O anúncio de que a cerimônia do Oscar passará a ser transmitida ao vivo pelo YouTube, a partir de 2029, pegou muitos de surpresa. Primeiro, porque a Disney é parceira histórica da premiação há meio século. Segundo, quem pagaria uma fortuna pelos direitos de exibição de uma festa que vem perdendo seu apelo entre a audiência?
Mas talvez a mudança seja justamente o choque de realidade que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas precisava. Em tempos de streaming e de atenção pulverizada, a ida do Oscar para o YouTube pode ser a oportunidade perfeita para a organização repensar o tipo de show que cabe na realidade do século 21.
Apesar de os números apontarem uma lenta recuperação do público que liga a TV para acompanhar a festa, eles ainda estão abaixo da era pré-pandêmica. Em 2020, na iminência da quarentena, 23,6 milhões de americanos ligaram a televisão para ver o Oscar. Depois, o público foi de 10,4 milhões, 16,6 milhões, 18,7 milhões e 19,5 milhões, até chegar à mais recente edição, com 19,7 milhões. Nos anos 1990, o padrão era acima dos 40 milhões.
Há sinais de recuperação, em parte pela diversificação promovida entre os membros da Academia, o que resultou em filmes mais populares indicados nas categorias principais, mas a era de ouro do Oscar na televisão ficou para trás. Assim como a era de ouro da televisão linear em si.
Da mesma forma que as séries de 20 e poucos episódios não foram imunes à programação mais enxuta e maratonável do streaming, as cerimônias de três horas interrompidas por intervalos comerciais e presas às grades das emissoras também não sobreviveriam, a médio prazo, aos novos hábitos de consumo —à possibilidade de avançar, voltar e começar o show no seu horário de preferência, entre outras coisas.
Cinéfilos podem até gostar de ver as 24 categorias sendo lidas ao vivo, mas o espectador padrão, normalmente, nem mesmo sabe o que um técnico de som faz. Não que categorias como esta não devessem ser reconhecidas com a mesma pompa e circunstância de atores e atrizes. Mas a verdade é que os prêmios, hoje, estão distantes da realidade e da expertise do público.
E é justamente aí que entra uma das grandes vantagens da troca da ABC pelo YouTube. Enquanto a emissora demanda concessões e invencionices —como a decisão desastrosa de três anos atrás de tirar categorias técnicas do ao vivo ou a de criar um prêmio para blockbusters, que não vingou—, a plataforma de vídeos não precisa se preocupar com a audiência minuto a minuto.
Ao menos em teoria, a taxa de retenção do espectador importa muito menos. Enquanto a ABC precisar manter o espectador sentado no sofá para atrair anunciantes, o YouTube está mais preocupado com a vida útil que a transmissão terá em seu site, a fim de atrair usuários e gerar novos conteúdos —clipes de melhores momentos, discursos de destaque, performances musicais e por aí vai.
Assim, a mudança é uma boa oportunidade para a Academia centrar seus esforços no cinema e reconhecer todos os membros que a formam de maneira equivalente, dando, por exemplo, o mesmo tempo de discurso à lenda da fotografia Roger Deakins ou à lenda da atuação Meryl Streep, que provavelmente jamais teria seu microfone cortado numa transmissão.
Flexibilidade, ativo escasso na televisão linear, pode ser a chave para a renovação da maior festa de Hollywood, a partir de 2029 e, pelo menos, até 2033, até onde o contrato atual vai. Outra palavra-chave deste acordo é a democratização, já que os direitos de exibição do YouTube serão globais. Todos, em qualquer lugar do mundo, assistirão à mesma cerimônia, sem riscos de canais locais pularem um ano ou outro.
Claro que isso vai depender do YouTube. Os planos para 2029 ainda não estão claros, afinal. Não sabemos, por exemplo, se as cerimônias serão dubladas e legendadas em outros idiomas —o que nem sempre acontece de forma automática nas transmissões ao vivo da rede, mas que é crucial para a tal democratização.
Outra palavra importante que deve reger a parceria é a transparência. Nem só de Oscar vive a Academia e muitos de seus eventos e premiações paralelas não chegam a ver a luz do dia, já que não havia espaço para eles na grade televisiva.
O acordo de agora prevê que a Governors Awards, entrega de prêmios honorários, e a Scientific and Technical Awards, dedicada a avanços tecnológicos na indústria, por exemplo, ganhem algum tipo de cobertura. Entrevistas com artistas e programas educacionais também estão previstos.
Por fim, o acervo do belo Museu da Academia será digitalizado e disponibilizado por meio do Google Arts & Culture, para que todos possam ver itens importantíssimos do cinema mundial de qualquer parte do mundo.
Numa só canetada, a Academia mostrou ensejo em se modernizar —resta torcer para que este filme não termine antes do clímax.
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