Das muitas fofocas que até hoje cercaram o mundinho afeito a novidades de fachada como o da moda, uma insistia em permanecer temporada sim, temporada também, nos corredores da Semana de Moda de Milão. “Armani vai se aposentar na próxima”, ouvíamos, à boca miúda, de pretensos “insiders” alheios ao óbvio —o estilista italiano, morto nesta quinta-feira, aos 91 anos, não queria, não iria nem poderia deixar de trabalhar.
Designer mais longevo no panteão do estilo italiano e nome incontornável da moda do século 20, Armani podia até querer passar mais tempo sob o sol da Sicília, em seu complexo de casas na ilha de Pantelleria, que ele comprou em 1979 e dizia amar. Ou, quem sabe, ter mais tempo para jantar com amigos na filial milanesa do Nobu, o restaurante japonês do qual era sócio e onde era aplaudido de pé quando aparecia de surpresa no salão.
Um apagar das luzes em vida para Armani, porém, seria mais simbólico para seu país do que para ele próprio. Se a mítica do “made in Italy” foi gestada pelas casas de acessórios, de Prada a Gucci, de Fendi a Ferragamo, foi o “signor Armani”, como seus funcionários eram instruídos a se referir a ele, quem deu alma, look e fama ao país reconhecido como a oficina do luxo, mas que, antes dele, não alcançava as massas ao ponto de tornar a Itália o emblema de uma elegância possível.
O mundo só soube que seria possível usar um simples blazer sem que o homem parecesse querer ir a uma festa de gala quando o ator Richard Gere usou a peça sem as telas embutidas, comuns na alfaiataria italiana, no filme “Gigolô Americano“, lançado em 1980.
A desconstrução feita por Armani naquele figurino abriu as portas para a casualização do rigor, que tornaria o estilista o nome central da geração “yuppie” que então nascia em Wall Street.
A jaqueta Armani, feminina e de cintura marcada, seria a versão para mulheres dessa forma mais simples, porém elegante, de se vestir sem as amarras do passado.
Matemático da costura, Armani tinha experiência dos anos em que passou no ateliê de Nino Cerruti, onde cuidava das coleções mais casuais do designer, e a passagem por lá abriu seus olhos para o fato de que a classe trabalhadora desejava o ideal italiano de elegância, mas não o via como prático, tampouco acessível no preço.
Portanto, é difícil saber de alguém que não tenha reconhecido siglas como AX, AJ, EA ou GA passeando pelos corpos da juventude a partir daquela década. Armani Exchange, Emporio Armani, Armani Jeans e, claro, Giorgio Armani, respectivamente, foram respostas do estilista aos diversos tipos de cliente, do que podia pagar apenas pelos óculos escuros ou, quando muito, uma calça jeans, até aquele, um pouco mais abastado, que passava o cartão no prêt-à-porter luxuoso da EA até que, de tanto ver sua camiseta pirateada ou na ponta de estoque da extinta Century 21, em Nova York, tenha passado a considerar a linha mais exclusiva.
Não é difícil reconhecer um Giorgio Armani autêntico. A mistura inconfundível de azuis, rosas e roxos numa mesma peça, as diferentes texturas de preto sobre preto nos costumes bem cortados e, principalmente, os blocos de cinza concreto pincelados de um bege claro quando refletidos na luz, identificavam parte importante da passarela dele.
O mesmo concreto, aliás, que adorna os prédios de seu teatro homônimo e a sede da grife, ambos em Milão e desenhados por seu amigo de longa data, o japonês Tadao Ando, um dos maiores arquitetos vivos e vencedor do prêmio Pritzker, láurea máxima da arquitetura.
A brutalidade das construções de Tadao Ando, combinadas ao minimalismo etéreo de suas ideias iluminadas geometricamente pela luz solar, resumiram os códigos de estilo do designer por décadas.
O tino empresarial tornou o menino pobre de Piacenza, no norte da Itália, num dos estilistas mais bem-sucedidos da indústria global. É estimado que seu grupo de grifes e licenciamentos —como perfumes, hotéis e linha de beleza— tenha faturado US$ 2,7 bilhões, ou R$ 14,7 bilhões, no ano passado. Sua fortuna é de US$ 9,4 bilhões, ou R$ 51 bilhões.
Tamanho sucesso tem a ver com o fato de que Giorgio Armani conseguiu transitar sem prejuízos à imagem por diferentes estratos da sociedade. Apostava suas fichas, por exemplo, tanto no esporte mais popular da Itália —foi dele a ideia de patrocinar times de futebol e, pelo pioneirismo, passou a desenhar as roupas dos “azzurri”, a seleção de seu país—, quanto nos tapetes vermelhos das premiações do cinema.
Até o início do século, ele dominou o Oscar com vestidos de gala amados pela parcela mais chique das atrizes, como a australiana Cate Blanchett, sua musa, e, mais recentemente, Fernanda Torres —no Festival de Veneza, ela vestiu um look Armani Privé, a linha de alta moda do estilista.
“Os tapetes vermelhos estão todos muito iguais. Vou tentando fazer do meu jeito, com minha ideia de sofisticação, uma elegância mais naturalista”, disse o estilista, numa das vezes em que concedeu a palavra a este jornalista.
Avesso à uniformização do estilo, em outra conversa rechaçou a ideia de uma moda sem gênero, hoje pilar de uma parcela da indústria, porque, disse, “homens devem sempre ser homens, eles não devem usar roupas tipicamente femininas”. Sua abordagem, vale dizer, tinha mais a ver com a arquitetura do corpo do que com o moralismo vigente.
Na visão dele, “conhecer a si mesmo completamente, tanto fisicamente quanto mentalmente, para que você selecione sempre os vestuários mais adequados e nos quais fique à vontade, é primordial”, porque, afirmou ao repórter, “a capacidade de observar e se reconhecer no espelho é a base fundamental da elegância”.
Numa época que as passarelas começam a deixar o teor minimalista proporcionado pelo estilo “quiet luxury”, em voga nos últimos anos, em prol da pompa que ele combatia e, agora, é traduzida em referências aos volumes do século 19 e à esbórnia estética dos anos 1920, 1970 e início dos 1980, a morte de Giorgio Armani também aprofunda a crise em curso no seio de toda a moda italiana.
A indústria do país perdeu um de seus defensores mais ferrenhos em meio às investigações da polícia local sobre supostas práticas ilegais das oficinas de couro, em parte geridas por empresários estrangeiros, que estariam mantendo mão de obra análoga à escravidão. Espécie de porta-voz do empresariado italiano, ao lado de Miuccia Prada e outros medalhões, Armani conseguia aglutinar seus pares para fazer valer um ambiente de negócios saudável.
O estilista não deixou herdeiros diretos, mas sua fortuna e a empresa, um dos poucos grupos ainda independentes no cenário do luxo global, devem ser herdados por amigos próximos e parte de sua família. Duas sobrinhas, um sobrinho e sua irmã mais nova, Rosana, integram o espólio.
A grife não comunicou as causas da morte do estilista. Seu estado de saúde havia se deteriorado nos últimos meses quando, em junho, na temporada de desfiles masculinos de Milão, ele não apareceu para o adeus final na passarela —nunca havia perdido uma apresentação. Retornará no domingo ao teatro, palco de centenas de seus desfiles, quando será realizado o velório que, como ele desejava, será privado.


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