O tempo inútil, insuficiente de resultados eficientes, enfermo de propósitos, desarrazoado de suas próprias razões, coloca em desperdício o homem
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A visão eclesiástica do tempo diz-nos que tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de abraçar e tempo de afastar-se; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz. Em ser assim, diante do tempo e de todo tempo, estabelecido e preciso, o tempo que não para, o tempo que não cessa, tempo implacável e inexorável, há que se dizer, platonicamente, antes de qualquer tempo, que o tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel e que, por isso mesmo, as horas e os dias talvez sejam, como pensou Marcel Proust, iguais para um relógio, mas não para um homem. Diante de o homem, como ser cognoscente em diálogo com a vida (efêmera e voraz com o tempo) – eis então posto o problema, o do tempo e de seu uso próprio e adequado. Com pertinência, Charles Darwin advertia, às expressas, que o homem que tem a coragem de desperdiçar uma hora de seu tempo não descobriu o valor da vida.
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De fato, se a passagem do tempo representa a voragem das horas, e mesmo que se pense que o tempo que se gosta de perder não é tempo perdido, porque o homem faz de seu tempo a própria medida de sua vida, impõe-se pensar acerca do desperdício e do vilipêndio de tempo. Do desperdício, dele cogitou Victor Hugo, ao assinalar que “a vida já é curta, e nós a encurtamos ainda mais desperdiçando o tempo”. Tempos desperdiçados, despercebidos, despedaçados, em fragmentos de tempo, que nada somam, nada acrescentam, inférteis de vida, porque neles o desperdício conspira contra a ordem natural das coisas e da própria existência. Tempos irreversíveis como a pedra atirada, a palavra dita, a ocasião perdida, porque tempos sem qualquer passado. Desperdício de tempo, que se faz tempo sombra que nada traz o ontem para o amanhã, flagrado por Millor Fernandes que, em seu refinado humor, o contempla, afirmando: “Quem mata o tempo não é um assassino, mas um suicida”.
Realmente. O tempo inútil, insuficiente de resultados eficientes, enfermo de propósitos, desarrazoado de suas próprias razões, coloca em desperdício o próprio homem e esta é a tragédia dos dias de tempos insossos, tempos sem o sal da vida. De todo modo poderá ser dito, perante os outros, que o homem é o senhor do seu tempo e o proverá, como melhor lhe aprouver. Assertiva que se não justifica o desperdício do tempo, convive com a realidade pragmática de cada um, nos limites próprios de sua in(finitude) de vida. Ou seja, nosso presente é contingente das horas e esse presente é vivido conforme nossa dimensão de vida, para além do dia de hoje. Nós podemos ser futuro, mas podemos ser apenas o ontem.
Do vilipêndio do tempo, porém, caso é saber que, na hipótese, esse tempo não é apenas desperdiçado, pela perda do próprio tempo, faculdade que é dada ao homem exercitá-lo nas circunstâncias do tempo e dos interesses de vida. Nessa segunda hipótese, a do vilipêndio, o tempo é subtraído violentamente do homem por terceiro, que rouba, sutilmente, a vida do outro, por atitudes de apreensão abusiva do tempo. Ora. “Se nada existe mais precioso que o tempo, pois ele é o preço da eternidade” (Louis Bourdaloue), o problema do tempo vilipendiado mais se agudiza quando o tempo de nossas vidas se torna refém de outro. Muitas vezes, um outro impessoal, indeterminado, um outro institucionalmente não individualizado.
Napoleão Bonaparte, em suas máximas, afirmou que “há ladrões que não se castigam, mas que nos roubam o bem mais precioso: o tempo”. A questão é de suprema gravidade e não se pode admitir, por retóricas de tolerância ou de condescendência, que os transtornos do cotidiano que nos submetem a esse vilipendio de tempo subtraído de vida sejam justificados como “meros aborrecimentos”, como afirma a vã jurisprudência. Exemplo marcante é o tempo agônico de espera em longas filas, gerando prejuízos imensuráveis que impactam diretamente a vida. Por ineficiência operacional, processos mal planejados, sistemas desatualizados, falta de pessoal ou de automação, empresas e governos não conseguem gerenciar as suas filas de modo responsável e eficaz. Quando não conseguem, não estão valorizando o tempo das pessoas e ao mesmo tempo, também não valorizam todas elas que perdem o seu tempo.
É o caso das filas virtuais do INSS, por exemplo, que no final do ano passado atingiu o elevado patamar de quase 3 milhões de pedidos de aposentadorias, pensões e benefícios por incapacidade, cujas análises demandam demasiado tempo. Em face de uma sociedade tecnológica e massificada, impessoal e disforme, onde as pessoas perdem sua própria individualidade, não se tolere que sejam elas consideradas apenas usuários numerados em bancos informatizados de dados. O banco da vida é diferente: tem os seus dados de existência contados em segundos, minutos e horas, onde cada dia é também medida divina do tempo.
Certa vez, um escritor sueco, em conto de ficção cientifica, tratou de uma sociedade onde os seres nela existentes viviam em função das horas disponíveis na sua contabilidade da vida, os mais ricos comprando as horas de vida dos mais pobres e o personagem central, ciente das horas que lhe restavam de vida, empreendia busca frenética de compra de horas, para sobreviver enquanto possível. A vida, na sua grandeza, vale todo o tempo, a cada tempo que lhe é destinado, e a cada momento a vida é mais, sempre mais. Bem por isso, o vilipêndio do tempo afigura-se algo tão dantesco e aterrorizante como o pânico do personagem de horas contadas porque poucas lhe sobravam. Há um tempo razoável para tudo, na extensão compreensiva de que tudo tem o seu tempo determinado, como afirma o Eclesiastes.
Jones Figueirêdo Alves é Desembargador Emérito do TJPE. Advogado e parecerista

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