O agente secreto prova importância da economia criativa para PIB de Pernambuco que ainda não a trata como negócio

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O agente secreto prova importância da economia criativa para PIB de Pernambuco que ainda não a trata como negócio


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No futuro, quando perguntarem qual a imagem do Carnaval de 2026, não será a do presidente Lula no desfile do Galo da Madrugada, nem o coração de Dom Helder Câmara na escultura gigante na ponte da Boa Vista ou o desfile do Home da Meia Noite em Olinda. Será a camisa retro da Pitombeira, a mesma que o ator Wagner Moura veste numa cena no filme O Agente Secreto que concorre ao Oscar no próximo dia 15 de março em Hollywood.

Produzida em série pelo clube carnavalesco, copiada aos milhares por diversas pessoas e transformada em brinde pelo governo de Pernambuco, que vestiu a primeira-dama Janja da Silva ao lado do presidente Lula, a camisa amarela vestiu milhares de pessoas no dia da festa do Oscar, na torcida pelo filme de Kleber Mendonça, ambientado no Recife.

Camisa retrô

A camisa retrô é apenas um exemplo da potência da economia criativa de Pernambuco que movimenta uma cadeia produtiva que vai muito além da produção de camisas e que se espalha não apenas pelo Carnaval e pelo São João que o governo do estado não trata como um fator de nossa economia como é a agroindústria canavieira, a fruticultura, a indústria de alimentos, o polo automotivo e o complexo logístico que o porto de Suape ancora.

Dados da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e da Fecomércio Pernambuco estimam que o impacto financeiro do Carnaval de Pernambuco em 2026 está estimado em R$ 2,4 bilhões. É um número importante. Entretanto, muito pouco quando comparado a Salvador, cujo Carnaval deve ter movimentado mais de R$ 1,8 bilhão, sendo a principal força motriz da temporada no Nordeste.

Imagem de Wagner Moura no filme O Agente Secreto – Reprodução/O Agente Secreto

Plataforma baiana

A Bahia conseguiu transformar o Carnaval numa plataforma estratégica da economia criativa na cidade, revelando a força das comunidades de nicho e a diversidade de experiências simultâneas que Salvador oferece durante o verão.

A necessidade de Pernambuco transformar a economia criativa numa plataforma estratégica vem sendo defendida por ninguém menos que a economista Tânia Bacelar, para quem estruturar e definir claramente o que a potência desse segmento como eixo econômico é tão necessário como o de organizar a estratégia da ferrovia Transnordestina no estado.

Diversidade cultural

Pela potência que ela tem com sua diversidade cultural e que bastou apenas um fato como a reconstrução do Recife dos anos 70 numa obra de ficção do cinema para desencadear todo o interesse pelo que era a capital pernambucana, sua vida social e política e sua economia exibida nos anúncios da avenida Guararapes na época. O Recife virou um personagem a mais no filme de Kleber Mendonça assim como o seu elenco.

Para Tânia Bacelar, é essa potência criativa que precisa ser vista como um negócio inserido em toda a cadeia de serviços que ela demanda e que está aí precisando apenas de um olhar estrutural. Como um ator econômico mesmo.

Identidade ancestral

Bacelar no está sozinha na percepção do potencial da economia criativa de Pernambuco. O consultor de Mercados Globais na Capibaribe Analytics, Jefferson Lucas avalia que no filme, Pernambuco encontrou o ponto de equilíbrio perfeito entre sua identidade ancestral e sua ambição global

“Não estamos falando apenas de festa; estamos falando de uma engrenagem econômica que sustenta milhares de famílias e posiciona o estado como um hub de economia criativa e vanguarda financeira. O mundo finalmente está enxergando o que nós, pernambucanos, sempre soubemos: nossa cultura é um dos ativos mais rentáveis e resilientes da América Latina”, avalia.

Divulgação
Jefferson Lucas, especialista em Economia Global pela Universidade de Harvard. – Divulgação

Como empacotar

A avaliação dos dois economistas é um alerta importante, mas a questão é como empacotar essa tal economia criativa, afinal ela não se resume apenas a um ‘período festivo’ e para se consolidar como ativo estratégico precisa ser capaz de articular cultura, turismo, toda a cadeia de hotelaria e eventos com geração de empregos e renda em larga escala.

Divisor de águas

A produtora, founder e CEO da empresa Festa Preciosa, Marcela Silva, avalia que Salvador mostra que já tem tudo para liderar esse movimento. O ano de 2026 terá sido um divisor de águas para colocar a cidade em evidência, já que o número de turistas deve aumentar consideravelmente numa expectativa de atender 3,4 milhões de turistas disputando atenção com destinos como Rio de Janeiro, Recife e Fortaleza.

Salvador, pelo que estruturou seu produto com a inclusão de todos os seus artistas, o seu patrimônio histórico-cultural e o modelo de Carnaval, é um bom exemplo de como economia criativa pode gerar um negócio de classe mundial se inserindo na economia do Estado.

Divulgação
Marcela Silva,produtora, founder e CEO da Festa Preciosa. – Divulgação

Foco definido

A diferença talvez em relação a Pernambuco talvez seja foco. No passado a Bahia escolheu o frevo e agregou a ele muito mais que o trio elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar. Juntou a festa todos os artistas baianos e criou a Timbalada de Carlinhos Brown, apenas para falar nos principais. Pernambuco tem uma enorme dificuldade em escolher o que trabalhar entre seus diversos ritmos até porque recentemente agregou o breg ao Carnaval.

Mas, segundo Jefferson Lucas, quando o cinema global escolhe o Carnaval do Recife e de Olinda, está chancelando nossa infraestrutura, nossa capacidade logística e nossa relevância como polo de influência”.

Provocação

É uma boa provocação. Mas agora que a Orquestração do maestro Spock encerrou mais uma vez o carnaval do Recife no Marco Zero, talvez seja um bom momento dos atores dessa cadeia produtiva da economia criativa começarem a pensar além dos três dias do Carnaval. O que vai exigir ajuda do próprio governo do estado para abordar, estudar e entender o sistema e, quem sabe, propor algo mais estruturado para os próximos anos como estratégia de Estado.

Revista Algo Mais
Economista Tânia Bacelar – Revista Algo Mais

 



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