Os EUA de Trump não veem valor estratégico em subsidiar a segurança de um continente que compete comercialmente com eles e que se recusa a segui-los
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O fim da Guerra Fria não trouxe apenas o “fim da história” de Fukuyama, mas um dos debates mais ricos da teoria das Relações Internacionais. Nos anos 90, enquanto os escombros do Muro de Berlim ainda eram removidos, realistas “ofensivos” como John Mearsheimer lançavam vaticínios sombrios: sem o “leviatã” soviético para servir de contraponto e aglutinador, a OTAN estaria fadada à obsolescência. Para a vertente realista, alianças são casamentos de conveniência contra uma ameaça comum; removida a ameaça, o divórcio seria inevitável.
Do outro lado do ringue, liberais institucionalistas como Robert Keohane e John Gerard Ruggie apostavam na resiliência das instituições. Para eles, a OTAN já havia superado a fase de mera aliança militar para se tornar uma comunidade de valores e normas enraizadas. A história inicial pareceu dar razão aos liberais. Longe de definhar, a Organização do Tratado do Atlântico Norte expandiu-se para o Leste, interveio nos Bálcãs e foi acionada após o 11 de setembro, consolidando-se como a bússola da segurança ocidental por três décadas.
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Contudo, a ascensão de Donald Trump e sua doutrina “America First” reabriu as feridas que Mearsheimer havia previsto. Se no primeiro mandato o discurso MAGA (Make America Great Again) soava como uma retórica de barganha para forçar os aliados a pagarem a conta, o cenário de 2026 revela uma mudança estrutural profunda. Trump não está mais apenas pedindo que a Europa atinja os 2% do PIB em gastos militares; ele está operando sob um realismo transacional que questiona a própria premissa da defesa coletiva.
A atual postura da Casa Branca em relação ao conflito com o Irã e as tensões remanescentes na Ucrânia servem como o teste definitivo. Ao condicionar o apoio americano a uma obediência cega aos seus interesses geopolíticos e ao ameaçar a retirada diante da recusa europeia em escoltar petroleiros no Estreito de Ormuz, Trump despe o véu institucional da OTAN. Ele a trata como uma empresa de segurança privada da qual os EUA são os donos, e não como uma aliança entre iguais.
Estamos, portanto, presenciando uma crise institucional sem precedentes. O diagnóstico é puramente realista: a hegemonia americana está se tornando “seletiva”. Os EUA de Trump 2.0 não veem mais valor estratégico em subsidiar a segurança de um continente que compete comercialmente com eles e que se recusa a segui-los em aventuras militares no Oriente Médio.
Todavia, como em toda crise de paradigma, o vácuo deixado pelo recuo americano está empurrando a União Europeia para uma coordenação defensiva que antes parecia tabu. O que era um debate teórico sobre “Autonomia Estratégica” ganha contornos de necessidade material. O presidente francês, Emmanuel Macron, embora longe de ser um líder unânime, tem sido o ator mais vocal nessa transição. Ao declarar que a “Europa é mortal” e que o continente não pode ser um “vassalo” das potências globais, Macron verbaliza uma ansiedade coletiva que começa a se traduzir em números.
As ações recentes da UE refletem esse pragmatismo defensivo. O orçamento de 2025 já apontou um aumento histórico, com os gastos de defesa dos Estados-membros atingindo patamares inéditos de 2,1% do PIB agregado. Mais do que gastos isolados, vemos o fortalecimento do Fundo Europeu de Defesa e da Estratégia Industrial de Defesa Europeia (EDIS), que buscam diminuir a dependência tecnológica do Pentágono. A criação de coalizões navais independentes para patrulhar zonas de conflito, sem esperar pelas ordens de Washington, sinaliza que o continente começou a internalizar o custo de sua própria segurança.
A conclusão é agridoce para os teóricos das RI. A prática baseada na teoria institucionalismo liberal, que sustentou a ordem transatlântica por tanto tempo, enfrenta sua maior derrota. Ironicamente, o realismo disruptivo de Trump está servindo como o catalisador que obriga a Europa a buscar uma defesa coletiva própria. A OTAN pode não morrer formalmente amanhã, mas a aliança que nasceu para “manter os russos fora e os americanos dentro” está sendo reconfigurada por uma Washington que não quer mais estar “dentro” nos termos antigos. O futuro aponta para uma Europa que, pressionada pelo abandono e pela urgência, começa a tatear o caminho para caminhar com as próprias pernas.
Vinicius Cezar Santos da Cruz, mestre e Doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
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