Me perguntam se viajo no carnaval, se gosto da folia, etc. Minha resposta é que não vejo melhor lugar no mundo para ir no carnaval do que Olinda
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Como morador do Sítio Histórico de Olinda há 47 anos, desenvolvi enorme admiração pelo carnaval olindense. Às vezes, me perguntam se viajo no carnaval, se gosto da folia, etc. Minha resposta é que não vejo melhor lugar no mundo para ir no carnaval do que Olinda. Em 1977, comecei a vir para Olinda, integrando-me ao bloco Eu Acho É Pouco, então criado. Em 1978, passei uma parte no meu sítio de Gravatá. Foi a última vez que saí de Olinda no carnaval. Depois disso, sequer vou ao Recife Antigo.
Por outro lado, detestei a maldição que foi o Recifolia, em Boa Viagem, aonde fui duas vezes, logo no começo. Minha opção por Olinda é por termos aqui um carnaval bonito, democrático, popular, espontâneo, barato, envolvido de afeto. Faço sempre bate-bate de maracujá e, no domingo da folia, servimos sarapatel para os amigos que passam em minha casa. É um mimo que Vera e eu oferecemos com a maior alegria.
Em 1979, nós, moradores, conseguimos banir os carros do Sítio Histórico, trabalho que foi executado pela associação e assumido pela prefeitura, oficialmente, em 1980. Carro nas ruas da Cidade Alta não fazem o menor sentido. Muito menos, o som mecânico que muita gente coloca, interferindo na melodia deliciosa dos blocos e troças de frevo, com suas orquestras tradicionais.
A prefeita Luciana Santos, em 2001, impôs regras para as músicas destoantes que muitas barracas de venda de comida ou gente que aluga casas para o carnaval no Sítio Histórico gostam de ouvir, querendo impor o mesmo gosto por esse lixo. Em certo momento, apareceram os detestáveis camarotes, que nada têm a ver com uma festa do povo. Agora, a novidade são “paredões de som” tocando samba a todo vapor.
Em Olinda, o que empolga mesmo é o Hino de Elefante e o de Pitombeira, por exemplo, ou frevos de rua imortais como Vassourinhas. Ou ainda frevos-canção como os de Capiba e de intérpretes como Alceu Valença, Ed Carlos. Todo mundo canta e delira com “Último Regresso”, de meu primo Getúlio Cavalcanti. Esse é o mundo de um carnaval “imortal, imortal”, como diz o hino do estado, que as orquestras de frevo, às vezes, executam e a multidão explode cantando.
Nesse cenário, a transformação do Parque Memorial Arcoverde em território de um carnaval que nada tem a ver com a folia de Olinda ofende os brios daqueles que possuem um rubro veio. Parque, por outro lado, em qualquer lugar do mundo, é espaço da cidadania e não sofre deformações nunca. Aqui, começou-se desgraçando o Memorial Arcoverde para as exibições do Cirque du Soleil há mais de 15 anos.
É assim que parece absurda a desarrumação que se processa neste momento no parque Memorial Arcoverde, em Olinda, para um carnaval de gente endinheirada. Penso que inventaram um carnaval ali que é completa aberração, além de impedir que o parque cumpra sua missão. Que a prefeitura de Olinda entenda isso e dê vigor maior ao carnaval único e maravilhoso de nossa cidade, inclusive evitando que potentes carros de som circulem no meio da multidão de felizes carnavalescos das ruas.
Clóvis Cavalcanti é membro da Academia Pernambucana de Ciências, Economista Ecológico e ex-presidente da Sociedade Internacional de Economia Ecológica.
*Clóvis Cavalcanti, membro da Academia Pernambucana de Ciências, ex-presidente da Sociedade Internacional de Economia Ecológica (ISEE) e presidente de honra da EcoEco

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