Contratos estranhos, dinheiro inexplicado e a estratégia de transformar crimes em política. Procura-se um militante para servir como distração.
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O carnaval terminou e, entre um frevo e outro, talvez você não tenha ficado sabendo que o ministro Dias Toffoli admitiu ter sido dono de um resort de luxo no interior do Paraná. Por causa da pressão sobre ele, embora ele tenha dito que eram somente ilações, o nobre magistrado desistiu de ser relator do processo que investiga o Banco Master. O mesmo que comprou a participação dele no setor hoteleiro alguns anos atrás.
Tem muita coisa que não ficou explicada. Por exemplo, ele não quer nem tocar no assunto sobre o desequilíbrio entre a própria renda e o patrimônio. É que ao longo de 20 anos no serviço público Toffoli ganhou salários que reúnem valor de R$ 8 milhões. Mas há pagamentos a ele, por causa das cotas desse resort, que podem chegar a R$ 30 milhões.
Ou o ministro que nunca conseguiu nem passar num concurso para juiz é um gênio da hotelaria, ou sei lá, talvez o pessoal que cuida de crimes financeiros na Polícia Federal não sabe fazer conta.
Operação
Se esse for o problema, erro nas contas, Alexandre de Moraes já está resolvendo. Moraes é um ministro múltipla ação, igual a sabão em pó. Limpa, perfuma, tira manchas. Agora, resolveu mandar a Polícia Federal investigar quem está expondo as contas dos ministros e dos familiares deles.
Quer resolver a situação do amigo Toffoli, claro, embora por uma dessas coincidências da vida, o foco principal é descobrir que acessou os dados da esposa d próprio Moraes, aquela que trabalha num escritório que tinha um contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master. O mesmo que Toffoli parecia fingir que investigava.
O objetivo da operação e da investigação é descobrir, entre outras coisas, se o servidor que acessou os dados fiscais da esposa de Moraes tem conexões políticas. Está aí o “golpe”. E é bom ficar muito atento a isso.
Relativização
Em um ambiente polarizado politicamente, a melhor forma de relativizar grandes esquemas de corrupção, tráfico de influência e outros crimes graves é atribuir tudo à perseguição política.
É a melhor receita para fazer um grande escândalo de proporções desastrosas para o país ficar com a aparência de passeio no parque. Se Lula ganha um sítio e um triplex de empresários interessados em contratos com o governo, é grave. Mas logo corre alguém para dizer que quem denunciou tem vinculações políticas e é como se o crime passasse a ser “coisa pequena”, porque a denúncia teve motivação política.
Bolsonaro e seus aloprados colegas tentam dar um golpe de estado, mas logo corre alguém para dizer que quem acusou tem motivações políticas e o crime vira também “coisa pequena”. E de repente é como se nunca tivesse havido tentativa de golpe no país do triplex e do sítio que nunca existiram. É tudo perseguição, dependendo da sua paixão política.
Estratégia
O que Moraes e Toffoli estão buscando é exatamente o mesmo benefício da relativização por interesse político. O importante é que o contrato de R$ 129 milhões da esposa e o Resort de R$ 300 milhões desapareçam.
E para eles deixarem de existir, a receita é a mesma, basta alegar que as denúncias foram feitas por alguém que tem interesse político de prejudicá-los. Basta encontrar alguém na Polícia Federal, no Banco Central, na Receita Federal e no Coaf, que tenha qualquer vinculação política.
Basta que o porteiro da madrugada no posto da Polícia Federal de um município qualquer tenha feito uma postagem numa rede social exaltando algum político nos últimos anos, e isso será usado como prova de que os santos magistrados, cobertos de luz divina e envoltos em mirra sagrada, coitados, estão sendo “perseguidos por quem não suporta a democracia”.
Distração
O contrato de R$ 129 milhões vai continuar existindo, o resort vai continuar existindo, o Master, as fraudes no INSS, tudo vai continuar existindo, mas vai ficando etéreo devido à instrumentalização da paixão política.
Enquanto tudo isso acontece, enquanto dinheiro é roubado, crimes são cometidos e acobertamentos são conduzidos pelas maiores autoridades dos três poderes, não demora para as massas imbecilizadas por essas autoridades voltarem a discutir com fervor algo que naquele momento vai parecer mais importante como se “usar Havaianas é de esquerda ou de direita” ou se “a escola que fez homenagem a Lula atacou os evangélicos ou não”.
Querer consertar o Brasil é como tentar botar ordem num hospício. Qualquer um que se sinta questionado grita que “Napoleão está chegando na sala a cavalo” e o caos atropela a ordem imediatamente pondo o prédio todo ao chão.
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