O Martin Luther King Day, feriado em memória do legado de Dr. Martin Luther King Jr. (1929-1968), ocorre toda terceira segunda-feira do mês de janeiro nos Estados Unidos. Foi a primeira vez em que pude viver o dia por aqui e enxerguei uma oportunidade para pensar que reflexões o líder do movimento dos direitos civis, emissário de ideias de paz, igualdade e justiça social, pode nos oferecer para interpretar os tempos presentes.
Desde o movimento dos direitos civis nos anos 60, uma vasta produção intelectual tem se dedicado a analisar as múltiplas camadas do legado de King. Neste texto, vou abordar brevemente uma das suas faces mais conhecidas: sua oposição às guerras, sobretudo à Guerra do Vietnã.
No auge da Guerra Fria, o conflito armado no leste asiático opôs o Vietnã do Norte (apoiado pela URSS) e o Vietnã do Sul (apoiado pelos Estados Unidos). Seus efeitos foram devastadores: cidades inteiras destruídas, milhões de mortos e feridos. No campo da política, o bloco dos Estados Unidos amargou sucessivas derrotas até sua retirada formal em 1973, enquanto a vitória do Vietnã do Norte foi sacramentada em 1975 com a queda de Saigon, posteriormente renomeada como Cidade de Ho Chi Minh, em homenagem ao líder falecido durante a guerra.
Uma outra consequência daquela guerra foi o florescimento de um movimento de contracultura de oposição ao conflito. Figuras como Muhammad Ali, que se recusou a lutar e enfrentou consequências duras por isso, são até hoje lembradas. Festivais como Woodstock, assim como filmes, livros e canções, também. Eu, que não era nascida àquela época, lembro das histórias que meu pai contava sobre esses dias.
Nessa resistência cultural, é justo afirmar que Dr. King foi um dos mais notáveis opositores à guerra, numa época em que se opor era muito delicado, sobretudo em um país que estava saindo da segregação. Ao se posicionar publicamente contra o conflito, King enfrentou severas consequências políticas pessoais, incluindo críticas da grande imprensa e hostilidade do governo federal. Ainda assim, perseverou.
Em abril de 1967, o pastor batista e Prêmio Nobel da Paz proferiu na Riverside Church, em Nova York, um de seus mais contundentes discursos contra a Guerra do Vietnã, conhecido como “Além do Vietnã: hora de quebrar o silêncio”, quando se dirigiu à sociedade estadunidense e afirmou:
“Já não podemos nos dar ao luxo de adorar o deus do ódio ou de nos curvar diante do altar da retaliação. Os oceanos da história são tornados turbulentos pelas marés sempre crescentes do ódio. A história está repleta dos destroços de nações e de indivíduos que seguiram esse caminho autodestrutivo do ódio”.
E, ao final, lançou um chamado ético que permanece atual:
“E, se apenas fizermos a escolha certa, seremos capazes de transformar esta elegia cósmica iminente em um salmo criativo de paz. Se fizermos a escolha certa, seremos capazes de transformar as dissonâncias estridentes do nosso mundo em uma bela sinfonia de fraternidade. Se apenas fizermos a escolha certa, poderemos apressar o dia, em toda a América e em todo o mundo, em que a justiça correrá como as águas e a retidão como um caudaloso rio”.
As palavras de King —um homem de fé e de compromisso radical com a paz— falam a cristãos e a pessoas de todos os credos, raças e origens, que podem, a seu modo, lutar pela paz. É preciso cuidar do discurso, do que se diz em público, do que se comenta em páginas de redes sociais, de como cada instituição pode contribuir, de modo a favorecer um ambiente em que radicais de guerra falem cada vez mais sozinhos. Como mulher negra e ativista, lembro-me dos versos de Wilson Simonal em sua homenagem: “Luta negra demais é lutar pela paz“.
Quase 60 anos após o discurso no púlpito de Riverside, o mundo segue marcado por guerras, deslocamentos forçados e crises humanitárias profundas. Do Sudão, no qual uma guerra absurda ceifa centenas de milhares de vidas em silêncio, ao Oriente Médio, onde palestinos reivindicam a dignidade, o território e a voz no processo de reconstrução, passando por contextos em que mulheres lutam por autonomia, como no Irã, a urgência moral evocada por Martin Luther King Jr. permanece incontornável.
Seu chamado à escolha —entre a violência e a coexistência, entre o ódio e o amor político— segue ecoando como tarefa inacabada da nossa história comum.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/04/magnific-mulher-com-cabelo-grey-bl-2885760299.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)



/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/04/freepik-bordo-japones-exuberante-2877647430.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)

/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/04/freepik-closeup-realista-de-artef-2877723051.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)





/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/04/magnific-mulher-com-cabelo-grey-bl-2885760299.jpg?w=150&resize=150,150&ssl=1)



/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/04/freepik-bordo-japones-exuberante-2877647430.jpg?w=150&resize=150,150&ssl=1)
