Politicamente insípido em tempos de polarização, o Emmy de 2025 foi subversivo de outra forma. Traindo o próprio costume, a premiação mais importante da indústria televisiva norte-americana distribuiu quase todos os seus principais troféus para séries estreantes e nomes que, embora não necessariamente tenham surgido agora, subiram ao palco como vencedores pela primeira vez.
Tanto o prêmio de melhor drama (para o turbilhão médico “The Pitt”) como o de melhor comédia (para a piada interna hollywoodiana “O Estúdio”) foram para séries estreantes. É apenas a quinta vez que isso ocorre nos 77 anos da premiação, e a última vez em que havia acontecido fora em 1988 (na ocasião, levaram “Anos Incríveis” e “Thirtysomething”).
Mas a consagração inédita não ocorreu apenas nas duas categorias principais. Em uma situação que só encontra similar em 1954, também nos prêmios de atuação, todas as estatuetas ficaram com intérpretes que nunca a tinham recebido, exceto a de melhor atriz de comédia, conquistada pela sétima vez por Jean Smart. Ela levou com a protagonista da engenhosa “Hacks”, que já lhe rendera o prêmio nos últimos três anos.
Sua companheira de cena, Hannah Einbinder, finalmente recebeu o Emmy de melhor atriz coadjuvante em comédia; Britt Lower e Trammell Tillmann, ambos de “Ruptura”, de melhor atriz de drama e melhor ator coadjuvante em drama; Jeff Hiller ficou com a de coadjuvante em comédia pela adorável “Alguém em Algum Lugar”, um tributo à amizade; Seth Rogen foi o melhor ator cômico por “O Estúdio” —levaria mais três prêmios por roteiro, direção e produção. Até aí, só acertos.
A lista de primeiras vezes segue: Cristin Milioti e Stephen Graham receberam os troféus principais de atuação em minissérie por, respectivamente, “Pinguim” e “Adolescência”, título que monopolizou a categoria ao conquistar também produção, direção, roteiro, atriz e ator coadjuvante, para Erin Doherty e Owen Cooper, arrebatador como o garoto suspeito de matar uma colega. Uma pena, aliás, que a delicada e ferina “Morrendo por Sexo” tenha concorrido no mesmo ano que “Adolescência”, um fenômeno social.
Por “The Pitt”, Katherina LaNasa levou atriz coadjuvante em drama, e Noah Wyle, após ter recebido cinco indicações como coadjuvante por “Plantão Médico” e saído de mãos abanando, foi consagrado melhor ator.
A série atual, aliás, é herdeira direta daquela dos anos 1990 em uma longa linhagem de dramas médicos, vista como um último suspiro de uma fórmula televisiva consagrada nas grandes redes abertas de TV, ainda que com um formato tenso mais afeito a esses tempos de atenção escassa, no qual cada hora de enredo representa uma hora cheia da vida de seu protagonista.
Tantos ineditismos culminaram em discursos de altíssima carga emocional, o que contrastou com a baixa voltagem do apresentador Nate Bargatze, um sujeito escolhido por evitar polêmicas de qualquer natureza em suas piadas.
Em um dos maiores erros da noite, Bargatze prometeu uma doação de US$ 100 mil (R$ 540 mil) para uma associação educativa infantil, da qual deduziria US$ 1.000 para cada segundo excedido nos discursos, o que obviamente resultou em um saldo negativo.
O apresentador depois elevou a oferta, porém o constrangimento foi aparente em muitos caos, como o de Einbinder, que prometeu pagar do seu bolso para poder falar mais e ainda encerrou com um “Palestina livre” (ela é judia) numa das raras manifestações políticas da noite —as outras vieram de um panfleto por cessar-fogo colado na bolsa da atriz Megan Stalter e nos discursos do comediante Stephen Colbert e de seus produtores.
Seu programa, o longevo “Late Show”, foi cancelado pela rede CBS após pressão do presidente Donald Trump, alvo frequente das piadas de Colbert. Acabou contemplado com o Emmy de melhor talk show a dias de seu episódio final e recebeu a mais longa e intensa ovação da noite.
Além de “Adolescência”, um fenômeno de público que também caiu no gosto de boa parte da crítica, “O Estúdio” se sagrou o grande vencedor da noite. Liderou a lista de prêmios, com 13 incluindo as categorias técnicas, e se tornou a comédia com mais estatuetas em seu ano de estreia. A série, do tipo que faz o espectador rir alto, acompanha um produtor que aspira a conceber obras de arte, enquanto tem de lidar com as exigências de bilheteria que andam na mão contrária.
Seu principal adversário era vencedora no ano passado, “Hacks”, que também fala do showbiz, embora do ponto de vista de uma atriz em decadência que reencontra o sucesso.
Entre os dramas, o páreo apertado entre “The Pitt” e “Ruptura”, uma intrincada história sobre pessoas cuja personalidade de trabalho é cirurgicamente dissociada de seu “eu” da vida privada, acabou dividido nas categorias de atuação e rendeu estatuetas para outras séries nas categorias de direção e roteiro (respectivamente, “Slow Horses” e “Andor”, sendo que o prêmio para “Slow Horses” beirou o incompreensível ante o nível das adversárias).
“Ruptura” perdeu o prêmio maior; por outro lado, acumulou mais Emmys (8) do que a adversária (5).
A partição também foi salomônica entre as plataformas, com Netflix por trás da melhor minissérie; HBO Max do melhor drama e Apple TV+ da melhor comédia.
No fim, foi um Emmy meramente satisfatório, que pareceu tentar agradar a todos. Afora um emocionado Colbert, que bradou nunca ter amado seu país “tão desesperadamente como agora”, coube ao presidente da academia de TV, Cris Abrego, falar do que considera uma regressão cultural em curso, com cortes de financiamento público e pressões econômicas sobre empresas privadas que resultam em uma limitação da liberdade de expressão.
“Neutralidade não é suficiente”, disse ele. Ironicamente, foi uma das cerimônias mais neutras de todos os tempos.
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