Mercado de arte movimenta US$ 2,2 bilhões e dá sinais de recuperação e equilíbrio

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Mercado de arte movimenta US$ 2,2 bilhões e dá sinais de recuperação e equilíbrio


As casas de leilão lidam com superlativos para convencer seus clientes ultrarricos de que a arte vale milhões de dólares. Um quadro de Basquiat precisa abrir “uma janela para outro mundo”. Uma tela de Rothko deve alcançar “uma intensidade que ressoa com a condição humana”. E uma escultura de Jean Arp precisa ter “presença que evoque tanto o corpóreo quanto o transcendental”.

Nos últimos três anos, porém, colecionadores podem ter se desiludido com tais hipérboles. Houve demissões em casas de leilão. Grandes galerias fecharam. As vendas continuaram encolhendo —12% no ano passado, segundo a recente pesquisa de colecionismo global da Art Basel e do UBS.

Mas, com alguma estratégia de negócios e um pouco de sorte, as casas de leilão venderam US$ 2,2 bilhões, cerca de R$ 11,8 bilhões, em arte na semana passada. No total, os leilões de novembro em Nova York geraram um aumento de 77% em relação às vendas equivalentes do ano anterior, embora ainda estejam 30% abaixo do pico recente do mercado, de US$ 3,2 bilhões em 2022.

Como conseguiram isso? Neste ano, as casas de leilão contiveram suas estimativas e incentivaram os vendedores a baixarem as expectativas. Elas também garantiram que 70% do valor estimado das vendas noturnas estivesse virtualmente vendido antes mesmo de as portas se abrirem.

Executivos conseguiram obras raras de espólios de recém-falecidos, incluindo o do filantropo Leonard A. Lauder, cujo retrato de Gustav Klimt gerou US$ 236,4 milhões —a segunda obra mais cara já vendida em leilão. E colecionadores puderam alongar seus orçamentos graças ao mercado acionário aquecido.

“Todos sentem uma mistura de animação e alívio porque há vida real no mercado de arte”, diz Robert Goff, vice-presidente na consultoria Gurr Johns.

Além de espetáculos como o vaso sanitário de ouro de Maurizio Cattelan, vendido por US$ 12,1 milhões à empresa de entretenimento Ripley’s Believe It or Not, e o fóssil de um tricerátops por US$ 5,4 milhões, os lances foram vigorosos para objetos tão diversos quanto uma mesa de centro de Diego Giacometti, arrematada por US$ 4,5 milhões, figuras de bronze expressivas de Henri Matisse, US$ 16,7 milhões cada, e uma cena florestal do artista contemporâneo Yu Nishimura, por US$ 711.200, quase seis vezes o esperado.

Ainda assim, obras com estimativas agressivas ou exemplares menos importantes da carreira de alguns artistas não encontraram compradores, como uma pintura de uma mulher sentada ao lado de uma máquina de Coca-Cola, de Barkley L. Hendricks, com estimativa máxima de US$ 12 milhões, e um abstrato em tons acinzentados de Cecily Brown, com estimativa de US$ 6 milhões.

Os resultados mistos sinalizam que, se o mercado de arte ainda não voltou aos seus picos recentes, talvez tenha reencontrado seu equilíbrio. Doze pinturas foram vendidas por mais de US$ 20 milhões cada, acima das sete registradas em novembro passado, mas abaixo das 24 de novembro de 2023.

“Acho que, de repente, toda obra em uma galeria medíocre vai vender? Não. E também não acho que o mercado esteja saudável quando está enlouquecidamente inflado”, disse a consultora Meredith Darrow. “Estamos entrando em uma versão mais saudável do mercado.”

Com a poeira baixando, aqui estão seis tendências desta temporada que apontam para onde o mercado está indo.

Busca por novos compradores

As vendas da semana passada parecem ter se beneficiado sobretudo do retorno de compradores já conhecidos, agora com novo vigor.

Alguns eram colecionadores veteranos ampliando o foco para categorias frescas, como o surrealismo e o design do século 20, segundo especialistas. Compradores mais novos estão avançando para faixas de preço mais altas após receberem grandes heranças, parte da transferência multitrilionária de riqueza dos baby boomers para seus filhos.

