Bruna Dantas Lobato faz romance sobre imigração que se passa no Skype

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Bruna Dantas Lobato faz romance sobre imigração que se passa no Skype


Um dia, em uma aula de escrita, um professor americano disse à brasileira Bruna Dantas Lobato que ela não podia usar um diálogo para narrar uma ação, com os personagens verbalizando o que estão fazendo. Ela discordou. Voltou para casa, traduziu um conto de Caio Fernando Abreu que se passa todo ao telefone e encaminhou para seu professor.

“Talvez eu fosse uma aluna chata”, diz agora, aos 34 anos. Mas não era isso. Lobato vinha acumulando a impressão de que seus professores valorizavam a literatura do norte global. Era o que pediam que os alunos lessem. “Eu sentia que estava sendo roubada da oportunidade de ler minha própria literatura”, diz.

Parte de sua vingança, por assim dizer, é a publicação de seu romance de estreia “Horas Azuis”, que tem diálogos na espinha dorsal. O livro acompanha as conversas via Skype entre uma mãe e uma filha. “Quis mostrar uma outra literatura para os meus professores.”

O romance saiu em inglês no ano passado como “Blue Night Hours”, pela editora Grove Atlantic. A edição em português —traduzida pela própria autora— sai agora pela Companhia das Letras. Essa vida dupla, incomum na literatura brasileira, faz jus à carreira de Lobato.

A autora nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, fez a graduação no Bennington College, nos Estados Unidos, e por ali seguiu, com um mestrado em criação literária pela Universidade de Nova York e outro em tradução pela Universidade de Iowa.

Foi nos Estados Unidos que construiu a carreira de tradutora. Verteu ao inglês títulos brasileiros como “Morangos Mofados”, de Abreu, e “O Avesso da Pele”, de Jeferson Tenório. Em 2023, sua tradução do romance “A Palavra que Resta”, de Stênio Gardel, recebeu o renomado National Book Award.

“A tradução era uma maneira de estar em contato com o Brasil e com o português”, conta. Essa mesma sensação de isolamento é o elemento organizador de seu romance, no qual narra a vida —parecida com a sua— de uma jovem brasileira que vai estudar nos Estados Unidos e sente falta da mãe.

Uma boa parte do livro é narrada por meio de conversas entre as duas na internet. Lobato carrega o texto com a melancolia de um afeto que, separado pela distância, está sob cerco. As protagonistas têm que aprender a lidar com o fato de que só existem uma para a outra ali, dentro da tela, como se estivessem dentro de um aquário.

Lobato reaproveita muito do que viveu ao deixar o Brasil, há mais de dez anos. Conta que, na noite antes de conversar com a Folha, teve mais uma vez o pesadelo recorrente de que se despedia da sua família.

Foram anos de escrita, durante os quais reestruturou o romance mais de uma vez. Tinha começado mais grandioso, narrando uma saga familiar de três gerações. Foi só mais tarde que decidiu enfocar a delicadeza da rotina das duas mulheres. Percebeu também que queria escrever um romance de formação duplo: não só da jovem que vai morar fora, mas também da mãe que precisa lidar com seu ninho vazio.

“Demorei para encontrar uma estrutura formal que sustentasse a narrativa, como se fosse um pote para segurar uma história meio líquida”, afirma. Essa estrutura são as conversas por Skype e os pequenos inconvenientes do cotidiano —o fato de mãe e filha viverem agora em um outro fuso horário, por exemplo.

No romance, são esses atritos diminutos que vão criando a tensão narrativa, dando conta de como as personagens estão fora de sincronia. “A mãe tem que entender que a filha está sujeita a outras regras, como o sol, que se põe em outro horário.”

O texto também aborda a dolorosa limitação da tecnologia para mediar as relações humanas. Mãe e filha se veem forçadas a explicar uma à outra o que fazem fora da tela do computador. A autora conta que se inspirou na dramaturgia para carregar esses diálogos.

A tela do Skype funciona, assim, como um palco. Lobato explica tudo isso enquanto conversa com a reportagem em uma chamada de vídeo, diante de sua própria cenografia: ao fundo, aparecem um sofá cinza, uma luminária prateada, uma parede branca com um ângulo agudo em um dos cantos.

Lobato conta que às vezes mistura o inglês com o português nas conversas com a mãe, como acontece com outros imigrantes. Mas a confusão entre línguas não a aflige tanto —aproveita para incorporar construções linguísticas de um idioma no outro. “A minha tarefa é que a língua possa conter mais do que continha antes.”



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