Estudo reforça importância da relação eixo cérebro-intestino, mostra demora até o
diagnóstico e o impacto do absenteísmo na rotina dos pacientes
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SÃO PAULO – Quando se fala em síndrome do intestino irritável (condição também conhecida pela sigla SII), é comum pensar logo em prisão de ventre, diarreia ou dor abdominal. Mas um levantamento inédito mostra que a doença vai muito além do desconforto físico: ela está intimamente ligada à saúde mental. Mais da metade dos pacientes (56%) relatam sintomas de ansiedade e quase um terço (32%) convive também com depressão.
Essa realidade dos transtornos psiquiátricos associados às pessoas com síndrome do intestino irritável reforça um cenário que envolve saúde mental e comportamento. Essa importância da relação entre o eixo cérebro-intestino foi debatida, nesta terça-feira (2), durante evento na Casa Manioca, no bairro Jardim Paulistano, em São Paulo.
Mais de 50% têm sintomas moderados ou graves
Um levantamento inédito com 667 indivíduos (homens e mulheres a partir dos 18 anos), em todas regiões do País, avaliou a incidência, a prevalência e a jornada da síndrome do intestino irritável no Brasil. A pesquisa foi realizada pelo Instituto Inception e pela farmacêutica Apsen, em parceria com o Núcleo de Avaliação Funcional do Aparelho Digestivo (Nafad).
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Dos entrevistados, 53% apresentaram manifestações de moderadas a graves, e 4,6% tinham o diagnóstico confirmado da doença – as mulheres representaram 80% dos casos.
“O estudo mostrou que há uma alta incidência de sintomas moderados a graves. Entretanto, notamos um percentual baixo de prevalência, o que pode sinalizar um cenário relevante de subdiagnóstico. Por isso, conhecer os sinais e sintomas e procurar um médico especialista são questões essenciais para agilizar o diagnóstico, iniciar o tratamento e melhorar a qualidade de vida”, explica o gerente médico da Apsen Williams Ramos.
Síndrome do intestino irritável acomete cerca de 36 milhões de pessoas no Brasil
A síndrome do intestino irritável acomete principalmente mulheres e pode afetar 17% da população, o equivalente a cerca de 36 milhões de brasileiros.
Cada vez mais especialistas têm sublinhado que os impactos da síndrome do intestino irritável vão além do corpo: o sofrimento emocional e os sintomas de ansiedade e depressão podem comprometer a qualidade de vida dos pacientes. Não é à toa que, na literatura médica, o intestino grosso é considerado por muitos como o segundo (ou primeiro) cérebro.
“É um efeito bidirecional. Nós temos uma transformação da microbiota, que produz o tempo todo neuro-hormônios. Esses hormônios, através da ligação com o intestino, ativam estímulos cerebrais. Esses estímulos cerebrais chegam e ativam, ao lado, o nível da emoção: ansiedade, depressão, pânico… Isso leva a um estado de hiperalerta chamado hipervigilância. O paciente, então, desenvolve no intestino, pelo efeito bidirecional, uma hipersensibilidade visceral”, explicou o gastroenterologista Fábio Teixeira, diretor científico do Núcleo de Avaliação Funcional do Aparelho Digestivo.
Intestino e o cérebro estão intimamente ligados
Para ele, não existem primeiro cérebro e segundo cérebro. “Os dois estão conectados, os dois estão interligados. O paciente com síndrome do intestino irritável tem uma desordem, uma desorganização desse eixo (cérebro-intestino), vinda por uma infecção, por uma mudança alimentar, por um trauma emocional, por traumas psicológicos de infância, por excessos e excessos de alimentos errados”, destacou Fábio.
Como a síndrome do intestino irritável se manifesta?
Os sintomas da síndrome do intestino irritável são crônicos e recorrentes. Eles podem variar em intensidade e frequência, ou até mesmo desaparecer ao longo do tempo. Os principais são dores abdominais (queixa mais importante e critério central para o diagnóstico), diarreia, prisão de ventre e/ou gases intestinais.
Além disso, a síndrome pode se manifestar com distensão abdominal, flatulência, sensação de evacuação incompleta, urgência para evacuar e presença de muco nas fezes. O diagnóstico é fundamentalmente clínico, sem a necessidade de uma bateria extensa de exames.
“O valor que cada paciente dá para o seu sintoma e a forma como ele o interpreta dependem do grau de ansiedade, do grau de depressão e de como ele está vivendo naquele momento. Então, numa consulta, nós precisamos perguntar sobre a vida do paciente e como ele dá valor aos sintomas”, disse Fábio Teixeira.
Tratamento da síndrome do intestino irritável
O tratamento da síndrome do intestino irritável depende da natureza e intensidade dos sintomas, do grau de comprometimento funcional e dos fatores psicossociais envolvidos. Existe um consenso, cada vez mais aceito, de que as medidas de atenção primárias são aquelas que refletem o melhor controle dos sintomas.
Nesse contexto, a abordagem individualizada, identificando os fatores desencadeantes ou agravantes dos
sintomas de cada paciente, é a maneira mais adequada de realizar o tratamento. A frequência das evacuações, a consistência das fezes e a satisfação dos pacientes são os melhores indicadores da eficácia clínica.
Também devem ser levados em consideração o estilo de vida e hábitos alimentares do indivíduo. As opções terapêuticas incluem medicações que ajudam a relaxar os músculos do intestino para reduzir o incômodo, adoção de práticas que auxiliam na regularidade e no controle do trânsito intestinal, inclusão de fibras dentro de uma dieta balanceada, hidratação adequada para os casos de constipação (prisão de ventre) e o uso de probióticos como estratégia para reequilibrar as bactérias boas do intestino.
Pacientes esperam até 14 meses por diagnóstico da síndrome do intestino irritável
O levantamento realizado pelo Instituto Inception e pela Apsen, em parceria com o Núcleo de Avaliação Funcional do Aparelho Digestivo (Nafad), mostrou ainda que o diagnóstico da síndrome do intestino irritável pode demorar até 14 meses.
Dos pacientes que chegam ao consultório, 80% são mulheres, 60% recebem o diagnóstico do primeiro médico, enquanto 40% passam, em média, por até dois especialistas antes da confirmação.
A questão do absenteísmo também foi avaliada no estudo: quase metade dos pacientes com síndrome do intestino irritável (46%) já precisou se afastar do trabalho pelo menos duas vezes ao longo da vida.
Campanha
Para ampliar o conhecimento do público sobre a síndrome do intestino irritável, a farmacêutica Apsen, com apoio do Núcleo de Avaliação Funcional do Aparelho Digestivo (Nafad), lança a campanha Pode Ser SII, com foco na identificação precoce dos sinais, sintomas, diagnóstico precoce e tratamento, fatores essenciais para que os pacientes mantenham a qualidade de vida.
O projeto, focado em conteúdos digitais e redes sociais, adota um tom leve para tratar de um tema que ainda envolve tabus. Com o mote “Está na hora de fazer as pazes com o seu intestino. Sua relação complicada com o seu intestino pode ser SII”, a campanha destaca como principal serviço um teste rápido e gratuito disponível neste site: podesersii.com.br. Com base nas respostas, o sistema indica se os sintomas relatados podem sugerir a necessidade de procurar um especialista.
*A jornalista acompanhou o evento a convite da Apsen
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