Stephanie Armstrong, sócia na consultoria Beaumont Nathan, disse que o apelo do modernismo “atravessa as gerações”, com clientes na faixa dos 40 anos atraídos pela estética de artistas como Fernand Léger e Wassily Kandinsky. “Estamos vendo uma adesão ao ecletismo e ao maximalismo”, ela acrescentou.

Embora as grandes casas de leilão não tenham fornecido imediatamente dados sobre quantos licitantes e compradores tinham menos de 45 anos —algo celebrado pelo setor em anos anteriores—, sua aproximação com o público jovem inclui parcerias com marcas, investimento em vendas de luxo, maior ênfase nas redes sociais e até alianças com feiras fora do ciclo tradicional de leilões, como a que a Sotheby’s firmará em 2026 ao sediar a Independent 20th Century no prédio Breuer, em Manhattan.

A Sotheby’s informou que 30% do valor ofertado em seus leilões veio da Ásia, excluindo o Oriente Médio, cerca do dobro da porcentagem registrada em novembro de 2024. A região, que havia reduzido seu ritmo de compras na crise, parece estar voltando.

No entanto, a casa se recusou a especificar em que países vivem esses compradores. Segundo veteranos do mercado, compradores chineses têm se retraído nos últimos anos.

Mulheres em ascensão?

A venda pela Sotheby’s de um autorretrato recordista de Frida Kahlo —US$ 54,7 milhões— reacendeu uma questão recorrente no mercado de leilões: quanto tempo levará para que os preços de artistas mulheres alcancem os dos homens?

Há sinais de movimento ascendente, com recordes registrados na semana passada para Dorothea Tanning, por US$ 3,2 milhões, Lynne Drexler, US$ 2 milhões, e Joan Brown, US$ 596.900. A consultora e ex-executiva de leilões Saara Pritchard afirma que preços ainda mais altos já foram pagos por Drexler e Kahlo em transações privadas. A Christie’s vendeu privadamente o autorretrato “Eu e Meus Papagaios”, de Kahlo, por mais de US$ 100 milhões em 2021, segundo uma fonte próxima ao negócio.

Mas a diferença de preços públicos entre artistas mulheres históricas e seus pares masculinos permanece por vários motivos. Primeiro, mulheres muitas vezes produziram menos ao longo da vida porque “não tinham o suporte do mercado para manter aquele nível de produtividade”, diz Pritchard. E, ao contrário das regras tradicionais de oferta e demanda, no mundo da arte, “quando o mercado fica um pouco faminto, a demanda pode morrer”.

Além disso, lembra Pritchard, colecionadores ricos passaram décadas vendo obras de homens brancos celebradas em museus, enquanto muitas instituições só começaram a enfatizar suas pares femininas nos últimos dez anos.

Artistas mulheres representaram pouco menos de 15% das obras ofertadas nos leilões noturnos de alto padrão da semana passada. Um colecionador poderia ter comprado todas elas por US$ 207 milhões —e ainda teria gasto US$ 29 milhões a menos do que o preço do retrato recordista de Klimt.

Tudo o que reluz

Nos últimos anos, casas de leilão adotaram táticas ao estilo Hollywood, atraindo novos clientes com espetáculos como uma Ferrari vermelha ou um Banksy triturado. Nesta semana, isso significou apostar no ouro —com resultados mistos.

“America”, de Maurizio Cattelan —um vaso sanitário funcional feito de cem quilos de ouro 18 quilates— foi vendido à Ripley’s Believe It or Not com um único lance de US$ 12,1 milhões. O valor equivale ao custo da matéria-prima somado às taxas da casa de leilão. A Phillips ofereceu uma pepita de ouro chamada “The Thunderbolt” —divulgada como “a obra-prima da natureza”, com estimativa de até US$ 1,5 milhão— que não encontrou comprador.

Houve competição muito maior por obras mais tradicionais com elementos dourados. Uma imagem fantástica de um homem montado em um caracol, com folha de ouro, do artista Noah Davis, morto em 2015, foi vendida por US$ 1,4 milhão na Christie’s, acima da estimativa máxima de US$ 1 milhão. Uma tapeçaria escultural cintilante entrelaçada com folha de ouro, da colombiana Olga de Amaral, foi vendida por US$ 3,1 milhões —mais de cinco vezes sua estimativa máxima e um recorde para a artista têxtil de 93 anos.

