A 18ª edição do Ranking do Saneamento, divulgada em março de 2026, escancara essa realidade ao analisar os 100 municípios mais populosos do Brasil
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O acesso à água tratada e ao saneamento básico não é apenas uma política pública. Trata-se de um direito fundamental, diretamente associado à saúde, à produtividade econômica, à valorização imobiliária e à qualidade de vida da população. No entanto, apesar dos bilhões investidos ao longo dos anos, Pernambuco ainda convive com um cenário preocupante, marcado por baixa eficiência, falta de planejamento e dificuldades históricas na gestão do setor.
A 18ª edição do Ranking do Saneamento, divulgada em março de 2026, escancara essa realidade ao analisar os 100 municípios mais populosos do Brasil. O estudo considera indicadores como abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto, investimentos e eficiência operacional, atribuindo notas que permitem comparar a situação do saneamento nas principais cidades brasileiras.
Os números nacionais evidenciam um desafio expressivo. Mais de 30 milhões de brasileiros não têm acesso à água potável, enquanto cerca de 90 milhões não contam com coleta de esgoto. Esse cenário gera impactos diretos na saúde pública, aumenta custos hospitalares, reduz a produtividade do trabalho e compromete a qualidade de vida da população.
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No caso de Pernambuco, os dados revelam um quadro preocupante e difícil de justificar, especialmente quando se trata da Região Metropolitana do Recife, responsável por grande parte da atividade econômica do estado. No ranking geral, Olinda aparece apenas na 83ª posição, Paulista na 85ª e Jaboatão dos Guararapes na 92ª colocação, números incompatíveis com municípios que concentram população, arrecadação e relevância política e econômica. A situação se agrava ainda mais quando se observa o Indicador de Atendimento total de água: Recife ocupa a 91ª posição, Paulista a 92ª e Jaboatão dos Guararapes a 96ª, evidenciando que até mesmo o acesso à água tratada, o serviço mais básico do saneamento, é sofrível.
Trata-se de um cenário que expõe não apenas dificuldades estruturais, mas também falhas persistentes de planejamento, gestão e priorização de políticas públicas. Em outras palavras, municípios estratégicos continuam convivendo com indicadores típicos de regiões com baixo nível de desenvolvimento, uma contradição que compromete a competitividade econômica e a qualidade de vida da população.
O quadro revela uma contradição evidente. Pernambuco possui uma das economias mais relevantes do Nordeste, com polo logístico em expansão, crescimento imobiliário, turismo consolidado e investimentos industriais. Ainda assim, o nível de saneamento não acompanha esse dinamismo econômico. Trata-se de um crescimento que avança sem a infraestrutura básica necessária, criando um descompasso entre o desenvolvimento econômico e a qualidade de vida da população.
A ausência de saneamento impacta diretamente setores estratégicos. O turismo sofre com praias e rios poluídos, o mercado imobiliário enfrenta desvalorização em áreas sem infraestrutura e o ambiente de negócios perde competitividade. Além disso, a falta de saneamento contribui para o aumento de doenças, pressionando o sistema público de saúde, elevando gastos públicos e reduzindo a produtividade da população, o que limita o próprio crescimento econômico do estado.
Outro aspecto relevante apontado pelo ranking de 2026 é a relação direta entre investimentos e resultados. Municípios com melhor desempenho apresentaram níveis mais elevados e constantes de investimento ao longo dos anos. Isso demonstra que planejamento de longo prazo e gestão eficiente são fatores decisivos para a melhoria dos indicadores.
Diante desse cenário, a pergunta que se impõe é direta: falta dinheiro ou sobra incompetência? O próprio ranking responde. Municípios que avançaram não são necessariamente os mais ricos, mas os que conseguiram organizar a gestão, estabelecer metas e tratar saneamento como prioridade, e não como promessa recorrente de campanha. Em Pernambuco, o problema parece menos orçamentário e mais crônico: planejamento que não se sustenta, decisões que não saem do papel e uma gestão pública que, historicamente, empurra o saneamento para o fim da fila.
O saneamento básico segue sendo tratado como obra invisível e, talvez por isso, negligenciada. Não rende foto, não gera inauguração vistosa e raramente vira capital político imediato. O ranking de 2026 escancara essa realidade. Pernambuco, apesar de sua relevância econômica no Nordeste, ainda opera com indicadores incompatíveis com o seu tamanho e potencial. O estado avança em setores estratégicos, atrai investimentos industriais e amplia sua infraestrutura logística, mas continua convivendo com um gargalo básico: a ausência de saneamento adequado.
O diagnóstico não é novo. Ele se repete há décadas. O que falta não é apenas recurso, é prioridade. Pernambuco ainda convive com um atraso estrutural que já não pode ser explicado apenas por limitações históricas. Trata-se, cada vez mais, de uma escolha política. E enquanto o saneamento continuar sendo adiado, o desenvolvimento também seguirá incompleto.
Priscila Lapa, jornalista e doutora em Ciência Política; Sandro Prado, economista e professor da FCAP-UPE.

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