O boi que se tornou símbolo de resistência, tradição e cultura no Ibura de Baixo

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O boi que se tornou símbolo de resistência, tradição e cultura no Ibura de Baixo


De manifestação cultural à formação social e política, Boi de Mainha se consolidou na vanguarda da comunidade do Moxotó



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Em 1995, no Ibura, zona sul do Recife, um episódio inusitado deu origem a uma das manifestações mais simbólicas da cultura popular local.

Um boi que apareceu revirando o lixo de uma casa, na comunidade do Moxotó, inspirou moradores a criar o Boi de Mainha, brincadeira que atravessa gerações e ganhou aprovação da Câmara de Vereadores para se tornar Patrimônio Cultural Imaterial do Recife.

A história virou verso e ecoa até hoje nas apresentações do grupo: “No domingo de carnaval, / num lindo dia de sol, / lá no meu cercado, / apareceu um boi manifestado, / tudo que via destruía. / Um menino encabulado / chamou sua mãe muito zangado: / ‘Mainha, mainha, mainha’. / A mãe logo apareceu / e percebeu que no seu cercado / havia um boi manifestado. / O povo logo festejou, / Boi de Mainha batizou”.


Silvano Prysthon/JC IMAGEM

Grupo Boi de Mainha atua há 31 anos nos ciclos do Carnaval, São João e Natal – Silvano Prysthon/JC IMAGEM

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De manifestação cultural à formação social e política, o Boi de Mainha se consolidou na vanguarda do bairro, envolvendo crianças, jovens, adultos e idosos.

Comandados por Válter Libanio da Silva, o Mestre Vavá, eles se colocam à frente de lutas por melhorias na comunidade e pela preservação do patrimônio de Pernambuco.

“Aqui nessa rua, um grupo estava sentado quando apareceu um boi derrubando o lixo da casa das pessoas. Era domingo de Carnaval, 26 de fevereiro de 95, quando ele apareceu. O menino sai correndo e diz ‘Mainha, mainha’ e a gente aqui disse ‘Eita, é o boi de mainha’. Fizemos com papelão um boi de lata velha”, lembra o mestre.

Ao longo de mais de três décadas, o que era uma brincadeira de rua se tornou uma organização premiada que realiza apresentações pelo País e promove a inclusão social.

Do Rio Grande do Norte a São Paulo, o Boi de Mainha levou a cultura popular para igrejas, ONGs, sindicatos e instituições como a Câmara de Vereadores e a Assembleia Legislativa.


Silvano Prysthon/JC IMAGEM

Presidente Tobias Pinheiro e Mestre Vavá, do Boi de Mainha – Silvano Prysthon/JC IMAGEM

Para Tobias Pinheiro, presidente do grupo, o reconhecimento como patrimônio cultural representa um marco na trajetória construída coletivamente. Brincante desde a infância, ele destaca também os desafios enfrentados ao longo dos anos.

“São 31 anos de histórias, lutas, resistência e dificuldades que a gente passou no decorrer desse tempo, como a perda de material em 2022, que essa rua aqui encheu e perdemos tudo”, afirma.

Mais do que folguedo e brinquedo popular, os integrantes do Boi de Mainha falam sobre acolhimento.

A capitã do boi, Severina Maria Silva, conhecida como Silvia, destaca a participação comunitária. Há 28 anos no grupo, já convocou a filha e a neta para participarem das atividades.

“Comecei indo voluntariamente, já carreguei o boi, lavo a roupa, visto todo mundo e estou aqui para o que precisar. O boi pra mim é tudo, eu aprendo com todo mundo. A gente é respeitado onde chega porque o boi da gente é harmonia, paz, amor e alegria”, conta.

A relação afetiva se repete na trajetória de Carmen Lúcia da Silva, integrante da percussão há mais de duas décadas.

“Já costurei, gosto de brincar, de dançar e de ver o trabalho e se precisar de mim, ainda estou na ativa. Moro aqui perto e quando o boi tá ensaiando eu fico doidinha. Minha filha, meu marido e meus netos também participaram”.

Durante os ciclos do Carnaval, São João e Natal, mais de 130 integrantes ocupam as ruas do Recife, levando o boi como símbolo de identidade e celebração coletiva.

Cultura como ferramenta social


Silvano Prysthon/JC IMAGEM

Boi de Mainha, na comunidade do Moxotó, no Ibura de Baixo – Silvano Prysthon/JC IMAGEM

Para além das apresentações, o Boi de Mainha também atua como instrumento de transformação social. Segundo Mestre Vavá, a cultura é usada como ferramenta de conscientização e resistência dentro da comunidade.

“Foi o único brinquedo da cultura popular que resistiu no Ibura de Baixo. A gente é um bumba meu boi que tem um cunho social e tem um cunho político. Na hora de tecer um voto, a gente tenta conscientizar aqui o pessoal que o voto é muito importante”.

A atuação comunitária do grupo deu início a um projeto social na comunidade do Moxotó. Ao lado da sede e em frente ao mural do Boi, está a Casa de Mainha, espaço criado em 2012, a partir da mobilização da população do Ibura de Baixo.

Aqui a gente acolhe. Uma cultura tem que crescer desse jeito

Mestre Vavá

Segundo o Mestre Vavá, o aumento no número de jovens grávidas na comunidade evidenciou a necessidade de um local de acolhimento.

Mantida pelos próprios moradores, a creche atende cerca de 25 crianças e oferece aulas de reforço escolar, atendimento especializado para crianças atípicas e oficinas de percussão, com foco na preservação da cultura popular no território.


Silvano Prysthon/JC IMAGEM

Boi de Mainha, na comunidade do Moxotó, no Ibura de Baixo – Silvano Prysthon/JC IMAGEM

“Aqui a gente acolhe. Uma cultura tem que crescer desse jeito e por isso a gente continua com 31 anos. A gente discute a coisa que é melhor pro boi, pra comunidade”, celebra o mestre.

Falta de incentivo

Apesar do trabalho social e cultural voltado à difusão da cultura popular pernambucana, os líderes do Boi de Mainha criticam a falta de reconhecimento e valorização do folguedo.

“Enquanto a gente se apresenta com 50 pessoas em frente a um palco, tem uma banda com seis pessoas, mas a banda ganha 10 vezes mais do que a gente”, reflete mestre Vavá.

O presidente Tobias Pinheiro também destacou o desafio de levar o grupo para cortejar na avenida.

São 31 anos brigando para ter uma valorização dentro do estado de Pernambuco e do Recife

Tobias Pinheiro, presidente do Boi de Mainha

“A Prefeitura e o Governo do Estado fazem a propaganda e vendem o peixe para os turistas de que cultura popular é maracatu, Bumba meu boi, Cavalo Marinho, La Ursa, mas na realidade eles valorizam mais as bandas”, lamentou.

Para ele, “deve haver um olhar diferenciado para o pessoal da cultura popular, porque se são 31 anos que a gente fala de luta, resistência e persistência, são 31 anos brigando para ter uma valorização dentro do estado de Pernambuco e do Recife”.

Mesmo diante das dificuldades, o Boi de Mainha segue ocupando as ruas, reafirmando sua força como expressão viva, construída no coletivo e sustentada pela resistência de quem faz da cultura um modo de existir.


Citação

Aqui a gente acolhe. Uma cultura tem que crescer desse jeito

Mestre Vavá





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