Segundo Darrow, a consultora, os resultados da semana indicam que “verdadeiros amantes de arte, não especuladores ou garotos do Bitcoin”, estão impulsionando a recuperação do mercado.

Surrealismo em ascensão

A Sotheby’s vendeu mais de US$ 128 milhões em arte surrealista na semana passada —seu maior total para o gênero em uma única semana. A maior parte desse montante foi gasta na venda noturna de um único proprietário, chamada Exquisite Corpus, liderada pelo autorretrato de Kahlo.

A competição acirrada também gerou novos recordes de leilão para nomes antes considerados secundários, como Tanning, Wolfgang Paalen e Hans Bellmer. As vendas expressivas refletem uma demanda crescente por surrealismo nos últimos 15 anos, segundo especialistas.

“O surrealismo foi, por muito tempo, prerrogativa dos leilões de Londres”, diz Emmanuel Di Donna, cuja galeria em Manhattan foca em arte surrealista, modernista e pós-guerra. Agora, “há compradores globais para o surrealismo, especialmente no topo”.

Ultracontemporâneo: o enxugamento

Em nenhum outro segmento a redefinição do mercado foi tão evidente quanto nas vendas de artistas “ultracontemporâneos” —aqueles nascidos em 1975 ou depois.

Em novembro de 2024, Christie’s, Sotheby’s e Phillips apresentaram 16 artistas ultracontemporâneos em seus leilões noturnos principais em Nova York. Na semana passada, ofereceram nove, Nishimura, Robert Alice, Lucy Bull, Firelei Báez, Noah Davis, Jadé Fadojutimi, Adrian Ghenie, Antonio Obá e Matthew Wong. Os resultados foram irregulares.

Novos recordes de leilão foram estabelecidos para Nishimura, Alice, Davis, Obá e Báez —cuja pintura de plumas tropicais sobre um mapa colonial quintuplicou sua estimativa máxima ao ser vendida por US$ 1,1 milhão na Christie’s.

Mas os lances por uma pintura monumental de Fadojutimi na Phillips pararam em US$ 500 mil —bem abaixo de sua estimativa mínima de US$ 800 mil— e uma obra de Bull no mesmo leilão foi vendida por US$ 490 mil. Ambos os artistas já tiveram ao menos dez pinturas vendidas por mais de US$ 1 milhão desde 2022, segundo o banco de dados de preços da Artnet.

Os caprichos do mercado revelados

No mercado de leilões —imprevisível e emocional—, a adrenalina da competição pode levar alguém a pagar demais. “Não é um mercado linear”, disse Darrow. A semana forneceu muitos exemplos tanto de desvalorização quanto de valorização. Ajustando pela inflação, aqui vão três casos de queda em vendas repetidas:

  • Uma pintura de Emily Mae Smith, com uma figura caricata e uma árvore de uvas, vendida por US$ 454 mil em 2022, alcançou US$ 63,5 mil na Christie’s na quinta-feira —queda de 88%
  • Uma pintura de 1835 do forte Ehrenbreitstein, de J.M.W. Turner, vendida por US$ 23,9 milhões na Sotheby’s em 2017, caiu 62% em valor, sendo vendida por US$ 11,9 milhões na Christie’s na segunda-feira
  • Um colagem de pés na praia, de Tom Wesselmann, vendida por US$ 53.846 na Christie’s em 2015, caiu 52%, alcançando US$ 35.560 na Sotheby’s na quarta-feira

Houve também muitos casos de aumento de preços, baseados na demanda sustentável por obras de determinados artistas, como:

  • “Sunflower V”, de 1969, de Joan Mitchell, obra expressionista abstrata vendida por US$ 1,5 milhão na Christie’s em 2005, valorizou 578%, alcançando US$ 16,7 milhões na Christie’s na segunda-feira
  • “High Society”, composição de Cecily Brown com 2,4 metros de comprimento, de 1997–98, vendida por US$ 968 mil na Sotheby’s em 2006, valorizou 530%, chegando a US$ 9,8 milhões na terça-feira

O mercado pode ser seletivo, diz o consultor David Norman, mas “uma boa obra não fica para baixo”.



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