Resposta oficial do STF à proposta de indiciamento de seus membros é contraditória, ao colocar a Suprema Corte acima das leis que deve proteger
JC
Publicado em 15/04/2026 às 0:00
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Se há crise institucional entre os poderes da República, tal crise não foi gerada pelo relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, cujo teor pediu o indiciamento de nada menos que três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Faz tempo que as relações entre os poderes no Brasil se esgarçam. E não faltam desconfianças da população para todos os poderes, quando o espírito de corpo e os obstáculos processuais impedem que as informações de interesse público sejam divulgadas. Não fosse o trabalho insistente – e republicano – da imprensa, muitos dos escândalos que vieram à tona não estariam sequer sendo examinados pelas autoridades em Brasília.
Ministros do Supremo, senadores, deputados, ministros de governo e qualquer servidor público devem satisfações à nação por seus atos, dentro do cargo que exercem.
Esperar que juízes da mais alta corte do país deem explicações em situações no mínimo constrangedoras, como os laços pessoais e financeiros com o banqueiro do caso Master, ou que congressistas expliquem as suspeitas de ligações com a máfia do INSS – para ficar em dois exemplos – não é atacar a democracia. Pelo contrário, é acreditar nos mecanismos democráticos, desde que as instituições não estejam contaminadas por métodos e subterfúgios típicos da criminalidade.
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No que diz respeito à indignação que aparentemente une o STF – seria bom escutarmos todos os membros – vale recordar a natureza estrutural da corrosão ética na corte. A indicação política de seus integrantes pelos presidentes da República, vem transformando a Suprema Corte em apêndice do Congresso.
E ao invés de cumprir seus desígnios com transparência e discrição, os 11 escolhidos pelo chefe do Executivo da vez para comandar o Judiciário passaram a estar enxarcados de motivações partidárias e ideológicas. Assim, a Justiça brasileira tirou dos olhos a simbólica venda, para enxergar e fazer o que quiser, achando que não precisa prestar contas a ninguém. Mas como devem saber os defensores do Estado de Direito, nem mesmo um juiz está acima da lei.
A ameaça explícita a um representante do povo no Parlamento, da parte de um integrante do STF – e portanto em nome do Supremo – por causa do relatório da CPI, torna-se flagrante ataque às instituições que a mais alta corte deveria proteger. Nesse fogo cruzado entre o Congresso e o Judiciário, só está faltando um dos lados recorrer à força bruta em nome da lei, impondo ruptura institucional em nome das instituições! Um filme antigo cuja reprise nenhum brasileiro deseja assistir.
Sem descartar outros atores e os dois demais poderes, o Supremo contribui para a bagunça institucionalizada no país, quando ao invés de esclarecer suspeitas graves contra seus membros, joga pedras nos mensageiros e nos acusadores, e pretende obstruir a Justiça (!) de apurar os fatos. Uma Justiça censora se revela mais protetora de seus interesses particulares do que dos interesses coletivos, rasgando a Constituição para salvar a imagem, cada vez mais estilhaçada, do STF, projetada no espelho deturpado de seus membros.
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