Opinião – Joanna Moura: O problema de tratar diplomas de medicina como mercadoria

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Opinião – Joanna Moura: O problema de tratar diplomas de medicina como mercadoria


Eu nunca pensei em cursar medicina. Fora a minha profunda agonia em ver pele sendo cortada e osso exposto, eu nunca fui a melhor aluna da turma.

Eu sou dessa época, em que fazer medicina era coisa pra quem sentava na primeira fila da classe. Mais do que isso, era quase um chamado, um chip que já vinha implantado na criança. Como explicar um adolescente que, vivendo o auge da ebulição de seus hormônios, consegue sentar a bunda na cadeira e prestar atenção a horas de explicação de conceitos teóricos de física, química, biologia?

Mais de vinte anos se passaram desde que eu ingressei numa universidade mais compatível com o meu nível de compromisso escolar, enquanto minha amiga mais estudiosa passou para medicina na Universidade Federal da Bahia.

Semana passada ouvi um amigo contar com surpresa que seu filho havia sido aprovado numa universidade de medicina. “A gente não imaginava que ele ia conseguir entrar”, ele relatou com um orgulho recém-nascido.

Eis que, no domingo, enquanto assistia ao Fantástico, da Globo, pela primeira vez em muitos anos, me deparei com uma matéria sobre o resultado do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, ou Enamed.

O exame aplicado pelo MEC, por meio do Inep, tem como objetivo avaliar a formação médica no Brasil. Em resumo, mais do que o desempenho individual dos alunos, a prova é feita para avaliar o ensino das universidades de medicina.

O resultado foi estarrecedor: dos 351 cursos avaliados, mais de 30% receberam notas consideradas insuficientes pelo Ministério da Educação. Entre as instituições com pior desempenho estão, pasmem, universidades privadas.

Nos últimos anos o Brasil viveu uma explosão na oferta de universidades privadas de medicina. Natural. Havia claramente uma demanda: muitos alunos querendo poucas vagas. E não há demanda que o capitalismo não preencha.

Na última década, o surgimento de universidades de medicina aliado a programas de financiamento como o Prouni ampliaram e democratizaram o acesso ao ensino superior especialmente num curso cobiçado como o de medicina. Seria maravilhoso se a oferta não seguisse a uma outra lógica capitalista: aquela que visa o maior lucro com o menor investimento.

Universidades privadas sem estrutura adequada, com professores sem o treinamento correto, jogaram a qualidade do ensino no chão, enquanto cobram caro para imprimir deplomas que, na prática, valem quase nada.

Vitor Miranda, aluno do último semestre de medicina na Unicid de São Paulo, é bolsista do Prouni e tirou 8,2 no Enamed. Sua faculdade, porém, recebeu nota 2. Em depoimento ao Fantástico, Vitor reclamou da falta de um hospital-escola e a consequente falta de exercício prático de procedimentos básicos.

E nessa mercantilização de diplomas e da medicina, cada vez mais vista como um caminho profissional com garantia de enriquecimento, os maiores prejudicados são os pacientes, cujas chances de se deparar com um mau profissional aumentam exponencialmente a cada ano. Prova disso é que, entre 2023 e 2024, o número de ações judiciais envolvendo erros médicos teve um salto de 506%.

O Enamed não expõe apenas uma crise da educação. Expõe a crença do nosso tempo de que tudo pode ser comprado.


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