidades —a do próprio mercado do evento e a dos expositores de colecionáveis.
“Independentemente se for um pequeno projeto residencial ou um enorme de ‘contract’ [hotéis, restaurantes], essas peças [colecionáveis] fazem parte. O público do Salone já está trabalhando com esse tipo de objeto”, afirma. Para as galerias, diz, é uma chance de atrair outro perfil de comprador, além daquele que visita feiras de arte ou de antiquariado.
A primeira edição teve nomes robustos, como a galeria Nilufar, com dois endereços em Milão. “O fato de o Salão do Móvel apoiar uma iniciativa dedicada à pesquisa e ao ‘collectible design’ é um sinal importante para o setor”, diz a fundadora Nina Yashar, que expõe há mais de 40 anos móveis vintage e peças contemporâneas. No Salone Raritas, um dos móveis era a cadeira de Três Pés, do brasileiro Joaquim Tenreiro, do fim dos anos 1940.
A carioca Mercado Moderno também apostou em Tenreiro, além de outros modernistas brasileiros e da designer Inês Schertel, que faz objetos com lã de ovelha.
Em um estande próprio, a holandesa Sabine Marcelis exibiu uma grande escultura líquida de grande dimensão. “Gosto de experimentar materiais e efeitos de luz e cor. No Raritas não tem cliente, não tem ‘briefing’. Quis criar livremente um trabalho que celebra o movimento de uma bolha”, disse. “As pessoas querem coisas únicas, e o ‘collectible design’ tem edições limitadas ou sob medida.”
O movimento do design colecionável foi identificado por feiras de arte há anos, mas sua chegada a um evento de design industrial, em que a maioria dos expositores ressalta aspectos funcionais de peças fabricadas para muitos, virou assunto.
“Com a produção de massa moralmente comprometida, o prestígio agora está na raridade. O que nós valorizamos como design está mudando do útil para o único”, escreveu Debika Ray, jornalista especializada em design, na versão impressa do Dezeen, site referência no tema.
O interesse pode valorizar quem trabalha com técnicas artesanais, mas não necessariamente vai beneficiar grupos que historicamente mantêm práticas manuais.
“Não tem espaço para um número infinito de objetos únicos, e só uns poucos sortudos que podem investir nessas carreiras vão conseguir capitalizar em cima da raridade”, avalia Debika Ray.
Essa foi a novidade do Salão deste ano, em uma edição marcada por lançamentos modestos e cenografias contidas. Mesmo assim, muitas filas se formaram para visitar as principais atrações.
O mercado sente os efeitos das tarifas de Donald Trump e dos conflitos no Oriente Médio, para onde estava expandindo. Os Estados Unidos ainda são o segundo país que mais importa do setor mobiliário italiano, mas houve queda de quase 4% entre 2024 e 2025, enquanto, no geral, as exportações registraram leve alta.
Duas empresas mostraram vigor, com estandes grandes e novas coleções. Para celebrar os 60 anos, a B&B Italia voltou ao Salão depois de 25 anos em que mostrava lançamentos em sua loja. Destaque para a chaise longue Moor, em fibra natural, de Vincent Van Duysen, e para as cadeiras de traços retos de Michael Anastassiades.
Na Kartell, a dupla Barber & Osgerby foi a estrela. A linha Savoia de cadeiras de alumínio é levíssima, com variedade de acabamentos e materiais que permitem seu uso em ambientes domésticos ou comerciais. Os designers britânicos, aliás, são protagonistas também na Triennale de Milão, com exposição retrospectiva, e na francesa Hermès, com o lançamento de uma mesa de mármore.
Na programação paralela, dois nomes históricos do design italiano ganharam homenagens. A Zanotta passou a produzir a mesa Vertebra, de Carlo Mollino. E a Cassina exibiu móveis de Franco Albini na Villa Pestarini, casa projetada por ele no fim dos anos 1930. O imóvel foi aberto ao público pela primeira vez para receber parte da mostra Alcova.
No outro endereço, um hospital militar desativado, a Alcova deu sinais de fadiga, depois de anos como uma das sensações fora da feira. Havia poucas surpresas entre os 130 expositores. De novidade, o anúncio de que a Cidade do México terá uma edição em 2027.
Exceção foi o trabalho dos alunos de pós-graduação da escola Head, de Genebra, com situações e objetos que reviam a relação entre humanos e animais. Chamada de “Banquete para Ratos”, uma mesa foi montada com toalha e utensílios feitos com massa de pão e outros comestíveis, num resultado visual intrigante. “O compartilhamento é o primeiro gesto de reconhecimento entre espécies”, dizem os designers.
A pesquisa de materiais levou a brasileira Stefannia Russo a vencer o primeiro lugar no prêmio do Salone Satellite, seção para jovens talentos do Salão do Móvel. Cofundadora do estúdio Russo Betak, em Copenhague, ela apresentou uma série de luminárias feitas com mistura de conchas e biopolímero. O material é impresso em chapas em 3D e moldado à mão.
Dos brasileiros, destaque ainda para Humberto Campana, com uma linha de tapetes para a Art de Vivre. Inspiradas em seus desenhos de estruturas celulares, as imagens foram reproduzidas manualmente em larga escala com diversas cores, texturas e relevos.
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