As boas histórias com Zé Paulo

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As boas histórias com Zé Paulo



Quando o jurista José Paulo Cavalcanti me telefonava, minha mulher de plantão armava a rede de palha na varanda e o papo varava a madrugada.

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Conheci o velho José Paulo Cavalcanti no seu lendário campinho de pelada na rua Jacobina, nas Graças. Nunca vi campo de pelada com tantas mangueiras, cajueiros, coqueiros, constante ameaça para os grandes craques que nele jogavam. Eram senhores de idade, respeitados em suas profissões, que no ardor da peleja se transformavam em verdadeiros Guabeirinhas, tido pela imprensa pernambucana como “O Terror dos Gramados”, campeão de expulsões do futebol nordestino, catimbeiro e indisciplinado.

Quando o jurista José Paulo Cavalcanti me telefonava, minha mulher de plantão armava a rede de palha na varanda e o papo varava a madrugada. Fã ardoroso de Ademir Marques de Menezes, o maior jogador pernambucano de todos os tempos, artilheiro da Copa de 50 com 9 gols, chegava ao absurdo de preferir Altair, do Fluminense, a Nilton Santos. Doutor em filosofia, sociologia, antropologia, literatura e religião, diziam que ao telefonar aos diletos, ele mergulhava numa banheira de água morna e ficava comendo maçã.

“Acabei de conversar com seu tio Orlando Gomes agora” — costumava dizer. Numa triste tarde, ele ligou: “Arthur, estou doente e quero lhe dar todos os livros que escrevi.” “Tá certo mestre, vou buscar no seu escritório.” “Você não vem não, porque é farrapeiro e preguiçoso, vou levá-los.” No outro dia ele atravessou a ponte Duarte Coelho, trouxe os livros para nosso escritório. “Fiz questão de vir a pé para dar esmola ao meu devotinho, o corcundinha que fica sentado sem camisa, na calçada da ponte Duarte Coelho.” E me entregou todos os livros de sua autoria.
Nisso, estoura o desumano plano Collor, e eu, à época advogado de supermercados, vou a João Pessoa tentar soltar o gerente de uma loja arbitrariamente preso pela Polícia Federal. Quando pego o elevador do edifício onde estava o escritório de um colega, quem eu vejo para minha grande surpresa? O ascensorista com a farda caqui, padrão do condomínio, era o corcundinha de Zé Paulo, que fazia bico na ponte Duarte Coelho. Ele me olhou de cima a baixo no quinto andar.

Depois eu soube que ele foi morar em Sapé, interior da Paraíba. Sapé não tem elevador, nem ponte para ele exibir sua corcunda em pleno sol. De minha parte, Zé Paulo partiu sem saber do destino do seu “devoto”. Sabendo que ele estava com os dias contados e tentando aliviar o papo no nosso escritório, perguntei a ele: “Zé Paulo, seja sincero, como vai a situação, tá tudo em pé?” E ele, fingindo indignação: “Arthur, para com isso… deixa isso pra lá… vamos mudar de assunto…” Meus filhos, Duda e Carlito que o adoravam caíram na gargalhada e a reunião encerrou-se assim. Abraço, Zé.

Arthur Carvalho, da Associação Brasileira de Imprensa – ABI



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